Na capela improvisada em uma escola, onde o retrato do presidente Hugo Chávez e os slogans revolucionários de seu governo adornam a entrada, os bispos da nova Igreja Católica Reformada da Venezuela recebiam os congregados da missa de domingo.

O bispo missionário Simo Alvarado, 39 anos, tocou o violão acompanhando o canto da pequena congregação nos hinos religiosos. O bispo auxiliar Jon Jen Siu-García, 37, pregou um sermão sobre ajudar os pobres enquanto sua esposa, Hiranioris Calles, 24, sorria para ele de uma cadeira branca de plástico.

“A Igreja de Roma teme perder mais padres como nós”, Siu-García disse. Ele é filho de imigrantes, um pai cantonês e uma mãe colombiana, que se alojaram nesta cidade à beira do lago Maracaibo.

“E deveria temer mesmo, por seus escândalos de abusos internos e pela hipocrisia no combate à pobreza.” A rebelião de alguns padres, que culminou na formação da Igreja Católica Reformada, abertamente a favor do governo Chávez, mas estranhamente associada a conservadores anglicanos do Texas, despertou a ira de líderes católicos apostólicos romanos na Venezuela.

Desde sua fundação em junho, a jovem igreja esquentou o debate a respeito da interação entre religião e política em uma das mais seculares nações latino-americanas.

“O que eles querem é acabar com a Igreja Católica, mas não conseguirão”, disse o arcebispo Roberto Luckert, um dos críticos mais ferrenhos de Chávez na hierarquia dos apostólicos romanos da Venezuela, em um programa de rádio.

Suas críticas foram mordazes. “Eles se vestem como padres, celebram batismos e crismas – tudo pago pelo governo – enquanto as pessoas passam fome”, disse a respeito da nova igreja.

Os líderes da Igreja Católica Reformada, no entanto, afirmam que a nova instituição representa uma fusão das melhores tradições anglicanas e católicas.

Apesar de negarem veementemente qualquer financiamento governamental ou afiliação política, eles declaram abertamente sua solidariedade a Chávez, cujos conflitos com a hierarquia católica no país têm sido freqüentes desde que subiu ao poder há uma década.

“Compartilho do projeto revolucionário do presidente Chávez, já que é um projeto socialista e humanista para as massas”, disse Enrique Albornoz, ex-ministro luterano que é o primeiro bispo, líder máximo, da Igreja Católica Reformada.

A igreja alega ter cerca de 2 mil membros espalhados por Cabimas e outras cidades petroleiras de Zulia, o mais populoso Estado venezuelano. À primeira vista, parece ser improvável que Zulia seja a origem da igreja dissidente, já que sofre muitas influências da teologia da libertação, a escola de pensamento que balançou a Igreja Católica na América Latina dos anos 1960, ao defender o ativismo político em prol da justiça aos pobres.

Governado por um líder de oposição que disputou a presidência contra Chávez em 2006, o Estado no oeste do país é um bastião da oposição conservadora contra o governo central.

Muitos de seus residentes desconfiam da redistribuição de riqueza dos campos de petróleo ao redor do lago Maracaibo às partes mais pobres do país.

Mas o próprio Estado de Zulia é um lugar de contrastes. Não é apenas onde ricos pecuaristas e empresários do petróleo residem, mas também onde ficam as indústrias que de fato produzem petróleo, como Cabimas e outras cidades.

Nesses arredores, a pobreza opressiva persistiu durante os 10 anos do governo de Chávez e, com ela, um intenso debate sobre justiça social. “Chávez está cumprindo o trabalho de Deus, e espero que nossos padres façam o mesmo,” disse Janeth Vicuna, 54 anos, dona de casa que freqüenta a Igreja Católica Reformada.

“A antiga Igreja Católica alega que trabalha em nome dos necessitados, mas o que ela fez por nós em todos esses séculos?” Essa questão tem desafiado a política venezuelana desde o século 19, quando o ditador Antonio Guzmán Blanco confiscou propriedades da Igreja Católica e tentou criar, sem sucesso, uma igreja nacional independente de Roma.

A Venezuela saiu desse conflito como um dos países mais seculares da América Latina, junto ao Uruguai e, nas últimas décadas, à Cuba de Fidel Castro.

“Esse é mais um golpe para a Igreja Católica venezuelana,” disse Andrew Chesnut, especialista em catolicismo na América Latina da Virginia Commonwealth University.

A comunhão anglicana, com cerca de 77 milhões de membros no mundo, se recusou a reconhecer a Igreja Católica Reformada, apesar da adoção declarada de tradições anglicanas.

Ao invés disso, a igreja nascente, na busca de credibilidade, conseguiu o endosso de uma ramificação, a Igreja Anglicana Conservadora da América do Norte.

O grupo, que opera parcialmente no Texas, diverge do liberalismo predominante da Igreja Episcopal, que ordenou um bispo assumidamente gay em 2003.

“Não estendemos o privilégio de inclusão de forma leviana”, disse A. Dal Climie, arcebispo anglicano conservador que atua nos arredores de Houston.

“As autoridades católicas decidiram que a melhor maneira de depreciá-los seria alegar algum tipo de ligação com Chávez.” A Igreja Católica Reformada não ordena mulheres ou bispos gays, nem permite o casamento homossexual.

“Não somos homofóbicos, uma vez que nossos cultos são abertos a qualquer um”, disse Siu-García. Enquanto o bispo e seus colegas discutem a expansão da igreja não apenas na Venezuela, mas também em países vizinhos, os líderes católicos intensificam suas críticas contra a organização.

O cardeal Jorge Urosa, arcebispo católico de Caracas, descreveu a nova igreja como “uma canja de galinha, uma salada, totalmente incoerente.” Embora os líderes da Igreja Católica Reformada elogiem os programas anti-pobreza de Chávez, eles se mostram hesitantes em discutir sobre o motivo da pobreza ainda ser tão comum na Venezuela em tempos de preços recordes do petróleo.

Quando perguntados a respeito do pensamento religioso de Chávez, que inclui um comentário sobre Jesus ter sido o primeiro socialista, eles apenas sorriem.

“Nunca dissemos que somos a igreja de Chávez”, respondeu Siu-García. “O que acontece é que compartilhamos muitas das idéias de nosso presidente.”

Alvarado, um dos padres católicos que formaram a nova igreja, disse que uma de suas inspirações foi Oscar Romero, um arcebispo de El Salvador morto em 1980 por um esquadrão direitista de extermínio, após se lançar em uma cruzada para dar o poder aos pobres durante a guerra civil de seu país.

Aparentemente, a nova igreja é também liberal em outros aspectos. Em junho, após 10 anos como padre católico, Alvarado celebrou seu casamento com Astrid Torres, 23 anos, sua antiga assistente, com quem tem uma filha de 11 meses.

“Eu diria que metade dos padres católicos tem esposas secretas”, arriscou Alvarado. Acrescentou: “É nossa missão libertar os pobres da opressão sem deixar de desfrutar de nossa própria vida.”

Fonte: The New York Times