site da Faculdade TeológiaQuem sonha em enriquecer com a ajuda de Deus virou presa fácil para uma nova modalidade de golpe em São Paulo. Nos últimos tempos, uma série de cursos que prometem formar pastores ou teólogos, todos à distância, passou a ser oferecida pela internet. São escolas de carácter duvidoso, que querem obter lucros com aquelas pessoas que encaram a religião como emprego.

Em geral, eles afirmam que os ‘diplomas’ são aceitos em qualquer igreja, como se a atividade de transmitir a palavra de Deus, ou de pastor, no caso das evangélicas, pudesse ser lucrativa. Figuras como a da bispa Sonia Haddad Moraes Hernandes e a de seu marido Estevam Hernandes Filho, que se intitula apóstolo da Igreja Renascer ajudam a reforçar a imagem de uma atividade evangélica próspera. Os dois estão com os bens bloqueados e são acusados de lavagem de dinheiro e estelionato.

Uma destas escolas é a Faculdade Teológica , que vende um curso com duração de cerca de dois meses. Pelo site (foto), a sede da escola seria na Avenida Paulista, um dos principais centros comerciais da capital paulista. No local indicado, no entanto, não há um aluno. Apenas um escritório virtual. Os interessados obtêm apenas o telefone e o endereço do site da faculdade com a secretária, encarregada de anotar recados e receber a correspondência da escola. A sede da empresa fica mesmo no bairro de São Mateus, no extremo leste da cidade – uma viagem de quase uma hora de carro.

No endereço indicado como sede da faculdade também não há alunos. Trata-se da residência do ‘bispo’ Lawton Ferreira, que se intitula reitor da faculdade. Ele mora com a família em uma casa amarela bastante simples, de fundos. No galpão, na parte da frente do terreno, uma faixa indica que ali funciona uma filial da Igreja Universal da Graça de Deus, supostamente ligada do grupo do missionário R.R.Soares. A faixa diz que os cultos ocorrem todos os dias às 19h, para “prosperidade, cura divina, libertação, louvor e adoração a Deus”, sob o comando do próprio Lawton.

– A faixa é apenas experimental. Na verdade, a gente vai se filiar a Igreja Quadrangular – diz Rejane, a esposa de Lawton.

De acordo com Rejane, a faculdade tem “cursos livres e o MEC (Ministério da Educação) não tem nada a ver com isso”. De acordo com o MEC, não há mesmo registro dessa faculdade e qualquer empresa pode realmente oferecer cursos livres. O problema nesse caso é o fato da faculdade afirmar que tem cursos de “bacharelado” e “doutorado” em teologia. Esse tipo de curso sim precisa de autorização do ministério, e a empresa induz o aluno ao erro. Ele pode acreditar que o diploma de bacharel ou doutor da empresa vale realmente como título acadêmico. Pior: o curso mais barato da escola, o de pastor, sai por R$ 800, se o material for enviado por e-mail.

– Se for pelo correio custa R$ 1.600. Mas a gente facilita, parcela – explica o atendente no telefone informado no site.

Outros cursos, como bacharelado ou doutorado, podem passar de R$ 3 mil. O pagamento, no entanto, tem que ser feito sempre por depósito bancário. Ele afirma que não é aceito pagamento por cheque no local. Procurado em sua casa e por telefone, Lawton não foi localizado.

O sistema de curso à distância é chamado de “arapuca” pelo professor Lourenço Stênio, diretor da Faculdade Batista de Teologia, instituição com quase 50 anos e que tem seus cursos reconhecidos pelo MEC. A Igreja Batista, segundo o site da Faculdade Teológica, seria uma das que aceitariam o diploma de pastor.

– Não é verdade. Os pastores da igreja Batista são formados dentro da nossa instituição. São alguns anos de curso dentro da nossa faculdade. Infelizmente, essas ‘arapucas’ acabam enganando pessoas leigas ou mesmo beneficiando golpistas que pretendem fundar igrejas para comercializar a palavra de Deus e querem apresentar um suposto diploma – diz Stenio.

O reverendo Marcos Serjo da Costa, um dos dirigentes da Igreja Presbiteriana do Brasil, também nega que o diploma da empresa seja aceito.

– Somos uma instituição conservadora. Não aceitamos ou reconhecemos diplomas de outras escolas que não sejam os nossos seminários. Os nossos seminários são autorizados pelo MEC e os diplomas podem ser convalidados no curso de Teologia da Universidade Mackenzie – afirma Costa, explicando que as mulheres podem fazer o bacharelado nos seminários, mas apenas os homens são ordenados na Igreja Presbiteriana.

Ele explica ainda que apenas alguns seminários de diversas crenças são autorizados pelo MEC a buscar a convalidação em Teologia.

– Mas a maioria dos cursos oferecidos pela internet apenas mercadejam a palavra de Deus, abusando da boa-fé das pessoas. Vivemos em país sincrético, o que também facilitar a ação dos aproveitadores. Além disso, há vários grupos religiosos que tem destaque na mídia, até mesmo porque compram os meios de comunicação. Eles vendem a fé com técnicas de marketing e movimentam milhões. Isso acaba atraindo a atenção para um nicho – diz Costa.

No caso da Faculdade Teológica, o que se vende é o material didático, dividido em várias apostilas. O aluno estuda em casa e devolve a prova que vai anexada para a faculdade corrigir. Além de ter vários erros de português, o conteúdo das apostilas deixa a desejar, afirma Stenio.

– É um material rudimentar, que não serve nem para a escola dominical – diz o professor, referindo-se as sessões de estudo que costumam ocorrer aos domingos em várias igrejas.

De acordo com o MEC, quem se sentir lesado pelo esquema deve denunciar a faculdade ao próprio ministério ou à polícia.

Fonte: Globo Online