O Holocausto nazista não impulsionou a criação do Estado de Israel, em 1948, mas provocou seu atraso, ao exterminar grande parte da juventude sionista, sustenta o pesquisador israelense Yehuda Bauer, em sua ampla tese.

“Pensar que Israel é um produto do Holocausto é um erro absoluto”, sentenciou Bauer em um recente seminário organizado pelo Museu do Holocausto, vencedor do último Prêmio Príncipe de Astúrias da Concórdia.

O historiador, nascido em Praga, em 1926, e considerado uma excelência no estudo da “Shoah” (sinônimo para Holocausto), só abre mão de seu tom de voz pausado para contestar a predominante idéia de que o Holocausto sensibilizou a comunidade internacional para a necessidade de ceder um Estado ao povo judeu. Essa interpretação está presente, inclusive, na Declaração de Independência de Israel.

“O Holocausto nazista, que engoliu milhões de judeus na Europa, provou novamente a urgência de restabelecer o Estado judeu”, reza o texto lido por David Ben Gurion, em Tel Aviv, no dia 14 de maio de 1948, horas antes que seus vizinhos árabes iniciassem sua primeira guerra contra o Estado judeu.

Bauer argumenta, pelo contrário, que o Holocausto quase tornou impossível a criação do Estado de Israel, porque impediu o estabelecimento de uma forte comunidade judaica na Palestina sob protetorado britânico, ao assassinar as pessoas que ali estavam. “Se não houvesse o Holocausto, em vez de milhares, teriam ido à Palestina centenas de milhares de judeus em grandes navios, para fugir do nazismo, do anti-semitismo ou, simplesmente, por ideais sionistas”, assinala.

Estes potenciais emigrantes à “Terra Prometida” acabaram entre os cerca de 5,8 milhões de judeus aniquilados pelo regime de Adolf Hitler – um terço do total na época -, segundo Bauer, autor de dezenas de livros e artigos sobre o Holocausto. Segundo o historiador, se tivessem conseguido escapar dos campos de extermínio, os judeus teriam gerado uma maior consciência da importância de um país para protegerem-se. “Se houvesse mais sobreviventes, teria havido mais Israel”, ilustrou Bauer.

A migração de judeus à Palestina desde o fim do século XIX, no marco do movimento sionista, foi o principal desencadeador das lutas com a população árabe local. As tensões forçaram a retirada inglesa da Palestina após a aprovação pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1947, de uma resolução que estabelecia a partilha do território em um Estado judeu e outro árabe.

“Só o delegado da Guatemala referiu-se ao Holocausto em seu discurso. Dos países que votaram a favor da resolução, muitos o fizeram para agradar suas minorias judias, como os Estados Unidos, e a União Soviética para retirar o Reino Unido do Oriente Médio”, explica Bauer. “Quando os palestinos dizem que pagaram pelo que aconteceu com os judeus na Europa, é justamente ao contrário”, defende.

Bauer também não hesita em utilizar seu argumento contra aqueles que criticam o estabelecimento do Estado de Israel, por considerá-lo uma teocracia que causou décadas de dor à população palestina. “Não se pode negar que os palestinos sofreram pelo estabelecimento sionista, mas opor-se à criação do Estado de Israel é anti-semita, a não ser que também se seja contrário a que os malaios ou os bolivianos, por exemplo, tenham seu próprio país”, ilustrou o historiador.

Em qualquer caso, Bauer adverte que o desejo da exterminação em massa faz parte da natureza humana e, por isso, novos genocídios mancharam o século XX em países como Armênia, Ruanda e Camboja. “Não podemos esquecer que os nazistas poderiam ter vencido a guerra”, lembra o pesquisador.

Dia da Lembrança do Holocausto é celebrado em todo o mundo

Cerimônias aconteceram em várias partes do mundo, neste domingo, para marcar o Dia Mundial da Lembrança do Holocausto, no aniversário da libertação do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, em 27 de janeiro de 1945.

Sobreviventes de Auschwitz celebraram perto do local onde ficavam as câmaras de gás nazistas que mataram centenas de milhares de pessoas, principalmente judeus.

Na Grã-Bretanha, integrantes do Conselho Muçulmano puseram fim a um boicote às celebrações, já que agora outros genocídios recentes também são lembrados nesta data, e se uniram a representantes de outras religiões na cerimônia nacional do Holocausto, em Liverpool.

Fonte: BBC Brasil e EFE

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