O bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, 61, em greve de fome há dez dias contra a transposição das águas do rio São Francisco, disse ontem, em Sobradinho (540 km de Salvador), que a “batalha” que trava contra o governo “será longa” e com final “imprevisível”.

O religioso, que anteontem apresentou sinais de desidratação e anemia, afirmou que o apoio que está recebendo torna “irreversível” sua decisão de manter o jejum “até o fim”. Ele condiciona o fim do protesto à paralisação das obras e ao arquivamento do projeto. O governo diz que não recuará.

O bispo aparenta boa saúde. Desde quarta-feira, por recomendação médica, ele bebe soro caseiro ao invés de água e descansa três vezes ao dia. “Me sinto melhor agora do que na primeira greve de fome”, disse, referindo-se ao protesto de 11 dias realizado pelo mesmo motivo, dois anos atrás.

“A pressão arterial está normal, e a cabeça funciona bem”, declarou. Ele acredita que pode prolongar o jejum por mais um mês. “Para a ciência, a vida de uma pessoa termina em quatro: quatro minutos sem respirar, quatro dias sem beber água e 40 dias sem comer.”

Em solidariedade ao religioso, várias pessoas que o procuram na igreja de São Francisco, em Sobradinho, realizam jejuns de 24 horas. O local tornou-se ponto de romaria. Todos os dias, fiéis desembarcam de ônibus em frente à igreja para pedir a benção e tirar fotografias ao lado do bispo.

Cappio passa a maior parte do tempo sentado em uma cadeira de madeira, na sacristia, sob a mira de um ventilador. A porta só se fecha quando ele descansa em um colchão colocado diretamente sobre o piso de cimento vermelho.

Ele deixa o local apenas para receber as caravanas. Conversa com as pessoas em uma área gramada, sob a sombra de duas árvores. Ontem, ele atendeu 32 fiéis da Igreja Católica de Xique-Xique (BA), que viajaram 740 quilômetros para vê-lo.

O bispo também recebeu a visita do artesão José Afonso da Cunha, 59, que há dez anos interpreta o papel do líder religioso popular Antonio Conselheiro (1830-1897), nas festas realizadas em Canudos (BA). Cunha cumprimentou Cappio com a bata azul que utiliza nos eventos e comparou o bispo a Conselheiro: “Os dois se sacrificaram por uma causa”.

A pressão da igreja pelo fim da greve de fome também continua. Ontem, o religioso ouviu do arcebispo de Feira de Santana (BA), Itamar Vian, proposta para que trocasse o jejum por uma peregrinação no rio. Cappio descartou a possibilidade.

Ele confirmou que participará de mais uma manifestação contra a transposição, em Sobradinho. O evento, marcado para domingo, prevê 12 horas de atividades. Os organizadores querem reunir 10 mil pessoas. Um palanque e barracas de lona plástica estão sendo erguidos ao lado da igreja.

O projeto de transposição prevê o desvio de até 26 mil litros de água por segundo, do rio São Francisco para canais e leitos secos nos Estados de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba. Segundo o governo, 12 milhões de pessoas serão beneficiadas no semi-árido. Para Cappio, a água servirá apenas ao agronegócio.

Fonte: Folha Online