Em encontro com o arcebispo D.Eusébio Scheid, Eduardo Paes ratifica compromisso de campanha; currículo já é adotado na rede estadual e encontra resistência de educadores.

Em 2003, a então governadora Rosinha Garotinho criou intensa polêmica entre educadores, religiosos e intelectuais quando resolveu instituir a obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas. Agora, é a vez de o prefeito eleito do Rio, Eduardo Paes (PMDB) mexer neste vespeiro.

Em encontro com o cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, D.Eusébio Scheid, Paes ratificou o compromisso de campanha de introduzir aulas de religião na rede municipal de ensino, que envolve mais de 1 mil escolas e cerca de 400 mil alunos. O cardeal deixou claro que na campanha deu apoio ao prefeito eleito por conta da sua defesa de princípios morais, principalmente em relação à legalização do aborto e à tolerância em relação ao uso de drogas como a maconha – uma alfinetada no candidato derrotado Fernando Gabeira, do PV, que em determinados momentos de sua vida pública defendeu as duas medidas.

“Paes ratificou e condicionou o voto de muitos. Nós estávamos realmente querendo isso como um princípio de governo”, declarou o arcebispo, em relação ao ensino religioso. D.Eusébio disse que, apesar de ter mantido um bom relacionamento com o prefeito Cesar Maia, ele teria “deixado a desejar” nesse ponto, já que a religião não é ensinada na escolas municipais, ao contrário do que ocorre na rede estadual. De acordo com o religioso, o município já pode pôr o ensino em prática, uma vez que há profissionais habilitados não só entre os católicos, mas também de outras confissões, como evangélicos e espiritualistas, a exemplo do que ocorre no Estado. Segundo Scheid, o material didático também está aprovado e disponível.

O prefeito eleito anunciou que a disciplina será implantada em fases e garantiu que as aulas serão opcionais. “Durante o processo eleitoral, eu já tinha conversado com o cardeal, e esse é um compromisso que eu pretendo cumprir”, frisou Eduardo Paes. Ele anunciou também que o Município vai estabelecer parcerias com as igrejas e entidades religiosas que atuam na área social.

A adoção do ensino religioso nas escolas municipais divide educadores e religiosos. O pastor Odalírio Luis da Costa, da Igreja Congregacional de Acari, subúrbio do Rio, aprova a medida. “Vai gerar o debate em sala de aula e em casa com os pais, além de despertar a curiosidade nos estudantes sobre a religião, seja ela qual for”, acredita.

Para o pastor evangélico, o ensino religioso nas escolas permitirá também que os alunos tenham contato com a teoria criacionista. “As escolas ensinam que o homem veio do macaco. Com as aulas de religião, as crianças saberão que o homem veio de Deus”, opina. Já a professora Estela Scheinvar, da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a inclusão da disciplina nas escolas da rede pública vai contra antigas reivindicações da sociedade para o ensino brasileiro. “Desde a década de 1920, sempre se buscou ensino gratuito, universal e laico (não-religioso)”, lembra. A falta de professores e infra-estrutura nas escolas da rede pública são entraves apontados por Estela para difundir a catequese. “Os conteúdos religiosos são formas de demarcar espaços de controle político. A maior bancada do Congresso é formada por grupos religiosos”, critica.

Atualmente, mais de 500 professores de ensino religioso, todos concursados e necessariamente ligados a determinadas instituições religiosas, atuam na rede estadual fluminense. No caso dos evangélicos, quem fez o cadastro são entidades como a Ordem dos Ministros Evangélicos do Brasil (Omeb). As aulas têm caráter confessional e plural, sendo vedado o proselitismo. No ato da matrícula, os responsáveis pelo estudante informam a opção religiosa familiar. As turmas são separadas por credo, e atualmente contemplam, além dos evangélicos, católicos, espiritualistas. O ensino de religiões afro-brasileiras deve ser implementado em breve, e a quantidade de professores contratados atende a percentuais fixados em pesquisa sobre as confissões religiosas dos alunos.

Fonte: Cristianismo Hoje