Revólver
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Um dos principais grupos responsáveis pela vitória de Jair Bolsonaro nas urnas, os evangélicos adotam cautela em relação à retórica em defesa das armas, bandeira levantada desde a campanha e que o presidente promete começar a tirar do papel a partir desta semana.

Embora já relativizem e apoiem o decreto que Bolsonaro deve publicar nos próximos dias para flexibilizar a posse de armas de moradores de cidades violentas e áreas rurais, lideranças temem o passo seguinte já anunciado pelo presidente: a facilitação do porte, a autorização para que uma pessoa habilitada possa andar armada nas ruas.

Na última sexta-feira (11), o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, afirmou que o decreto sobre posse de armas de fogo deve ser apresentado até esta terça (15).

Neste domingo, uma publicação do jornal O Globo apresentou o ponto de vista de alguns líderes evangélicos.

O bispo Robson Rodovalho, líder da igreja Sara Nossa Terra, se diz favorável à posse de armas, especialmente em áreas rurais, onde considera que as autoridades de segurança são menos presentes. No entanto, teme pelo risco de conflitos nas ruas com a hipótese deliberação do porte.

“O porte é desnecessário. Creio que o dano causado à sociedade seja maior com todo mundo armado num faroeste. Não queremos bangue-bangue”, afirma Rodovalho.

Integrante da bancada evangélica da Câmara, o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), reconhece o quão sensível é a questão do porte de armas entre os evangélicos:

“A maioria dos evangélicos não quer ter armas. Defendemos a vida. A gente sabe que isso vai provocar mortes em discussões de trânsito, em bar, assim como uma maior incidência de casos de violência como ocorrem nos Estados Unidos”, afirma o deputado, em referência a episódios em que atiradores fazem vítimas. “A nossa defesa é a Deus e, depois, estão as instituições terrenais de segurança pública. Uma coisa é a posse dentro da casa, outra coisa é o porte”, completa.

O pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e influente no entorno de Bolsonaro, diz não ser simpático à ideia, mas reconhece que há apoio entre fiéis:

“Eu pessoalmente sou contra armas e qualquer tipo de armamento.”

Senador eleito, Arolde de Oliveira (PSD-RJ) se diz favorável ao armamento, mas tem receio sobre os efeitos porte de armas:

“Se você é a favor da vida, da família, da propriedade, precisa ter condições de autodefesa e a posse é necessária. O porte já é mais complexo. Teria que fazer testes para evitar que o armamento chegue nas mãos de psicopatas e malucos”, afirma Oliveira, representante evangélico no Senado.

Apoio ao porte de armas

Apesar de a maioria das lideranças evangélicas ter restrições ao porte de armas, a ideia encontra acolhida entre alguns integrantes do segmento.

Presidente da Convenção da Assembleia de Deus no Brasil(CADB) e líder da Igreja-Mãe, em Belém do Pará, Samuel Câmara, admite a possibilidade do porte:

“O estado precisa se mostrar eficiente no combate aos bandidos. Caso contrário, o homem de bem terá que se habilitar ao porte para legítima defesa.”

Pastor Samuel Câmara
Pastor Samuel Câmara

Também integrante da bancada evangélica, o deputado Marcos Rogério (DEM-RO) crê que a autorização para porte e posse de arma pode contribuir para a melhora da sensação de segurança.

“Hoje você proíbe as pessoas de bem de terem armas, mas o bandido está armado. É claro que é preciso de critérios claros e justificáveis para conceder a licença”, afirma o deputado, frequentador da Assembleia de Deus.

Pesquisa

De acordo com pesquisa Datafolha, divulgada no fim de dezembro, 61% dos brasileiros são contrários à liberação da posse de armas de fogo.

Mas Bolsonaro se mantém fiel à promessa de campanha em oposição ao Estatuto do Desarmamento, sancionado em 2003.

O objetivo era a criação de um instrumento que diminuísse o número de armas em circulação e ajudasse na redução dos registros de mortes por armas de fogo. O estatuto restringe a venda e o porte de armas no país.

Fonte: O Globo