Após audiência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília, o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Geraldo Lyrio Rocha, e o secretário-geral d. Dimas Lara Barbosa admitiram ontem que não há consenso na Igreja em relação à greve de fome do bispo de Barra (BA), d. Luiz Flávio Cappio, contra a transposição do Rio São Francisco.

“Em torno dessa questão não tem muita unanimidade”, frisou d. Geraldo. Ele relatou que uma parte dos bispos diz que d. Luiz põe em risco a própria vida, afrontando princípios da Igreja. Outro setor argumenta que ele não busca a morte.

De acordo com um interlocutor, Lula avisou à CNBB que não tem condições de ceder à pressão de d. Luiz, já que, ao atender a uma demanda “individual”, abriria um precedente perigoso. O governo, ressaltou o presidente, não pode parar as obras por causa de uma greve de fome, sob risco de ficar paralisado. Por fim, Lula se disse disposto a retomar o diálogo com d. Luiz e propôs um seminário.

Sem esconder o desconforto com o resultado da audiência, d. Geraldo se limitou a comentar que Lula também estava “preocupado” com a vida de d. Luiz. “É claro que todos nós tememos a morte do bispo, por isso a CNBB desejou conversar com o presidente. Queremos d. Luiz vivo.” Lula já reclamou, em diversas ocasiões, do protesto. Diz que optará pela vida de milhões de nordestinos, que dependem das obras da transposição.

Representantes da CNBB ouvidos por uma rádio do Recife disseram que a entidade pediu orientação a especialistas em direito canônico. A entidade quer uma avaliação do caso levando em conta as normas da Igreja.

Vida da igreja

D. Geraldo diz que a atitude do bispo de Barra não é “suicida”, mas admite que o protesto arranha a imagem da Igreja. “Claro que a vida de um bispo é a vida da Igreja.” Em carta entregue a Lula, a CNBB ressalta estar à disposição para colaborar na retomada do diálogo.

Sem comer há 16 dias, d. Luiz recebeu com tranqüilidade a decisão do governo de continuar com o projeto: “Estou satisfeito por ter o apoio da CNBB nesta luta.”

D. Geraldo avisou que vai visitá-lo nos próximos dias para discutir a greve. “Neste momento, estou mais preocupado com a saúde da democracia do Brasil do que com a minha própria”, disse d. Luiz, que já perdeu cinco quilos.

O bispo afirmou que as obras da transposição, do jeito como estão sendo feitas, mostram o caráter autoritário da administração federal. “Parece que estamos entrando em uma ditadura, se já não estamos vivendo nela.”

Fonte: Estadão