Túmulo de Jesus Cristo vazio (Foto: Canva Pro)
Túmulo de Jesus Cristo vazio (Foto: Canva Pro)

A ressurreição de Jesus como um evento histórico tem sido um ponto central de debate e reflexão ao longo dos séculos. Enquanto figuras como Luiz Felipe Pondé, em sua análise sobre o “Jesus histórico”, tendem a dissociar a figura do homem que viveu na Terra do Cristo da fé, argumentando que o primeiro foi um mestre carismático que morreu sem ressurreição, outros acadêmicos, notadamente Nicholas Thomas Wright, defendem uma perspectiva distinta.

N.T. Wright, conhecido por sua rigorosa abordagem exegética, questiona a ideia de que a narrativa da ressurreição foi uma invenção posterior para consolidar o cristianismo, propondo que sua natureza problemática a torna mais plausível como um acontecimento real.

O que poderia ter levado o movimento cristão a ganhar força se os relatos sobre a ressurreição contêm elementos que, à primeira vista, parecem contraproducentes? Essa é a pergunta que Nicholas Thomas Wright, historiador e bispo anglicano, propõe para análise. Ele sugere que, se a intenção fosse criar uma narrativa convincente para a época, os evangelistas teriam evitado certos detalhes que minavam a credibilidade do testemunho inicial. Essa abordagem desafia a interpretação de que a crença na ressurreição foi uma mera “construção social”.

O testemunho feminino e a fragilidade da “construção social”

Uma das evidências apresentadas por N.T. Wright para sustentar a historicidade da ressurreição é o protagonismo das mulheres como primeiras testemunhas. No contexto cultural e legal do primeiro século, o testemunho feminino não possuía validade em tribunais judaicos. Se os seguidores de Jesus tivessem arquitetado uma história para obter aceitação, seria improvável que atribuíssem o papel principal de sua “prova” a um grupo com tão pouca credibilidade social e jurídica.

Essa escolha narrativa, segundo Wright, enfraquece a tese de que os relatos foram criados para persuadir as massas. A inclusão de mulheres como as primeiras a presenciar o evento sugere uma fidelidade aos acontecimentos, mesmo que estes fossem desafiadores para a aceitação da mensagem.

Desafios culturais e teológicos à ressurreição

Wright também aborda as dificuldades que a mensagem da ressurreição enfrentou em diferentes contextos culturais. Para os gregos e romanos, a ideia de uma ressurreição corporal era vista com forte desprezo. Sua valorização da vida espiritual contrastava com a rejeição do corpo físico, tornando a concepção de um indivíduo ressuscitado algo impensável.

Por outro lado, dentro do pensamento judaico, embora houvesse crença na ressurreição, esta era concebida como um evento coletivo, restrito ao juízo final. A afirmação de que um único indivíduo havia ressuscitado no meio da história representava um desvio radical da ortodoxia judaica, tornando a mensagem cristã profundamente contracultural em ambos os cenários.

Movimentos messiânicos e o padrão de dispersão

Outro ponto levantado por Wright é o padrão histórico dos movimentos messiânicos do primeiro século. Diversos líderes surgiram na época alegando serem o Messias, mas sua execução geralmente resultava na rápida dispersão de seus seguidores. O caso de Jesus, no entanto, apresenta uma anomalia: seus discípulos não se dispersaram; pelo contrário, o movimento cresceu e se consolidou.

Essa persistência e crescimento pós-crucificação, contrariando o padrão observado em outros movimentos semelhantes, é apresentada como um indicativo da força da crença na ressurreição, que transcendeu a derrota aparente da crucificação.

Wright e a ameaça da ressurreição

N. T. Wright é descrito não como um crente fundamentalista, mas como um pensador crítico. Ele argumenta que a pergunta crucial não é quem desejava a ressurreição de Jesus, mas sim quem se sentia ameaçado por ela.

Sua visão sugere que aqueles que se beneficiam de uma ordem onde os poderosos e inescrupulosos detêm a última palavra se sentiriam abalados por uma realidade onde tal poder é desafiado.

A referência a Oscar Wilde na peça “Salomé”, onde o rei Herodes proíbe Jesus de ressuscitar, ilustra essa ideia.

Na peça, o rei Herodes, ao ouvir que Jesus havia ressuscitado, diz: “Eu o proíbo de ressuscitar. Achem esse homem e digam isso a ele”. Na cena seguinte, Herodes, com raiva, pergunta: “Onde está esse homem?”. O centurião responde: “Ele está em toda parte, mas é difícil encontrá-lo”.

A ânsia de Herodes em impedir o evento reflete o temor que uma narrativa de ressurreição pode gerar em estruturas de poder estabelecidas, evidenciando que a crença em um evento que desafia a morte e a injustiça representa uma força subversiva para aqueles que se sentem ameaçados por ela.

Texto baseado no artigo do doutor em sociologia pela USP, Valdenei Ferreira, escrito para a Folha de S.Paulo

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