Silas Malafaia e Edir Macedo
Silas Malafaia e Edir Macedo

Principal opositor da indicação de Kassio Nunes Marques para a vaga de Celso de Mello no Supremo Tribunal Federal (STF), o pastor Silas Malafaia agora atacou a Igreja Universal que declarou apoio a nomeação do juiz federal.

Em entrevista a Anna Virginia Balloussier, na edição desta quarta-feira (7) da Folha de S. Paulo, Malafaia elevou o tom e acusou a Igreja Universal do Reino de Deus, liderada por Edir Macedo, de fazer um “jogo estratégico nojento”, trocando o apoio à indicação de Nunes pelo de Bolsonaro a Marcelo Crivella (Republicanos) na eleição municipal do Rio de Janeiro.

Para ele, aliado de primeira hora de Jair Bolsonaro, o indicado “tem amizade com a turma do PT” e “posição muito dúbia” sobre aborto. “Precisa de mais alguma coisa?”

A Universal, segundo Malafaia, devolve um favor pela chancela presidencial a dois candidatos a prefeito: no Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, sobrinho do bispo Edir Macedo, e, em São Paulo, o deputado federal Celso Russomanno. Ambos são do Republicanos, partido ligado à igreja.

Na bancada evangélica, circula a versão de que Malafaia já esteve mais em alta com Bolsonaro. Ele associa a ideia a uma “dor de cotovelo” e diz que o presidente, que lhe dá acesso liberado, costuma brincar: “Quando Malafaia bota dois áudios seguidos no meu zap, eu nem escuto, sei que é bronca”.

Confira a entrevista abaixo:

Por que Bolsonaro faz “defesa apaixonada”, como o sr. critica, de um sujeito que não teria a agenda conservadora como prioridade? 

Me parece que Lula, Dilma, nunca vi nomearem alguém que seja de uma ala de direita, contra os princípios ideológicos deles. [Kassio Nunes] é desembargador nomeado por Dilma e tem amizade com a turma do PT. Tanto é que um dos mais ferrenhos inimigos do presidente, o presidente da OAB, elogiou Bolsonaro por escolher o cara. Precisa de mais alguma coisa? A tese dele, quando fala de aborto, é uma coisa muito dúbia.

O sr. diz que foi avisado de antemão pelo presidente sobre o primeiro indicado ao STF não ser “terrivelmente evangélico”. 

Foi o presidente que falou, dizendo que somos mais de 30% da população, e que o Supremo tem católico, judeu, gente da esquerda: por que não um evangélico? Teve uma lista tríplice com 95% da liderança evangélica assinando, e 90% dos 95% apoiando o William Douglas. Desviar o foco dizendo que sou contra o candidato de Bolsonaro porque não foi o meu [indicado] é a coisa mais nojenta.

O presidente disse que vai ser uma segunda [nomeação], a evangélica. Ninguém colocou faca em pescoço de Bolsonaro. Inclusive o bispo da Universal da Unigrejas assinou a lista também. Essa conversinha fiada da Igreja Universal é por interesse político, tá? Um jogo estratégico nojento, político, para agradar, porque Bolsonaro está apoiando Crivella e Russomanno. A Universal que é isolada. Representa 4% dos evangélicos. Isso é onda, puríssima.

Diz o sr.: “Não podemos ter o culto de personalidade, como a esquerda faz”. Isso ocorre com Bolsonaro? 

Tem alguns apoiadores que estão idolatrando o presidente. Isso não é bom nem pra ele. É exatamente o que a esquerda faz. Não crê em Deus, mas faz culto de personalidade. É só ver a história do comunismo no mundo. Apoiar um presidente é salutar, agora, essa idolatria louca de tudo o que ele fala não é bom… Minha filha, todos nós somos passíveis de errar.

O sr. citou o provérbio “quem fere por amor, mostra lealdade; o inimigo multiplica beijos”. Quem são os inimigos de Bolsonaro hoje, no campo aliado?​ É pra dizer a Bolsonaro que aquele que é leal fala a verdade. Amigo é o que fala que o outro está com mau hálito. Não acredito que o presidente tenha inimigos dentro do campo aliado, tem é puxa-sacos.

O sr. já se disse decepcionado com o presidente em outras ocasiões, como ao esnobar Magno Malta. Sente que o presidente o escuta? 

Há dez dias, quando eu soube que a primeira vaga não seria de um terrivelmente evangélico, disse assim: quando anunciar o cara, diga que a segunda vaga vai ser para um evangélico. O sr. falou em muitas reuniões evangélicas, o ser humano faz associação. Daqui a pouco estão dizendo que o senhor é traidor. Ele escutou e falou isso. Tenho voo próprio, penso. Já discordei do presidente no caso do Magno. Bolsonaro até brinca: “Quando Malafaia bota dois áudios seguidos no meu zap, eu nem escuto, sei que é bronca”. Fiz casamento dele [com Michelle]. Não cheguei aqui agora, não, com todo o respeito.

Bolsonaro vetar a anistia a dívidas de igrejas foi recebido como no segmento? 

O governo Dilma, se aproveitando de brechas no código tributário, meteu multa nas religiões. O preconceito é tão desgraçado que querem colocar na nossa conta, mas é com todas as religiões. Elas têm imunidade tributária. O presidente disse: “Não tenho como liberar tudo ou caio na lei de irresponsabilidade fiscal. Vou ter que dar veto numa parte e dizer pros deputados [derrubarem o veto]”.

O sr. já foi aliado de Lula. Algo faria com que um dia volte a sê-lo? 

Apoiei Lula porque acreditava que ele que veio do pobre, do Nordeste, podia fazer transformação no país. Apareci no programa eleitoral dele. Quando comecei a ver diferença entre prática e discurso, me afastei. Meu pai me avisou: “Rapaz, isso é tudo vertente comunista”.

Ouvi de dois membros da bancada evangélica que o sr. anda desprestigiado com o presidente. 

Tenho que rir desta. Tem gente lá que tem a maior dor de cotovelo. Onde tem ser humano, minha filha, tem despeito. Falo toda semana com presidente… É, não tenho prestígio nenhum.

Diz que reviraram “a vida do cara”, de Bolsonaro, e não acharam nada. E o dinheiro depositado por Queiroz, um velho amigo do presidente, na conta da primeira-dama, ou todas as acusações envolvendo Flávio?

O que acho engraçado: por que imprensa não escreveu o que o presidente falou sobre isso? “Ele me emprestou, devolvi acho que com 10 ou 20 cheques”. Qual é o problema de um amigo emprestar dinheiro? E o que o presidente tem a ver com vida do filho? Se o Flávio está devendo, que pague.

Sobre a eleição municipal: o sr. respalda algum nome? 

Aqui no Rio sou amigo do Crivella e do [Eduardo] Paes, tá, dos dois. Se for pro segundo os dois, vou ficar neutro. Em São Paulo, não decidi se vou dar apoio a Russomanno ou se fico neutro.

Fonte: Folha de S. Paulo