Barreiras arquitetônicas e falta de intérpretes de Libras impedem a participação de fiéis com deficiência em cultos e atividades religiosas
Muitas igrejas cristãs permanecem física e socialmente inacessíveis para pessoas com deficiência, impedindo a comunhão e a participação ativa em atividades religiosas. Templos religiosos de variados portes apresentam barreiras estruturais que dificultam ou chegam a impedir a entrada de fiéis que utilizam cadeiras de rodas ou possuem mobilidade reduzida. O alerta sobre esse cenário de exclusão foi compartilhado em um vídeo publicado no Instagram pela criadora de conteúdo cristã Isabel Ferraz De Andrade, de 20 anos, que é pessoa com deficiência (PCD).
Isabel questionou a preparação das comunidades religiosas para acolher adequadamente esse público.
“Você já se perguntou se a sua igreja está preparada para receber uma pessoa com deficiência? Se você conseguisse evangelizar e levar para a igreja uma pessoa que usa a cadeira de rodas, por exemplo, você acha que ela conseguiria se sentir incluída naquele culto? Ou será que ela não conseguiria nem passar pela porta?”
A influenciadora relatou uma experiência pessoal vivida em um retiro religioso situado em uma propriedade rural afastada, onde uma participante compartilhou o receio de levar a própria mãe devido ao histórico de entraves arquitetônicos em eventos do tipo.
“Um tempo atrás eu fui em uma espécie de retiro, que ficava numa chácara mais afastada, e uma irmã chegou em mim falando: ‘Nossa, eu fiquei muito feliz de te ver aqui. Fazia uns dois anos que eu queria vir, e esse ano eu vim sozinha e não trouxe a minha mãe, porque eu tinha medo de não ser um lugar acessível’”
A falta de planejamento arquitetônico afeta de forma ampla a locomoção de fiéis que frequentam templos de diversas linhas doutrinárias, incluindo construções com designs antigos e modernos.
“Eu já vi tantas e tantas igrejas que são completamente inacessíveis para pessoas com deficiência. Tem igrejas que só tem um santuário de cultos no segundo andar, por exemplo, ou só tem uma rampa que é completamente inacessível, porque não é toda rampa que é acessível, como também nem tem rampa de acessibilidade”
Pequenas elevações ou degraus simples logo na entrada de edifícios tradicionais representam um grande impedimento de mobilidade, afetando não apenas os cadeirantes, mas também o público de idade avançada.
“Até mesmo em igrejas com uma arquitetura mais tradicional, é muito comum a gente ver na porta de entrada dois a três degraus, o que dificulta não só para pessoas com deficiência, que muitas das vezes não conseguem nem acessar, como também para pessoas idosas”
A influenciadora destacou que a ajuda física improvisada é um paliativo que desrespeita o conceito básico de autonomia do indivíduo.
“Lembrando que se a gente precisa carregar uma pessoa com deficiência para que ela tenha acesso a um determinado local, isso não é acessibilidade”
Desperdício de talentos nas comunidades
A falta de infraestrutura adequada e de livre trânsito pode silenciar membros que poderiam contribuir ativamente com as reuniões por meio de suas aptidões pessoais.
“Quantos dons, chamados, talentos estão sendo impedidos de florescer por causa de um degrau? Quantas pessoas poderiam estar louvando, pregando, adorando e não estão exercendo porque são impedidas de acessar esses espaços?”
Exclusão em programações externas e barreiras de comunicação
A barreira à integração se estende para além das estruturas físicas dos templos principais, alcançando eventos externos organizados pelas congregações, como acampamentos e retiros de campo. A inclusão verdadeira exige pertencimento e a oportunidade de servir ativamente, demandando também acessibilidade que contemple a comunicação.
“Muitas igrejas, quando vão fazer eventos externos, por exemplo, retiros em chácaras, não pensam em um local com acessibilidade. E esses eventos me machucam especificamente porque a inclusão não é sobre a pessoa conseguir entrar na igreja, que às vezes é acessível. É sobre fazer com que a pessoa consiga se sentir pertencente, que ela consiga permanecer, participar, servir também”
Para a jovem de 20 anos, o debate precisa ser expandido para aspectos que vão além do acesso físico básico.
“Quando pensamos em acessibilidade, eu acho que isso vai muito além de somente acessibilidade física. Quantas igrejas imensas que não tem um trabalho de tradução em libras, por exemplo”







