Entrevista considerada “muito forte”, do cardeal Carlo Maria Martini, expoente da ala progressista da Igreja Católica, foi divulgada apenas depois de sua morte.

Talvez presumindo que, ao morrer, todos brigariam por sua túnica, o cardeal Carlo Maria Martini escolheu a maneira de partir. Seu cúmplice foi o Parkinson, o algoz que há 15 anos lhe tirava a vida aos poucos, o mesmo que, na primavera de 2005, cortou de uma vez sua única possibilidade de sair de um conclave transformado em papa. Um papa moderno, dialogador, crítico, com dúvidas. Um papa impossível. Por isso, em 8 de agosto passado, Martini recebeu o jesuíta Georg Sporschill e lhe concedeu uma entrevista.

Depois de revisá-la, já incapaz de comer, de beber e quase de falar, chamou seu médico e lhe deu as instruções precisas para que o deixasse morrer em paz, sedado, sem tratamento terapêutico. Foi seu último ato de rebeldia. Um dia depois de sua morte, ocorrida em 31 de agosto na residência dos jesuítas em Gallarate (Varese), o jornal italiano “Corriere della Sera” publicava a entrevista. Seu testamento vital.

“A Igreja está cansada, na Europa e na América. Nossas igrejas são grandes, nossos conventos estão vazios e a burocracia da Igreja aumenta. Nossos rituais e nossas roupas são pomposos. Essas coisas expressam o que somos hoje?”

Naquele 8 de agosto, o jesuíta alemão Georg Sporschill foi à residência de Gallarate junto com Federica Radice Fossati Confalonieri, laica, amiga de ambos, encarregada de traduzir as perguntas e as respostas. Sporschill falava em alemão, o cardeal Martini em um italiano quase inaudível. “Pensamos que ficaríamos lá dez minutos, mas a conversa se prolongou por duas horas”, contou depois Federica. No dia 23, a tradutora voltou à residência dos jesuítas e obteve de Damiano Modena, o secretário do cardeal, a aprovação para a entrevista. Mas com um pedido: “O texto é maravilhoso, mas é muito forte. Esperemos para divulgá-lo depois da morte”.

Todos tinham a certeza então de que aquelas palavras estavam destinadas a ser incluídas no testamento de Martini, cardeal de Milão de 1979 a 2002. As palavras do “cardeal do diálogo”, do “homem que falava ao coração de todos” – assim o qualificou a imprensa italiana -, refletem há muitos anos sua preocupação com o divórcio entre a Igreja Católica e o mundo que a cerca.

[b]Sporschill: Que ferramentas o senhor recomenda para vencer o cansaço da Igreja?
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[b]Martini[/b]: Eu recomendo três, muito fortes. A primeira é a conversão: a Igreja deve reconhecer seus erros e continuar um processo de mudança radical, começando pelo papa e os bispos. Os escândalos de pedofilia nos forçam a empreender um caminho de conversão. As perguntas sobre a sexualidade e todos os temas relacionados com o corpo são um exemplo. Elas são importantes para todo mundo. Às vezes, talvez sejam importantes demais. Devemos nos perguntar se as pessoas continuam escutando os conselhos da Igreja em questões sexuais. Neste campo, a Igreja continua sendo uma autoridade, ou já é só uma caricatura na mídia?

A segunda é a palavra de Deus. O Concílio Vaticano devolveu a Bíblia aos católicos. Só a pessoa que percebe em seu coração esta palavra pode fazer parte dos que ajudam na renovação da Igreja e responderão às perguntas pessoais com uma escolha acertada. A palavra de Deus é simples e busca como companheiro um coração que a escute. Nem o clero nem o direito canônico podem substituir o interior do homem. Todas as regras externas, leis, dogmas, são elementos para esclarecer a voz interior e o discernimento dos espíritos.

Para que servem os sacramentos? Estes são o terceiro instrumento de saneamento. Os sacramentos não são uma ferramenta para a disciplina, mas uma ajuda para os homens no caminho e nas fraquezas da vida. Levamos os sacramentos às pessoas que precisam de forças renovadas? Penso em todos os casais divorciados que voltam a casar, nas famílias extensas. Essa gente precisa de uma proteção especial. A atitude que tomarmos em relação às famílias extensas determinará a proximidade da Igreja da geração dos filhos. Uma mulher que é abandonada por seu marido e tem um novo parceiro que cuida dela e de seus três filhos. Se essa família é objeto de discriminação, corta-se sua relação com a Igreja, não só a relação da mãe, mas também a de seus filhos. Se os pais estão fora da Igreja ou não se sentem apoiados por ela, esta perderá a próxima geração…

[b]Escândalo na Igreja
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Depois de ler as reflexões do cardeal Martini –as que ele fez antes de morrer e outras publicadas em livros ou artigos de imprensa–, não deixa de chamar a atenção que seu bom senso pudesse ser motivo de escândalo na Igreja. Que houvesse quem chegasse a considerá-lo um antipapa. O próprio cardeal cuidou muito bem de manter sua luta interior –entre a fé e a dúvida– dentro da Igreja. Sua decisão de ser enterrado na catedral de Milão –depois de um funeral do qual participaram dezenas de milhares de pessoas– é o mais claro exemplo. Mas, se houvesse alguma dúvida, o general dos jesuítas, o espanhol Adolfo Nicolás Pachón, quis dirimi-la: “Ele foi antes de tudo um homem livre. Creio que Carlo Maria Martini foi um filho de santo Inácio até o final”.

Usou sua liberdade, por exemplo, para discordar da Igreja e admitir com naturalidade as uniões civis entre pessoas do mesmo sexo: “Se duas pessoas gays desejam assinar um pacto para dar certa estabilidade a seu casal, por que queremos que não seja assim?”

Ou para condenar os excessos terapêuticos, ou para criticar a pompa e a burocracia do Vaticano: “A Igreja ficou 200 anos para trás. Como não vamos nos agitar? Temos medo? Medo em lugar de coragem? A fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança e a coragem. Eu já estou velho e doente e dependo de outros. A boa gente ao meu redor me faz sentir o amor. Esse amor é mais forte que o sentimento de desconfiança que às vezes se percebe em relação à Igreja na Europa. Só o amor vence a fadiga. Deus é amor…”

O enterro do cardeal Martini constituiu um espetáculo difícil de entender fora da Itália. À catedral de Milão veio o chefe de governo, Mario Monti, mas também líderes da esquerda, representantes de outras confissões religiosas e gente, muita gente. Os jornais e revistas dedicaram uma abundância de páginas e durante dias divagou-se sobre uma pergunta impossível: o que seria da Igreja se Martini tivesse sido papa?

[b]Fonte: El Pais[/b]