Programa infantil exibe adultos nus na Holanda
Programa infantil exibe adultos nus na Holanda

Um novo programa de televisão da Holanda vem provocando questionamentos e críticas sobre a forma de falar de anatomia e sexualidade humana com as crianças.

“Gewoon.Bloot.” (“Simplesmente.Nu.”, em tradução livre), é um programa destinado ao público infantil, no qual meninos e meninas de 9 a 12 anos questionam cinco adultos sem roupa sobre corpo, pele, cabelo, nádegas, seios, pênis, vagina, transgeneridade e peso.

Idealizado pela Warner Bros em coprodução com a emissora pública holandesa NTR, a série é transmitida aos domingos, às 19h20, no bloco infantil NPO Zapp.

Nas redes sociais, “nojento, vulgar e instigar pedofilia” assim como “quebrando tabu e educativo” estão entre as reações opostas que programa recebeu do público.

Em cada episódio, o apresentador Edson da Graça, famoso comediante local, dá às boas vindas em tom brincalhão e pergunta: “Tudo bem se os convidados deixarem seus roupões caírem no chão?”. Com o sinal positivo de todos os participantes, selecionados via agência de elenco, da Graça esclarece que os menores de idade receberam autorização dos pais e adverte a audiência: “Não é certo mostrar suas partes nuas a outra pessoa, sem o consentimento dela, e nem o oposto, caso alguém lhe peça para se despir. Nem mesmo no universo online”.

O primeiro bloco abre com perguntas diretas, ainda que aparentem serem combinadas: “Você costuma esconder alguma parte do corpo que lhe incomoda?”; “Alguém já fez comentário feio sobre seu bumbum?”; “Já desejou que seu pênis ou seios fossem maior?”. Enquanto o tom das respostas tente passar naturalidade, as crianças se mostram envergonhadas e, algumas, constrangidas. Pouco menos da metade compartilha as dúvidas, enquanto a maioria observa.

Perguntas e respostas se intercalam durante 15 minutos, algumas conduzidas inclusive pelo apresentador que traz seu lado humorista. “Opa, me desculpe, você não sabe o que é ereção?”, pergunta da Graça para uma das meninas e já emenda: “Algum dos adultos pode explicar a ela o que é ereção?”.

O programa dividiu opiniões no país. Os que se opõem tentaram impedir a transmissão por meio de uma petição à Câmara dos Deputados com 100 mil assinaturas, cujo temor é gerar efeitos negativos involuntariamente: “Não é apropriado normalizar corpos nus de adultos estranhos perto de crianças. Adultos podem ser capazes de distinguir entre nudez e sexualidade, mas as crianças fazem isso muito menos”, disse o vlogger Daniël van Deutekom, que encabeçou o apelo e aponta para outros perigos: “Esta pode ser uma porta de entrada para mal-intencionados conversarem com as crianças sobre sexualidade, nudez e irem muito além”.

Para Elsbeth Reitzema, do Rutgers, Centro Holandês de Conhecimento sobre Sexualidade que auxiliou no desenvolvimento do programa, ele serve como recurso ao diálogo que não é claro em tantos lares. Ela explica: “Se você assiste com seus filhos, mostra a eles que está disponível para dúvidas ou problemas. Dessa forma, eles obtêm conhecimento e informações corretas, em vez de buscarem apenas de amigos ou pela internet”.

Apesar da proposta educativa do programa, o exagero ou a banalização da nudez pode comprometer o desenvolvimento psico-sexual do ser humano, explica Eliana da Silveira Cruz Caligiuri, Psicóloga e Psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e autora de artigos sobre infância e traumas.

“A vergonha e o pudor são sentimentos importantes pra criança pois levam-na ter consciência sobre a propriedade do seu próprio corpo e decidir que ele seja visto ou não”, afirma Eliana.

Para a psicóloga, existem circunstâncias mais propícias à abordagem desses temas. Além da instrução dentro do convívio familiar, a mesma pode ocorrer nas escolas, onde tempo e espaço adequados tendem a deixar dúvidas fluírem com mais espontaneidade. E podem contar com a ajuda de especialistas como pediatras, endócrinos, ginecologistas e psicólogos.

“A educação que buscam não deve ser somente voltada aos menores, mas também, aos organizadores. Será que o efeito do programa deixará as crianças realmente mais à vontade com o corpo? Caso contrário, criou-se uma enorme exposição em vão”, conclui Eliana.

Fonte: Universa – UOL