A ascensão do cardeal Joseph Ratzinger ao trono da maior religião cristã do mundo, há um ano e meio, não foi capaz de conter a contínua queda do número de católicos na sua Alemanha natal.

Num movimento que se arrasta pelo menos desde a década de 1950, a cada ano dezenas de milhares de pessoas abandonam a Igreja nesse país onde, ainda assim, 31,5% da população se mantêm fiel a ela.

Entre 1990 e 2004, a redução foi de 8%, o equivalente a 2,27 milhões de alemães. Os números em baixa se traduzem em crise financeira.

A Igreja, subvencionada por impostos eclesiásticos pagos pelos fiéis, tomou medida radical, já adotada antes pelos luteranos: pôs à venda ou para locação centenas de templos.

No bispado de Essen, na região industrial do Vale do Ruhr, o problema é particularmente grave. Entre 1974 e 2004 houve redução de 18,7% no número de católicos, a maior queda no país. Em 2005, o bispado fechou no vermelho em 70 milhões.

Das suas 350 igrejas, cem serão vendidas ou alugadas, com expectativa de uma economia anual de 15 milhões de euros. Mas o processo tem algumas restrições. E uma das mais polêmicas, num momento de relações estremecidas entre o Papa Bento XVI e as

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comunidades muçulmanas em todo o mundo, é a proibição de transformar os edifícios em mesquitas. ‘‘Sim, um templo poderia virar um supermercado ou uma boate. Até mesmo uma sinagoga. Mas há orientação para que não se torne uma mesquita’’, diz Herbert Fendrich, encarregado da venda das igrejas no bispado de Essen. ‘‘Não temos problemas teológicos com os muçulmanos. A questão é psicológica. Nossos fiéis poderiam ficar feridos. Nessa região, a relação entre cristãos e muçulmanos não é boa, e a tensão poderia aumentar. No bispado de Berlim, que engloba diversas cidades e uma comunidade católica minguante, de 412 mil pessoas em 1990 para 380 mil hoje (pouco mais de 5% da população), também é proibida a transformação de igrejas em mesquitas. Contudo, lá elas tampouco podem dar lugar a sinagogas.

O porta-voz do bispado da capital, Stefan Förner, alega que não seria uma boa idéia fazer templos de outras religiões em lugares antes dedicados a cultos cristãos: ‘‘A história recente dos judeus na Alemanha fala por si. Quanto aos muçulmanos, não sei se sequer estão interessados. Grupos islâmicos moderados nos pediram que não vendêssemos a radicais, que considerariam isso uma vitória sobre o cristianismo. Segundo o porta-voz, a Conferência dos Bispos da Alemanha estabeleceu hierarquicamente as possibilidades de utilização das igrejas desativadas: elas deveriam prioritariamente abrigar centros sociais católicos. Em segundo lugar, templos de outras designações cristãs. Em terceiro, centros culturais. Em quarto lugar, poderiam ser fechadas. E por fim, simplesmente demolidas. ‘‘O desemprego e a perda de católicos provocaram crises em todos os bispados, até em Munique, onde há mais católicos. Os custos de manutenção da igreja e de uma mínima calefação, necessária no inverno, são altos.

Na Alemanha, alugam-se igrejas para eventos

A berlinense Thekla Wolff tem um emprego pouco comum. Sua função é encontrar clientes que se interessem em usar uma igreja como salão de festa. Não tem sido tão difícil. No ano passado, a empresa de Thekla, a Kulturbüro Sophien, organizou em só um dos espaços disponíveis 330 eventos. Mas a novidade não é barata. Uma grande empresa pode pagar até 15 mil por um dia.

O sucesso da idéia se deve à crise financeira pela qual passam as Igrejas Católica e Luterana no país do papa. Mergulhadas em dívidas e tendo de arcar com altos custos de manutenção, as duas instituições foram forçadas a procurar soluções drásticas. A saída foi vender ou alugar os templos.

O problema é conseqüência da crise econômica e demográfica da Alemanha. Lá as Igrejas são sustentadas pelo imposto eclesiástico, equivalente ao dízimo, mas descontado da folha de pagamento. A lei permitia que as Igrejas contassem com uma fonte de renda abundante. A comodidade acabou, porém, com o aumento nos últimos anos do desemprego e do número de aposentados, isentos do imposto. O desemprego na Alemanha é de 10,6%, enquanto 19% dos alemães têm mais de 65 anos.

‘Antes a Igreja gastava sem se preocupar’, critica o teólogo Herbet Fendrich, encarregado da reestruturação das igrejas de Duisburg, que pertencem ao Bispado de Essen. Das 250 igrejas do bispado, 100 serão vendidas ou alugadas.

A decisão criou um desafio. Qualquer mudança em um local considerado sagrado pode gerar mal-estar. Por isso, as Igrejas têm agido com cautela, estudando cada proposta. Entre as finalidades preferidas estão as culturais, artísticas e comunitárias. ‘Queremos criar um diálogo entre a arte e a religião’, explica Thekla. Mas é preciso esclarecer aos interessados que o espaço segue sendo um templo e, assim, não se trata de um vale-tudo. ‘Já recusei a filmagem de um comercial porque queriam que um skatista pulasse sobre um caixão.’

Outra saída é ceder templos para outra denominação cristã. Dar lugar a uma mesquita, no entanto, foi idéia rejeitada categoricamente por católicos e luteranos. ‘A Igreja Católica não tem objeções teológicas, mas hoje isso poderia aumentar as tensões entre as duas comunidades religiosas’, afirmou Fendrich.

Desafios à parte, a nova atividade está crescendo. Alívio para as Igrejas e lucros para Thekla.

Fonte: Diário do Nordeste e Estadão