A editora Planeta lança no Brasil “O Poder e a Glória”, espécie de biografia não-autorizada do pontificado de João Paulo 2º, e reacende a discussão sobre o lado obscuro do Vaticano. “Estou convencido de que o papa foi corrupto”, diz o autor.

Como dizia Antônio Vieira em 1655, no “Sermão da Sexagésima”: “Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. A nossa alma rende-se muito mais pelos olhos do que pelos ouvidos”.

É dessa fórmula que o autor, o jornalista inglês (e católico) David Yallop, 70, tenta se valer -basta que se troque “obras” por “informações”. Ele pesquisou durante 17 anos arquivos da CIA, do Vaticano e do governo dos EUA para mostrar como a Igreja Católica protegeu pedófilos e deu apoio a ditadores durante os 27 anos do pontificado de João Paulo 2º – aclamado santo após a morte.

As 597 páginas do livro relatam o empenho do papa polonês, junto com o presidente dos EUA, Ronald Reagan, para isolar e enfraquecer a União Soviética. Questiona a falta de apoio aos religiosos de esquerda, como o arcebispo de San Salvador, d. Oscar Romero –referência na defesa dos direitos humanos, foi assassinado por milícias de extrema-direita durante a missa.

Levanta os principais casos de pedofilia que atingiram padres e bispos da igreja nos anos 90 e como o Vaticano deu respostas insatisfatórias e vagas às vítimas e, ao mesmo tempo, não puniu os agressores.

“Estou convencido de que o papa foi corrupto”, diz o autor.

“Por omissão, por aliança com o poder secular não em nome de Cristo, mas de seus interesses políticos, por não punir os agressores de crianças e os violadores dos direitos humanos, os violadores das crianças.”

Yallop acumula polêmicas com a igreja. Os católicos se organizam para buscar inconsistências em sua obra desde 1984, quando lançou o livro “Em nome de Deus” –mais de 6 milhões de cópias vendidas–, onde defende a tese de que João Paulo 1º foi assassinado porque deu sinais de que iria investigar o Banco do Vaticano.

A teoria conspiratória aparece no filme “O Poderoso Chefão 3”, de 1990. O Vaticano diz que o “papa sorriso” sofreu um infarto. Todo caso, nos anos 80, João Paulo 2º fez uma revisão completa nas finanças da igreja -em 1988, foi publicado pela primeira vez o balanço financeiro da Santa Sé.

Lançado da Europa em 2006, “O Poder e a Glória” é um libelo de acusação contra o pontificado. Em alguns momentos, avança tanto nas hipóteses, como no caso da morte de João Paulo 1º, que lembra ficções como “O Código Da Vinci”.

Também falta informação. O capítulo sobre a teologia da libertação é raquítico diante das polêmicas que essa corrente produziu. O Brasil, onde ela ganhou força ao defender o ativismo da igreja contra as mazelas sociais, é resumido às desavenças de Leonardo Boff com o Vaticano. Não explora como essa corrente foi usada pelo PT, e a vitimiza, nem aborda como a ascensão de seus expoentes foi congelada pelo Vaticano: d. Ivo Lorscheiter não foi arcebispo. Seu principal papel é abrir o “saco de maldades” da igreja.

Mas não é a biografia definitiva de um papa que reconheceu, por exemplo, as falhas da igreja na colonização da América e defendeu os judeus. Falta um livro que não seja nem a biografia de um santo nem o texto de um promotor de justiça.

O PODER E A GLÓRIA
Autor: David Yallop
Editora: Planeta
Quanto: R$ 54,90 (597 págs.)
Avaliação: regular

Fonte: Folha de São Paulo