Igreja do Rosário foi erguida em 1730, ainda como capelinha de taipa e palha. Polícia Militar promete estudar as melhores formas de garantir a segurança ao local, o que permitiria a reabertura do templo. Um sacristão foi agredido na última manhã da última quarta-feira.

O templo religioso mais antigo do Ceará fechou suas portas. O vigário episcopal de Fortaleza, padre Clairton Alexandrino, suspendeu as atividades da Igreja do Rosário, ontem, por tempo indeterminado. Uma série de roubos, ameaças e agressões contra funcionários e fiéis motivou a decisão, irrevogável até o fim do clima de insegurança na praça dos Leões. A igreja foi erguida na primeira metade do século XVIII, em 1730, e foi a matriz da Capital por mais de 30 anos. “Fechada por falta de segurança”, informa a faixa esticada sobre a entrada principal.

O vigário relata fatos recentes. “A praça foi abandonada. As mulheres entram para orar e há um grupo que fica falando as maiores imoralidades na janela. Os ladrões entram e roubam celulares, bolsas”, enumera. O estopim foi na manhã de quarta-feira. “O sacristão pediu que um deles não falasse aquelas coisas. O rapaz disse que o sacristão estava o desacatando e entrou na igreja com uma garrafa para agredi-lo. Só não feriu mais porque ele se defendeu com a trave da porta”, completa. O agente paroquial, conforme Clairton, teve ferimentos no braço. E o agressor, na manhã de ontem, teria sido visto ao redor da igreja.

“Foi com dor no coração que tomei essa decisão. Quando avisei aos fiéis (última missa), teve gente chorando. Quase todos são comerciários do Centro que vêm antes do trabalho”, afirma. O padre avisa que a reabertura está descartada até que haja policiamento. Durante a colocação da faixa, o assunto tomou conta da praça. “Acho ruim fechar. Tinha que ter segurança. Teve mesmo esse problema da garrafa. No meu caso, não me roubam porque não tenho dinheiro”, diz Antônio Marcos Beviláqua, 62, vendedor, há dois anos na praça. “A igreja fica aberta até o fim da tarde. Venho todo dia antes de almoçar. Tomei um susto quando vi essa faixa”, comenta a garçonete Ivone Maria, 31.

A igreja teve sua primeira edificação em 1730, construída por escravos da Irmandade de Nossa Senhora dos Pretos, com taipa e palha. Foi refeita 25 anos depois, com pedra e cal. A seu redor estão outros patrimônios como os prédios que hoje sediam a Academia Cearense de Letras, o Museu do Ceará e o Palácio do Comércio.

Policiamento
O comandante da 5º Companhia do 5º Batalhão, major Douglas Afonso, diz que há policiais na área, mas não especificamente para a igreja. Segundo ele, os fatos que vêm acontecendo não estão sendo registrados pelas vítimas. E o policiamento, ele lembra, é distribuído conforme os índices de ocorrências. Douglas adianta que deve procurar o padre Clairton para estudar formas de inibir os delitos.

Major Douglas diz acreditar que as ações sejam cometidas por descuidistas oriundos da comunidade Oitão Preto.

A Igreja do Rosário foi tombada em 1986. Entre 1821 e 1854, era a igreja matriz de Fortaleza.

O templo ficava aberto de 7 horas até o fim da tarde. As celebrações “lotavam a igreja”, com capacidade para 150 pessoas, segundo o padre Clairton – quase todos comerciários do Centro. A primeira era às 7h20min e a última às 17 horas.

Os restos mortais do major João Facundo de Castro Menezes, que presidiu a Província do Ceará, estão na Igreja do Rosário. Foi assassinado em 1841.

Padre Clairton afirma ter contado, anteontem, o número de elementos que cercam a igreja. Usou o método “distribuição individual de moedas”. Ao todo, ele ressalta, foram entregues 47 moedas de R$ 0,50. Ontem, ainda havia rapazes pedindo “um trocado” ao padre.

Ele não sabe enumerar o número de assaltos. “São freqüentes. Não tenho como dizer quantos foram. Já roubaram R$ 1,5 mil de um funcionário nosso. Teve gente que foi assassinada pertinho daqui”.

A Igreja do Rosário tem três funcionários. Todos estão “amedrontados”, segundo Clairton. Ele também reclama da aglomeração de prostitutas e da prática de sexo explícito nos arredores da igreja.

O sacristão agredido, segundo Clairton, prestou queixa na noite após a agressão.

Fonte: O Povo