A frase acima, um ditado italiano, quer dizer, em uma tradução livre, mais ou menos isso: “todo tradutor é de certa forma também um traidor”. Não há como não concordar com tal ditado. Em toda tradução, de alguma forma algo é perdido ou vertido insatisfatoriamente para a outra língua.

Sempre algum sentido vai ser alterado ou alguma expressão idiomática deixar de ser devidamente adaptada. A razão está ligada não só a diferença de estrutura das diversas línguas, mas também à diferenças culturais e contextos específicos.

Imagine só como seria, por exemplo, traduzir uma expressão tipo “fulaninho é o maior ‘pão duro'”, para o inglês; certamente “hard bread” não faria o menor sentido para nenhum outro país, que não o Brasil.

Em muitas ocasiões, entretanto, a tradução se faz um mal necessário. Muito da nossa tradição hinódica fez uso em larga escala desse expediente. Os primeiros missionários americanos e europeus que chegaram em terras brasileiras, usaram em seus cultos e reuniões hinos escritos originalmente em inglês, vertidos para o português, muitas vezes por eles mesmos. Aliás, vários desses hinos na verdade já haviam sido anteriormente traduzidos do alemão, francês, holandês e até mesmo latim; assim, muitas das versões brasileiras, já eram traduções de traduções.

Alguns missionários optaram por nem tentar uma tradução literal, e partiram para letras totalmente originais e sem relação direta com a poesia original, o que convenhamos é bem mais fácil de encaixar. Naquela época a realidade mercadológica era outra e o conceito de direito autoral, praticamente inexistente.

Hoje em dia muitas bandas e cantores cristãos continuam a fazer uso de versões em português de canções em inglês. O primeiro disco de “Vencedores por Cristo” foi totalmente composto por canções traduzidas, por exemplo. Músicas que minha geração cansou de cantar, como “Nas estrelas” e “Se eu Fosse Contar”, também são traduções.

O ministério “Diante do Trono”, especialmente em seus primeiros Cd’s, usou muitas versões em português de músicas do ministério australiano “Hillsong”. Um bom exemplo é a conhecidíssima “Aclame ao Senhor”, composta por Darlene Zchesch, uma das líderes do citado ministério.

Quando eu era mais jovem, lutei fervorosamente contra qualquer tipo de versão ou tradução; na minha intransigência típica de adolescente, achava que tínhamos que usar em nossas igrejas somente músicas compostas originariamente em português e com ritmos e gêneros musicais brasileiros. Hoje, não vejo nenhum problema nisso. Muito pelo contrário, tenho visto e cantado muitas versões de canções americanas, bem feitas e com razoável fidelidade ao texto original.

Hoje, depois de adquirir mais maturidade, vejo como questão secundária a origem das canções evangélicas. Se a mensagem é condizente com a fé cristã, se edifica, se tem profundidade e coerência bíblica, então não há motivo para não ser usada. Mas, se determinada banda ou cantor decide fazer uma versão em português para capitalizar em cima do sucesso mundial de algum artista estrangeiro, aí a coisa muda de figura, e ficam não muito diferente dos mercadores do templo, querendo lucrar em cima da fé alheia.

Mesmo estando hoje bem mais aberto as traduções e versões, continuo apaixonado pela música e cultura brasileiras. Aqui nos Estados Unidos, onde moro, tenho até tentado fazer o caminho inverso e usar ritmos brasileiros em arranjos de hinos tradicionais, que os americanos gostam bastante, por sinal. Continuo achando que quem melhor pode falar de Cristo para o nosso povo, é a nossa própria cultura, nossa própria língua.

Continuo lutando para resgatar nossa rica cultura popular das mãos do inimigo, e usá-la para o engrandecimento do Reino de Deus. Para que isso aconteça, muitos paradigmas ainda tem que ser quebrados, muitas mentes abertas, e muitos preconceitos descartados. Uma tarefa que cabe a mim e a você também.

Ainda que língua e cultura sejam elementos secundários no contexto cristão, eu gostaria muito e ver o povo brasileiro utilizando a língua portuguesa com qualidade e profundidade para traduzir em forma de música, aquilo que está dentro do coração de Deus.

Um abraço,

Leon Neto