"Super Drags", série da Neflix que mostra drag queens como super-heroínas”

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), instituição sem fins lucrativos que defende os interesses dos médicos de crianças e adolescentes, de seus pacientes e famílias, emitiu esta semana, uma nota oficial contra a série “Super Drags”.

A SBP diz, na nota, que “vê com preocupação o anúncio de estreia de um desenho animado cuja trama gira ao redor de jovens que se transformam em drag queens super-heroínas”.

O comunicado com o título “Contra a exposição de crianças e adolescentes a conteúdos impróprios na TV” traz um “alerta para os riscos de se utilizar uma linguagem iminentemente infantil para discutir tópicos próprios do mundo adulto”.

Produzida para a Netflix, a série “Super Drags” vai mostrar a história de três amigos que trabalham durante o dia em uma loja de departamento e têm que aguentar um chefe chato. De noite, eles se transformam nas super drags, segundo descrição da plataforma de vídeos, “prontas para salvar o mundo da maldade e da caretice, enfrentando um vilão desaplaudido a cada episódio”.

A série, escrita por Anderson Mahanski, Fernando Mendonça e Paulo Lescaut e produzida pela Combo Estúdio, é a primeira animação brasileira a entrar para o catálogo do serviço de streaming Netflix e não tem data de estreia. Apenas um teaser de 27 segundos foi divulgado pela Netflix. Veja abaixo.

Procurado para falar sobre a nota da SBP, o estúdio informou que “tanto o estúdio como os criadores só poderão se manifestar oficialmente, sem o consentimento da Netflix, após o lançamento da série”.

A Netflix informou que “oferece uma grande variedade de conteúdos para todos os gostos e preferências” e ressaltou que “‘Super Drags’ é uma série de animação para uma audiência adulta e não estará disponível na plataforma infantil”.

Conteúdo para adulto?

Em entrevista ao G1, João Coriolano, do Departamento de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria, declarou que apesar do conteúdo ser voltado para adultos a escolha da temática de super-heróinas está associada ao universo infantil.

“O super-herói para a criança vai funcionar como um modelo de comportamento, a criança vai usar o super-herói para tentar imitar o super-herói e com este tipo de situação que vai ser abordado na forma de desenho, é lógico que isso vai ser uma atração para criança. Essa é a preocupação da SBP. Será que os assuntos são adequados para serem levados a um público infantil?”, diz.

“Na hora que você põe isso na forma de um desenho, na forma de super-herói, que público você vai atingir? É o adulto ou é a criança? É a criança, lógico. É a criança que vai procurar isso aí. O adulto não procura super-herói”, diz Coriolano.

Para Coriolano, o fato de o programa estar no catálogo adulto e do serviço também disponibilizar controle de acesso aos títulos para os pais não impede que as crianças tenham acesso a ele:

“Mas não são todos os pais que conseguem controlar isso. Depois que você solta as coisas é muito mais difícil impedir. Se o conteúdo não for adequado, você tirar do ar depois é muito mais difícil. Vamos passar por uma aprovação antes de lançar? Vamos consultar primeiro as pessoas que são capazes de opinar e dar uma opinião correta? “.

Em junho, a Netflix lançou outro desenho com drag queens chamado “Drag Tots!”, uma animação sobre rainhas drag que estrou nos EUA em 28 de junho, apresentando o modelo transgênero RuPaul.

Desenho animado da Netflix 'Drag Tots'
Desenho animado da Netflix ‘Drag Tots’

Em um post no   site do The American Conservative , o autor cristão ortodoxo Rod Dreher descreveu esses programas como “A pederastia acordou”.

“A Netflix está transformando drag queens em super-heróis animados, e o serviço de streaming de RuPaul está transformando drag queens em super-heróis”, alertou Dreher.

Em novembro de 2017, o canal Disney XD introduziu  seu primeiro desenho com um “garoto princesa” em um episódio de “Star vs. The Forces of Evil” (“Star Vs. As Forças do Mal”).

Leia a nota da Sociedade Brasileira de Pediatria na íntegra:

“A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), em nome de cerca de 40 mil especialistas na saúde física, mental e emocional de cerca de 60 de milhões de crianças e adolescentes, vê com preocupação o anúncio de estreia, no segundo semestre de 2018, de um desenho animado, a ser exibido em plataforma de streaming, cuja trama gira ao redor de jovens que se transformam em drag queens super-heroínas.

A SBP respeita a diversidade e defende a liberdade de expressão e artística no País, no entanto, alerta para os riscos de se utilizar uma linguagem iminentemente infantil para discutir tópicos próprios do mundo adulto, o que exige maior capacidade cognitiva e de elaboração por parte dos espectadores.

A situação se agrava com o fim da Classificação Indicativa, decretado com sentença do Supremo Tribunal Federal (STF) que declarou inconstitucional o dispositivo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que estabelece multa e suspensão às emissoras de rádio e TV ao exibirem programas em horário diverso do autorizado pela classificação indicativa.

Essa decisão deixa crianças e os adolescentes dependentes, exclusivamente, do bom senso das emissoras de TV e plataformas de streaming, agregando um complicador a mais às relações delicadas existentes no seio da família, do ambiente escolar e da sociedade, de forma em geral.

Isso por conta do risco de exposição indevida desse segmento, por meio de programas, como esse desenho animado, a imagens e conteúdos com menções diretas e/ou indiretas a situações de sexo, de violência, de emprego de linguagem imprópria ou de uso de drogas.

Vários estudos internacionais importantes comprovam os efeitos nocivos, entre crianças e adolescentes, desse tipo de exposição. Ressalte-se o período de extrema vulnerabilidade pela qual passam esses segmentos, com impacto em processos de formação física, mental e emocional.

Sendo assim, a SBP reitera seu compromisso com a liberdade de expressão e com a diversidade, mas apela à plataforma que cancele esse lançamento, como expressão de compromisso do desenvolvimento de futuras gerações.

Além disso, a SBP pede aos políticos que, considerando a impossibilidade de recurso à decisão do STF, reabram o debate sobre a retomada da Classificação Indicativa ouvindo a contribuição dos especialistas, o que permitirá encontrar solução que não comprometa questões artísticas e assegure mecanismos de proteção para o público composto por crianças e adolescentes.”

Rio de Janeiro (RJ), 16 de julho de 201

Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)

Com informações de G1 e Sociedade Brasileira de Pediatria