Enquanto o mês de junho é tradicionalmente celebrado com festas de santos como Antônio, João Batista e Pedro no calendário católico, a maioria dos evangélicos não participa dessas comemorações. A ausência de veneração ou crença em santos por parte dos evangélicos se fundamenta em preceitos teológicos que remontam às origens do cristianismo e foram reforçados pela Reforma Protestante.
Marcos de Almeida, coordenador acadêmico na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, explica que o culto aos mártires, iniciado no século 2, surgiu em um contexto de perseguição romana. Essas figuras, que sacrificaram a vida pela fé, passaram a ser vistas como representantes que carregavam os sofrimentos de Cristo. A guarda de seus restos mortais e a celebração de suas datas de martírio evoluíram para um ato de invocação intercessória, um distanciamento sutil do fiel em relação a Deus Altíssimo, segundo Almeida, que também é doutorando em Teologia Canônica pela PUC-SP.
A origem de festas como a de São João, ligada a festivais pagãos europeus de solstício de verão e ressignificada pelo catolicismo medieval, exemplifica como práticas culturais foram incorporadas e adaptadas. No Brasil, a festa junina ganhou contornos com elementos africanos e rurais brasileiros. Contudo, a Reforma Protestante, pautada pela doutrina da Sola Scriptura – a Bíblia como única regra de fé e prática –, levou os crentes a rejeitarem práticas não fundamentadas nas Escrituras, como a oração aos santos ou a celebração em sua honra.
Roney de Carvalho, professor de Teologia e História no Centro Universitário Cidade Verde, esclarece que, para os evangélicos, os santos são reconhecidos como exemplos de fé e testemunhas da história cristã, mas não são objetos de oração ou devoção. Ele cita a passagem bíblica de 1 Timóteo 2:5, onde Paulo afirma: “Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus”. A ordem explícita no Antigo Testamento em Êxodo 20:3-5, que proíbe a adoração de outros deuses e a confecção de imagens, também fundamenta essa visão. Marcos de Almeida reforça que a oração do Pai-Nosso, conforme Mateus 6:9, direciona o ato de oração diretamente ao Pai, sem intermediários.
A ressignificação de práticas culturais, como a festa caipira em julho com elementos típicos, demonstra a necessidade humana de símbolos e pertencimento comunitário. Roney de Carvalho observa que muitas práticas do catolicismo popular foram adaptadas pelas igrejas evangélicas, incluindo o uso de objetos devocionais por alguns grupos pentecostais. Ele considera isso menos uma continuidade da devoção religiosa e mais uma adaptação cultural, onde comunidades preservam elementos festivos e de identidade brasileira.
Marcos de Almeida acrescenta que a adoção de festas como a caipira por igrejas evangélicas revela um processo de inculturação, onde a brasilidade se manifesta e a igreja deixa de ser um ambiente de resistência cultural para se tornar parte dela. Carvalho também compara outros eventos gospel, como a Marcha para Jesus e congressos evangélicos, a procissões e novenas católicas, respectivamente.
A idolatria, segundo a perspectiva evangélica, não se limita a imagens e santos, mas abrange a confiança excessiva, dependência e devoção a qualquer coisa que ocupe o lugar de Deus, como trabalho, bens materiais, ou até mesmo pessoas e ministérios. Jesus alertou em Mateus 6:24 que “Ninguém pode servir a dois senhores”. A perda de tais elementos pode levar a um colapso existencial, configurando-os como ídolos. Almeida menciona ainda a “idolatria da unção”, onde um líder busca divinização e exclusividade. A fé cristã, conclui o teólogo, representa um confronto constante com a idolatria em todas as suas formas.
Folha Gospel com informações de Folha de S.Paulo

