Uma investigação em curso por autoridades brasileiras sobre o Digimais, um banco de menor porte, tem gerado dúvidas a respeito da Igreja Universal do Reino de Deus, liderada pelo bilionário bispo Edir Macedo. A instituição financeira é acusada de inflar o valor de seus ativos, o que pode intensificar a figura controversa do religioso no país.
Macedo, de 81 anos, construiu um vasto império religioso, com cerca de 10 milhões de fiéis globalmente, sendo 7 milhões no Brasil, segundo dados de 2021 da própria igreja. Paralelamente, ele controla outros negócios significativos, incluindo o banco em questão e a segunda maior rede de televisão do país, operando a partir dos Estados Unidos, onde reside.
As informações são da Folha de S.Paulo.
A influência do bispo se estende à política brasileira, com histórico de apoio a Luiz Inácio Lula da Silva nos anos 2000 e posterior endosso a conservadores como Jair Bolsonaro em 2018. O partido Republicanos, com forte representação no Congresso, possui ligações com a igreja, incluindo figuras que são pastores licenciados e ocuparam cargos na rede de TV de Macedo.
Em comunicado divulgado em junho, a Universal declarou que Edir Macedo não integra a administração do Digimais. “A condução das atividades é de responsabilidade exclusiva dos executivos e profissionais legalmente habilitados para responder perante os órgãos reguladores”, informou a igreja. Contudo, a apuração sobre o banco traz à tona os negócios de Macedo.
Autoridades alegam que o Digimais teria inflando seus ativos para mascarar problemas financeiros, resultando na execução de mandados contra executivos e o congelamento de aproximadamente R$ 670 milhões em bens e dinheiro. O banco optou por não comentar as acusações.
As alegações ganharam repercussão no setor bancário brasileiro, lembrando o caso do Banco Master, que foi liquidado pelo Banco Central no ano passado sob acusações semelhantes de fraude em balanços.
Ascensão evangélica e influência de Macedo no cenário brasileiro
A ascensão de Edir Macedo e outros líderes evangélicos tem impactado a hegemonia da Igreja Católica na América Latina. Atualmente, cerca de 27% dos brasileiros se identificam como evangélicos, um salto considerável em relação aos índices de um dígito nos anos 1970, quando a Igreja Universal foi fundada. O catolicismo, por sua vez, viu sua proporção cair de mais de 90% para menos de 60% da população no mesmo período, conforme dados do IBGE.
Edir Macedo, que reside nos EUA há anos, é responsável pela construção de uma réplica em larga escala do Templo de Salomão em São Paulo. Ele realiza pregações transmitidas online para milhões de fiéis. Em 2025, o bispo vendeu um luxuoso apartamento na Flórida por US$ 13 milhões.
Entre seus empreendimentos, destaca-se o Grupo Record, proprietário da segunda maior emissora de TV do Brasil, adquirida no final dos anos 1980. A empresa registrou R$ 4,3 bilhões em receita no ano passado. Embora com programação majoritariamente secular, a Record exibe produções da Universal, como telenovelas e programas focados em família e questões sociais.
Em 2018, a rede produziu o filme “Nada a Perder“, cinebiografia de Macedo que obteve expressivo público, apesar de alegações de inflação nas vendas de ingressos por meio de compras pela igreja.
A trajetória do Digimais sob o comando de Edir Macedo
Nos anos 2000, Edir Macedo direcionou seu interesse para um pequeno banco focado em financiamento de veículos. A aquisição de 40% da instituição ocorreu em 2009, com a aprovação do Banco Central apenas quatro anos depois, após a emissão de um decreto presidencial que permitia a participação de residentes no exterior em bancos brasileiros.
A intenção inicial era que o banco atendesse aos mais de 15 mil funcionários e fornecedores da Record. Macedo completou a aquisição do restante do banco em 2020, renomeando-o para Digimais e nomeando figuras ligadas à Igreja Universal para sua liderança, como o bispo João Luiz Urbaneja, que presidiu a instituição por um período.
O Digimais enfrentou dificuldades financeiras, necessitando de um aporte de capital no início deste ano para cumprir exigências regulatórias. Macedo também buscou vender o banco, chegando a um acordo preliminar com o BTG Pactual, negociação que ainda não foi finalizada e pode ser revista.
No começo do ano, houve uma troca de comando no Digimais, com Thiago Rodrigues Urbaneja, filho de João Luiz Urbaneja, sendo sucedido por Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, que ocupou cargos durante governos anteriores do PT, o partido de Lula.
Fonte: Folha de S.Paulo






