Os planos do papa Bento 16 de permitir a celebração de missas em latim provocou protestos entre o clero católico da França, um grande centro da dissidência tradicionalista que o pontífice espera atrair para a igreja católica com a medida.

Cinco bispos e 30 padres — um número considerável em uma instituição normalmente avessa a manifestações abertas de oposição — mostraram-se profundamente preocupados com a concessão a ser feita ao cisma de ultraconservadores que rejeitam as reformas do Concílio Vaticano Segundo (1962-1965).

A lealdade obstinada às missas em latim, ou missa Tridentina, costuma caminhar de mãos dadas com a rejeição das reformas daquele Concílio, responsável por abrir a Igreja para o respeito a e a cooperação com outras crenças religiosas e que determinou a realização das missas nas línguas modernas de cada país.

O protesto dos clérigos franceses, divulgado em meios de comunicação católicos, aponta para os problemas que o Vaticano deve enfrentar se, conforme relataram membros da Santa Sé, determinar, em breve, que os padres estão livres para celebrar a missa em latim.

A exigência de um regresso à missa Tridentina — uma cerimônia austera que os padres celebram em latim com as costas voltadas para uma congregação que deve ficar em silêncio — é feita por um grupo bem pequeno dos 1,1 bilhão de católicos do mundo.

No formato atual das missas, o padre realiza a celebração de frente para os fiéis, que oram e cantam durante o culto.

“Isso pode criar dificuldades sérias, especialmente para os que continuaram leais ao Vaticano Segundo”, afirmou o bispo Robert le Gall, de Toulouse, ao jornal católico La Croix.
Em uma carta aberta, 30 padres jovens disseram que o Papa, de 79 anos, deveria incentivá-los a “trabalhar com o mundo como ele é em vez de nos atirar de volta para a vida litúrgica de outra era”.

Oposição

Vinda do século 16, a missa Tridentina foi descartada nos anos 60 e, agora, só pode ser celebrada com a autorização especial de um bispo.

Mas a Sociedade do Santo Pio X (SSPX), um grupo com sede na Suíça fundado pelo falecido arcebispo francês Marcel Lefebvre para opor-se às reformas do Concílio Vaticano Segundo, exigiu uma permissão total, ou um indulto, para a missa Tridentina como condição para regressar ao seio da Igreja Católica.

O atual líder da SSPX, bispo Bernard Fellay, e outros dirigentes do grupo foram excomungados em 1988.

Segundo Fellay, o Vaticano está prestes a aprovar o indulto capaz de garantir o retorno da SSPX à igreja.

Mas o bispo insiste que o grupo, que conta com 1 milhão de participantes, grande parte deles vivendo na França, continuaria a contestar as reformas daquele Concílio de dentro da Igreja Católica, criando uma oposição leal e ávida por fazer o Vaticano voltar às práticas do passado.

O Vaticano já provocou um protesto em Bordeaux ao readmitir cinco padres da SSPX que realizaram uma missa Tridentina dentro de uma igreja ocupada por eles na cidade.

O cardeal Jean-Pierre Ricard, arcebispo de Bordeaux e chefe da Conferência dos Bispos da França, pediu aos católicos franceses que recebam de braços abertos os padres que regressarem ao seio da igreja.

“Podemos ser caridosos e recebê-los bem, mas também temos de ser honestos”, afirmou o bispo Andre Lacrampe, de Besançon, ao jornal L’Est Republicain. “Não estou pronto para recebê-los porque não se pode apagar o Vaticano Segundo com uma canetada”.

“Há razões teológicas bastante dolorosas e profundas por detrás desse cisma”, disse o bispo Claude Dagens, de Angouleme, ao semanário católico La Vie. “Não se pode pretender que a ruptura do arcebispo Lefebvre com a Igreja baseou-se apenas na questão litúrgica”.

O arcebispo Gerard Defois, de Lille, afirmou que alguns fiéis da SSPX estavam ligados a movimentos políticos de extrema direita e observou, em um comunicado, que alguns deles haviam recorrido a “métodos violentos para ocupar igrejas”.

Fonte: G1