Bolsonaro visita a igreja de Silas Malafaia, dois dias depois de ser eleito presidente do Brasil
Bolsonaro visita a igreja de Silas Malafaia, dois dias depois de ser eleito presidente do Brasil

Gabriela Fujita Do UOL, em São Paulo – Três dias antes do primeiro turno das eleições 2018, uma pesquisa Datafolha indicava que o então candidato Jair Bolsonaro (PSL), declaradamente católico, levaria metade dos votos entre os evangélicos.

O apoio de lideranças religiosas, especialmente do nicho pentecostal, já ancorava a candidatura do capitão da reserva, entre eles Edir Macedo (Igreja Universal do Reino de Deus), José Wellington Bezerra da Costa (Ministério Belém, da Assembleia de Deus) e Silas Malafaia (Vitória em Cristo, ligado à Assembleia de Deus).

Às vésperas do segundo turno, a preferência por Bolsonaro (contra o petista Fernando Haddad) entre os evangélicos alcançava 69%.

Para o antropólogo Ronaldo de Almeida, o aval de bispos e pastores apenas chancelou um voto que já estava decidido. Bolsonaro, ele afirma, se empenhou em direção à comunidade evangélica, com foco na sua parcela mais conservadora.

O voto evangélico é tema de uma pesquisa coordenada por Almeida, em uma parceria da Unicamp (Universidade de Campinas) com o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).

Mergulho na religião

“O primeiro e o principal sinal foi o seu batismo no rio Jordão (Israel), em 2016, feito pelo pastor Everaldo (presidente nacional do PSC), logo após o impeachment [de Dilma Rousseff]. Depois, ele sinalizou com a mulher e os filhos evangélicos, colocou citações bíblicas no programa [de governo], colocou a palavra Deus no lema de sua campanha e, principalmente, adotou a pauta relativa às questões de sexualidade, gênero e reprodução.”

Além disso, Almeida lembra do discurso contra a corrupção, que “também foi algo que mobilizou os evangélicos de um ponto de vista moral”.

“Lá pela metade do primeiro turno, quando houve o apoio de lideranças ao Bolsonaro, como o Edir Macedo e outros tantos, o povo evangélico, na verdade, já tinha ido com ele. Essas declarações de voto foram muito mais uma chancela do que uma recondução do voto em direção a Bolsonaro.”

Em entrevista ao UOL, o antropólogo falou também sobre a frustração, nesse sentido, do desempenho de Marina Silva (Rede), naturalmente associada à comunidade evangélica, e sobre a “disputa pela moralidade pública” que ocorre nesse segmento.

“Marina fez o possível para deixar religião no plano privado”

Candidata da Rede à Presidência, Marina Silva saiu do primeiro turno com apenas 1% dos votos totais. Duas semanas depois, declarou “voto crítico” em Fernando Haddad (PT), adversário de Bolsonaro no segundo turno.

Ela justificou, entre outros motivos, que o apoio a Haddad se dava por uma questão de “consciência cristã”.

“Outro motivo importante para a definição e declaração de meu voto é a minha consciência cristã, valor central em minha vida”, declarou. “Muitos parecem esquecer, mas Jesus foi severo em palavras e duro em atitudes com os que têm dificuldade de entender o mandamento máximo do amor.”

Para o pesquisador Almeida, no intuito de manter sua religiosidade no campo particular de sua vida, a candidata acabou abrindo mão de um contingente significativo de eleitores.

“Por vários motivos, ela foi encolhendo o seu eleitorado. Do ponto de vista religioso, minha percepção é que a Marina foi fazer um discurso pró-Estado laico a tal ponto que se descaracterizou um pouco de uma bandeira evangélica que pudesse mobilizar esse voto.”

“Ela é evangélica, mas faz o máximo possível para deixar no plano privado, como decisão pessoal. Em 2014, chamaram ela de criacionista. Ela disse: ‘Eu, como 94% da população brasileira, acredito que Deus criou o mundo. O que é diferente de perguntar se eu acho que isso deveria ser ensinado na escola’.”

Em relação ao apoio evangélico ao PT, Almeida entende que havia, sim, um eleitor do ex-presidente Lula nesse nicho, mas que acabou não migrando para Haddad.

“No processo de transição, esse eleitorado vazou e caminhou em direção ao Bolsonaro. O adversário, que era do PT, tentou também apelar para questões de ordem moral, de valores, como a questão da tortura, da violência de Estado, machismo, apoio às minorias, apelo à democracia, mas, digamos que isso tocou pouco o coração desses evangélicos.”

“Costumes e segurança é a identidade dele”

A influência de personalidades religiosas na política não é inédita, mas o voto evangélico teve seu peso em 2018. Na votação proporcional — para escolher representantes no Legislativo –, houve um aumento de 10% na bancada evangélica na Câmara dos Deputados e um salto de três para sete senadores.

“A novidade é o chefe do Executivo. A bancada está em 20 e vai para 30, mas você tem um cara que está a fim disso. [Bolsonaro] mudou o patamar dessa coisa dos costumes. Ele foi eleito e agora tem que entregar. Ele tem vontade de entregar, e isso está dando certo politicamente para ele.”

O antropólogo entende que será necessário negociar mais a partir de janeiro de 2019, quando Bolsonaro tomará posse: “Vai ter que baixar o tom na gestão. Mesmo que ele baixe o tom, ele tem disposição a deixar em evidência essa linha mais dura do discurso dele. A coisa dos costumes e a coisa da segurança. Isso é a identidade dele.”

Por enquanto, o pesselista tem pouca oposição e ainda está “sob efeito da eleição”, avalia Almeida.

“Esse movimento, pelo menos na conta moral, ele já fez com o ministro da Educação e com o das Relações Exteriores. Já foram dois movimentos fortíssimos nessa direção. É bem interessante o da Educação, porque ele foi no ponto em que o lugar da disputa é a instituição.”

“Metade dos evangélicos eleitos pertence a duas igrejas”

A Assembleia de Deus é a maior denominação evangélica do Brasil. Fundada em 1911, se divide em várias ramificações e tem grande capilaridade, organizada em convenções em torno de certas lideranças, como pastor Wellington Costa (Ministério do Belém), pastor Samuel Ferreira (Brás), pastor Silas Malafaia (Vitória em Cristo) e pastor Marco Feliciano (Catedral do Avivamento), que se reelegeu deputado federal pelo Podemos de São Paulo.

A Igreja Universal do Reino de Deus é comandada pelo bispo Edir Macedo, dono da Record TV e do Grupo Record, e tem uma ação mais piramidal e centralizada nas suas campanhas, com seus candidatos oficiais, quase todos concentrados no PRB, como o bispo licenciado Marcos Pereira (presidente nacional da sigla, eleito deputado federal em 2018 por São Paulo) e Celso Russomanno (reeleito deputado federal em 2018 por São Paulo, atual líder na Câmara).

Ronaldo de Almeida, antropólogo e pesquisador da Unicamp/Cebrap Imagem: Reprodução/Facebook
Ronaldo de Almeida, antropólogo e pesquisador da Unicamp/Cebrap Imagem: Reprodução/Facebook

“É interessante observar que metade dos candidatos evangélicos eleitos pertence a essas duas igrejas principais: Assembleia de Deus e Igreja Universal”, aponta o pesquisador Almeida. “As candidaturas evangélicas são mais baratas do que a média do Congresso, o que indica uma forte capacidade de coordenação eleitoral dos seus fiéis, dos seus templos, trabalhando voluntariamente como uma militância.”

“O efeito disso é que os deputados federais [ligados à Universal] cresceram em 2018, em relação a 2014, no PP e no PRB. A Assembleia de Deus está em 13 partidos, tem um número maior, mas é fragmentada, com convenções estaduais, numa lógica mais regional.”

Para Almeida, se fala hoje da interferência de religião em política porque, de uma certa forma, mudou o perfil religioso brasileiro, que se tornou mais plural.

“Sempre houve uma presença forte do catolicismo, isso está se colocando agora como efeito do pluralismo. Essas religiões compõem segmentos e, de uma certa forma, estão na disputa pela representação. Do ponto de vista da democracia, cabe lidar com ela.”

Ao declarar que iria transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv (capital israelense) para Jerusalém, Bolsonaro ampliou a simpatia recebida de boa parte da comunidade judaica no Brasil. Ele já havia conquistado o apoio de empresários judeus, que chegaram a afirmar que mais de 90% dessa comunidade estaria a seu lado.

“Eu vejo uma relação [entre o que atrai evangélicos e judeus], que é muito o jeito dos evangélicos mais conservadores pensar, ou essa tradição evangélica que tem no Brasil, que basicamente é muito de origem norte-americana. Uma relação com Israel, contra um discurso islâmico, isso faz um pouco parte dessa cultura norte-americana, e ela veio junto com os evangélicos daqui. Há ressonância, sim, no que o Bolsonaro diz”, avalia o pesquisador.

“Quando ele sinaliza para os judeus que vai mudar [a embaixada brasileira] da capital para Jerusalém, ele está também sinalizando para os evangélicos. Tem uma forte ênfase aí no Velho Testamento, um pensamento mais mitológico, inclusive com Israel contemporâneo, pós-1948.”

“Toda essa disputa, isso tudo é muito trabalhado biblicamente, nos próprios sermões, a experiência atual de Israel com o Velho Testamento. Tudo isso passa por uma mediação desse evangelismo norte-americano. Bolsonaro faz esse duplo aceno.”

“Entre um candidato moral (Bolsonaro) e outro, digamos, de ordem mais política (Haddad), os evangélicos optaram por esse mais de ordem moral. Pensaram que fizeram esse movimento do púlpito ao palanque, mas alguns políticos foram do palanque para o púlpito, para dentro da igreja. O Jair Bolsonaro fez esse movimento.”

Fonte: UOL