Mulheres louvando durante culto em igreja. (Foto: Reprodução)
Mulheres louvando durante culto em igreja. (Foto: Reprodução)

Estudo do ISER aponta mudanças na percepção de mulheres evangélicas sobre feminismo, direitos das mulheres e participação política, mas mostra que a maioria ainda não se identifica como feminista.

Uma pesquisa divulgada pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER) revelou que 63% das mulheres evangélicas entrevistadas acreditam que é possível ser cristã e feminista ao mesmo tempo. O levantamento faz parte do estudo “Mulheres evangélicas, política e cotidiano”, realizado entre 2022 e 2025, e sugere transformações importantes na forma como esse público enxerga temas ligados a gênero, direitos e participação social.

Apesar disso, o estudo mostra que a aceitação de algumas pautas associadas ao feminismo não significa adesão ao movimento. Segundo a pesquisa, 70% das entrevistadas afirmaram que não se consideram feministas. O resultado indica que muitas mulheres evangélicas diferenciam determinadas reivindicações, como combate à violência doméstica e igualdade de direitos, da identidade política ligada ao feminismo.

Direitos das mulheres ganham espaço entre evangélicas

Os dados apontam que 64% das entrevistadas acreditam que as mulheres ainda possuem menos direitos do que os homens na prática. Além disso, 42% afirmaram sentir-se sobrecarregadas com as responsabilidades domésticas e 85% defenderam a existência de leis de proteção contra a violência doméstica.

O estudo também identificou uma postura que combina convicções conservadoras com preocupações sociais. Embora a maioria mantenha posições tradicionais sobre temas morais, muitas reconhecem desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano e demonstram apoio a medidas de proteção e valorização feminina.

Aborto e acolhimento pastoral

Quando o tema é aborto, os resultados revelam nuances importantes. A pesquisa mostra que 57% das entrevistadas apoiam a interrupção da gravidez nos casos já previstos pela legislação brasileira. Ao mesmo tempo, 71% afirmaram que votariam em candidatos contrários à ampliação do aborto ou favoráveis à manutenção das regras atuais.

Outro dado que chamou atenção foi o posicionamento sobre acolhimento nas igrejas: 67% defenderam que mulheres que passaram por um aborto devem ser recebidas e acompanhadas pelas comunidades de fé.

Religião e política continuam conectadas

O levantamento também abordou a relação entre fé e política. Cerca de 51,1% das entrevistadas disseram acreditar que religião e política podem caminhar juntas, enquanto 40% defenderam uma separação mais clara entre os dois campos.

Mesmo assim, 64,4% afirmaram que não houve candidatos ligados às suas igrejas nas últimas campanhas eleitorais, indicando que a valorização da participação política não necessariamente significa apoio à politização dos púlpitos.

Conservadorismo segue forte

Na esfera eleitoral, a pesquisa aponta que o conservadorismo continua sendo uma característica marcante entre as evangélicas entrevistadas. O estudo identificou que 80% das mulheres que votaram em Jair Bolsonaro em 2018 mantiveram seu apoio ao ex-presidente nas eleições seguintes. Além disso, Michelle Bolsonaro aparece com imagem amplamente positiva, associada a valores como fé, família e maternidade.

Pesquisa desafia estereótipos

Os pesquisadores afirmam que os resultados ajudam a desmontar a ideia de que as mulheres evangélicas formam um grupo homogêneo. O estudo sugere que suas posições são influenciadas não apenas pela religião, mas também por experiências relacionadas à família, trabalho, segurança, economia e participação social.

Por se tratar de uma pesquisa qualitativa realizada com pouco mais de 180 mulheres de diferentes regiões do país, os dados não representam estatisticamente todas as evangélicas brasileiras. Ainda assim, o levantamento oferece um retrato relevante das mudanças em curso dentro de um dos segmentos religiosos mais influentes do Brasil.

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