Marcelo Bretas é juiz da 7ª Vara Criminal de Justiça Federal no Rio de Janeiro.
Marcelo Bretas é juiz da 7ª Vara Criminal de Justiça Federal no Rio de Janeiro.

No dia em que assinou o pedido de prisão do ex-presidente Michel Temer, o juiz federal Marcelo Bretas postou em sua conta no Twitter a foto de uma construção arruinada, citando um versículo do livro bíblico dos Provérbios: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda”.

Juiz da Lava Jato no Rio e responsável pela 7ª Vara Criminal de Justiça Federal na cidade, Bretas é assíduo nas redes sociais.

Os verbetes bíblicos que costuma compartilhar denotam o evangélico fiel que é – mas também seu perfil, com recados e provocações implícitas em suas citações cristãs e frases de efeito.

“Viver com obediência a princípios éticos e morais não é fácil, mas vale muito a pena”, postou na véspera da prisão de Temer. “Há uma ‘batalha’ em curso, uma disputa entre o certo e o errado, o justo e o injusto. Assim é a vida, em todos os tempos…”, pregou na semana passada.

Nesta quinta-feira, a pedido da Força Tarefa da Lava Jato no Rio de Janeiro e com autorização do juiz de 49 anos, a Polícia Federal prendeu o ex-presidente Michel Temer (MDB) – o segundo chefe de Estado brasileiro, depois do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a ser preso.

Bretas ganhou notoriedade como o “Sérgio Moro carioca”, com sua trajetória marcada por prisões de figuras poderosas como o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (MDB) e o empresário Eike Batista, outrora o homem mais rico do Brasil.

O magistrado nasceu em Nilópolis, na Baixada Fluminense, na região metropolitana do Rio. É casado com a juíza Simone Diniz Bretas, que conheceu nos tempos de estudante de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O casal tem dois filhos adolescentes.

O juiz é evangélico, frequentador da Comunidade Evangélica Internacional da Zona Sul, no bairro do Flamengo, onde vive. É torcedor do time homônimo, e costuma postar fotos com a camiseta rubro-negra.

Tem um irmão pastor e citou um versículo da Bíblia – retirado do livro de Eclesiastes – na decisão que autorizou a operação Calicute, quando Cabral foi preso, em novembro de 2016. Diz separar trabalho e religião, mas a Bíblia está sempre à mão para consultas.

Como hobby, gosta de tocar bateria e tem evidente prazer por malhar, como demonstra em sua conta no Instagram: na academia, se exibe para fotos no espelho, como a que postou recentemente expondo os braços, de camisa regata.

Para um advogado que prefere não se identificar, a religiosidade e um “senso de justiceiro” interferem na atuação de Bretas como juiz, que considera “desequilibrada”.

“Ele tem a Bíblia sobre a mesa, e não a Constituição Federal”, afirma. “Ele julga as pessoas como se fosse emissário de uma divindade, decidindo se perdoa ou não perdoa”, critica.

Procurado pela BBC News Brasil, Bretas afirmou não ser um bom momento para se pronunciar. O juiz é avesso a entrevistas – mas costuma ser acessível a jornalistas. Responde a mensagens pelo WhatsApp e conversa informalmente com repórteres antes das audiências na 7ª Vara Criminal no Rio, que costuma ficar lotada para os inquéritos mais relevantes – como os múltiplos interrogatórios que já fez com o ex-governador Sérgio Cabral.

Costuma tratar os réus com humanidade e permitir que familiares estejam presentes nas audiências. Em 2018, permitiu que Cabral conhecesse o neto de três meses durante audiência, autorizando um encontro reservado de alguns minutos do então réu com a família. Em outras ocasiões, permitiu que Cabral conversasse por alguns minutos com sua mulher, Adriana Ancelmo.

Fonte: BBC News