Aos 26 anos de idade, Kaká já faz planos para o término de sua carreira no futebol. Em entrevista à revista Época desta semana, o jogador do Milan afirmou que pensa em retornar ao São Paulo, clube que o revelou, e, depois disso, tornar-se pastor evangélico. Para elaborar a entrevista, a revista utilizou perguntas enviadas pelos leitores.

Questionado se poderia vir a ser pastor ao final de sua passagem pelo futebol, o jogador admitiu que seu interesse pela Bíblia pode levá-lo à seguir esta profissão.

Kaká é membro da igreja evangélica Renascer em Cristo, cujos fundadores Estevam e Sônia Hernandes já chegaram a ser presos nos Estados Unidos por tentar entrar no país com dinheiro não declarado escondido dentro de uma Bíblia.

Apesar disso, o meia sempre admitiu manter uma relação estreita com o casal e chegou a doar o troféu de melhor jogador do mundo à igreja no início deste ano.

O interesse de Kaká pela religião é tanto que, como ele mesmo próprio já admite, já se tornou um pregador dentro do futebol.

Antes de subir ao altar, porém, Kaká espera voltar a jogar pelo São Paulo, clube que o revelou. Isso, porém, quando sua carreira nos gramados já estiver chegando ao fim. Atualmente, o jogador garante que suas atenções estão totalmente focadas no Milan.

Caso confirme seus planos, Kaká não será o primeiro ex-são-paulino a se tornar pastor evangélico. Müller, que foi campeão do mundo pelo clube do Morumbi e pela seleção brasileira, também resolveu ir pregar quando pendurou as chuteiras e afirmou que o “futebol era um meio sujo”. Hoje, porém, atua como comentarista em uma emissora de televisão.

Confira a entrevista completa com o jogador Kaká:

Qual é sua opinião sobre a atuação do Dunga como técnico da Seleção? Podemos acreditar nela para conquistar o hexa?
Ludimila Andréa Rosa dos Santos
, Carapicuíba, SP

Kaká – A atuação do Dunga na Seleção, junto com sua comissão técnica, tem sido boa até aqui. Falo isso pelos resultados, já que ganharam a Copa América em 2007, foram bronze nas Olimpíadas e estão em segundo lugar nas Eliminatórias. Esse grupo tem um grande potencial e pode, sim, conquistar o hexa. Mas, claro, precisa até lá melhorar algumas coisas, ganhar mais experiência.

O que está faltando para que o Brasil volte a ter a melhor Seleção do mundo?
Mayra Cristina da Silva Costa
, Alfenas, MG

Kaká – Acredito que continuidade. Neste momento, a Seleção Brasileira precisa ganhar e convencer. E, conquistando uma série de vitórias, acredito que teremos a credibilidade de volta.

Você se sente culpado pela derrota na Copa de 2006? Se pudesse voltar no tempo, o que mudaria?
Letícia Leite
, Aracaju, SE

Kaká– Não me sinto culpado. Se eu pudesse mudar alguma coisa, como já falei, não teria jogado contra a França com dor. No jogo contra Gana, sofri um trauma no joelho esquerdo e essa dor acabou me limitando na partida contra a França. Talvez, com um pouco mais de experiência, eu não tivesse entrado em campo e, sim, deixado alguém que estava em melhores condições que eu.

Você, quando era pequeno, sonhava em jogar num time específico?
Guilherme Mendez
, Jaguaruaíva, PR

Kaká – No São Paulo e na seleção brasileira.

Você voltará algum dia para o São Paulo?
Diego Campos
, Cascavel, PR

Kaká – Sou muito grato ao São Paulo e tenho uma ligação muito forte com o clube. Por agora, penso em ficar aqui um bom tempo. Se, no futuro,tiver a oportunidade, voltarei a jogar pelo São Paulo.

Em 2002, quando o Brasil foi penta, você estava na reserva. Em 2006, o sonho do hexa naufragou. Como você encara a Copa de 2010 sendo o principal jogador da Seleção?
Antonio Geraldes
, São Paulo, SP

Kaká – Encaro como uma grande oportunidade. Poder disputar minha terceira Copa do Mundo seria uma grande oportunidade. Por isso vou me preparar muito para poder estar lá e trazer o hexa.

Você acha justo que os jogadores ganhem salários altíssimos enquanto a maioria da população sobrevive com R$ 415 por mês?
Rita de Cássia Vasconcelos
, Fortaleza, CE

Kaká – Eu acho. Infelizmente, foi criado em torno dos jogadores de futebol esse comentário de que se ganha muito dinheiro sem merecer. O futebol é um negócio, e em volta desse negócio giram bilhões. O centro desse negócio são os jogadores. Nada mais justo que aqueles que fazem o negócio girar sejam remunerados justamente. Se a empresa onde você trabalha consegue produzir, e você é um funcionário competente dessa empresa, nada mais justo que você venha a ser remunerado por isso.

Você acha que sua beleza mais ajudou ou atrapalhou sua carreira?
Raísa Aquino
, Salvador, BA

Kaká – Eu sempre procurei me desvincular do jogador bonitinho. Eu sempre quis e quero ser reconhecido pelo meu trabalho, pelas minhas realizações em campo.

É mais fácil conviver com o assédio da imprensa, dos torcedores ou do público feminino?
Mateus Castanho
, Brasília, DF

Kaká – No começo todo o assédio foi complicado, pois eram situações novas para mim. Depois fui aprendendo a lidar, ficando mais experiente, mais maduro, e hoje posso dizer que e fécil conviver com todo o assédio. Acho que o mais difícil é quando se perde a privacidade, seja com imprensa, com torcedor ou público feminino.

Como você encara o assédio da mídia com relação à sua opção religiosa?
Maurilho da Costa Silva
, Rio Branco, AC

Kaká – Tranqüilo. Gosto que me respeitem como respeito a todos. Fui muito bem preparado pra essa relação com a imprensa e tenho hoje um contato muito tranqüilo com eles.

Como você consegue equilibrar fama e riqueza com uma religiosidade até certo ponto espartana?
Samuel Pedro da Silva
, Rio de Janeiro, RJ

Kaká – Tendo convicção dos meus valores.

O que você acha da espetacularização que boa parte da imprensa mundial faz
em torno da vida pessoal dos jogadores, transformando os atletas em celebridades? Até que ponto essa exposição atrapalha no campo profissional?
Ana Paula Almeida
, Abadia dos Dourados, MG

Kaká – O jogador se tornou em uma celebridade por tudo que representa o futebol no mundo, por serem pessoas reconhecidas pelo trabalho. Isso é uma coisa positiva pois o atleta tem bons valores a serem passados. Agora misturar a profissão com a vida pessoal, essa invasão de privacidade é uma coisa ruim, pois fora do trabalho cada um é livre para fazer as suas escolhas. Isso atrapalha no campo profissional quando o atleta começa a perder o seu foco.

O que você sentiu ao ser eleito o melhor jogador do mundo pela Fifa? Como você reage aos comentários de que sua atitude de doar seu troféu para sua igreja foi impensada (no início deste ano, Kaká entregou o troféu à Igreja Renascer em Cristo)?
Renan Massau Nakamura
, Campinas, SP

Kaká – Foi uma grande honra ter sido eleito o melhor jogador do mundo pela Fifa, saber que meu nome estará na lista dos melhores do mundo para sempre. Esse tipo de comentário vem de pessoas que não me conhecem. Todos os meus atos são muito bem pensados. Sei muito bem o que fiz quando ofertei aquele que na minha casa seria um troféu, e na casa de Deus será um memorial. Não ofertei o troféu para a igreja nem para o pastor. Ofertei a Deus por tudo o que Ele tem feito na minha vida, pois creio que, sem Ele, não teria tido esse reconhecimento. A Bíblia diz que oferta se dá no lugar onde você recebe sua bênção. Outro motivo importante foi dividir com o povo: na minha sala ficaria à disposição da minha família e amigos. Lá, todo mundo pode compartilhar comigo essa conquista.

Os jogadores devem se preparar para outra profissão, já que a carreira é tão curta? Você já declarou que gostaria de ser pastor.
Rogério Tavares
, Duque de Caxias, RJ

Kaká – Tudo tem seu tempo. Quando o jogador está para encerrar a carreira, acho fundamental começar a pensar no que fazer. As coisas na vida mudam, com 20 anos você pensa em fazer uma coisa, com 30 já gosta de outra. Por isso, o ideal é pensar quando estiver mais próximo de parar. Quanto a me tornar pastor, amo a Bíblia e gosto de estudar. Poder conhecer mais sobre Deus, Jesus é uma coisa que me fascina. E gosto de dividir com as pessoas o que Deus tem feito na minha vida. Vou me preparar. Quem sabe um dia…

Permanecer no topo é sempre mais dificil do que chegar lá. Oque você faz hoje para cuidar de sua carreira e não ter o mesmo final que alguns de seus colegas?
Moacir Cadorin
, Assis Chateaubriand, PR

Kaká – Procuro sempre me automotivar, colocando sempre objetivos a serem alcançados. E ter sempre dentro de mim o amor por aquilo que eu faço.

Como você se sente após ter se tornado pai? Como você está conciliando o novo papel com sua carreira?
Fabiana Mendes
, Ferraz de Vasconcelos, SP

Kaká – Eu me sinto realizado, é muito bom ser pai. Estou curtindo muito cada momento, cada fase do Luca. Por causa da minha carreira, viajo muito, fico concentrado etc. Por isso, sempre que posso, estou em casa com minha família. Procuro sempre ter um tempo de qualidade com minha esposa e com meu filho.

Joguei bola com seu pai na década de 70 em Taguatinga. Ele era um zagueiro de muita raça. Você acha que herdou isso dele?
Maurício José de Souza
, Patos de Minas, MG

Kaká – Acho que quem herdou essas características foi meu irmão (Rodrigo, ou Digão, é zagueiro e tem contrato com o Milan até 2011). Mas acredito que herdei outras coisas, como ser determinado, perseverante e paciente.

Você costuma falar sobre Deus com outros jogadores da Seleção?
Marcos Mendes
, Carapicuíba, SP

Kaká – Costumo falar não só com os jogadores da Seleção, mas também com os do Milan. Sempre que posso, conto um testemunho, um milagre, demonstro o que Deus tem feito na minha vida. Alguns pedem para orar por um motivo especial. Quando podemos, fazemos um estudo bíblico durante as concentrações.

O que você pensa sobre as pessoas que o criticam por você ter casado virgem?
Jardeson Crys
, João Pessoa, PB

Kaká – As pessoas, quando me criticam com relação a isso, normalmente falam como se eu fosse um coitadinho que foi manipulado. A verdade não é essa. Sei muito bem o que fiz, o que isso representa na minha vida e na da minha esposa, pois tenho a convicção, no meu coração, de que quem ama espera.

No momento de parar, acredita que seguirá os passos de Zidane, que pendurou as chuteiras aos 34 anos, ou os de Romário, que deixou os gramados aos 42?
Gustavo Costa
, Contagem, MG

Kaká – É difícil imaginar agora como será, mas, pensando hoje, estaria mais para parar como Zidane. Jogar como o Romário, até os 42 anos, é um privilégio para poucos, como o meu companheiro de clube, Paolo Maldini, que tem 40 anos.

QUEM É
Nascido em Brasília em 22 de abril de 1982, Ricardo Izecson Santos Leite é casado com Caroline Celico desde dezembro de 2005 e pai de Luca, de 5 meses de idade

CARREIRA
Revelado pelo São Paulo, em 2001, foi vendido ao Milan, da Itália, em 2003. Convocado para a Seleção pela primeira vez em 2002, participou das duas últimas Copas

PRINCIPAIS TÍTULOS
Ganhou a Copa do Mundo de 2002 pelo Brasil e a Liga dos Campeões em 2007, ano em que foi eleito o melhor jogador do mundo

Fonte: Revista Época