Os últimos escândalos de pedofilia na Igreja Católica resultaram numa nova polêmica sobre o celibato. Uma pesquisa recente indica que 87% dos alemães consideram a proibição de casamento para padres uma lei obsoleta que não mais corresponde à realidade do mundo de hoje.

Pela primeira vez, representantes da cúpula da Igreja Católica alemã admitiram uma flexibilização do regime de celibato para padres.

Embora não veja o celibato como a causa dos abusos de pedofilia, o bispo Hans-Jochen Jaschke, de Hamburgo, defendeu uma flexibilização, ou seja, a manutenção do celibato para os padres como uma opção, mas não uma obrigatoriedade. Para Jaschke, o celibato não seria a causa dos abusos, mas ele admite que a regra poderia atrair para o sacerdócio pessoas “com uma sexualidade doentia”.

O psiquiatra austríaco Reinhard Haller, que tem muitos padres entre os seus pacientes, calcula que apenas 10% dos sacerdotes conseguem viver a vida inteira no regime celibatário. Segundo ele, a Igreja subestima a importância da sexualidade e, além disso, não prepara os religiosos psicologicamente para uma renúncia à sexualidade.

– Um dos meus pacientes, um padre acusado de abuso sexual, contou que o capítulo sexualidade foi concluído no seminário com um simples “vocês já são homens adultos” – lembra Haller, que já atuou também como perito em processos contra acusados de pedofilia.

Os defensores do fim da proibição de casamento para sacerdotes lembram que ela não veio nem de Jesus Cristo, nem dos apóstolos. Heiner Geissler, ex-ministro da Família, diz que o celibato não existiu no primeiro milênio do cristianismo.

– Ele foi introduzido porque a Igreja quis se livrar do ônus de manutenção material das famílias dos padres quando estes faleciam – disse o político de 80 anos, que foi seminarista mas desistiu de ser padre ao descobrir que não queria viver a vida inteira sem uma mulher.

Em um artigo publicado na revista “Tema Igreja”, o arcebispo de Viena, Christoph Schoenborn, defendeu também uma nova discussão sobre o celibato como parte do trabalho de busca das causas do abuso sexual na Igreja. Segundo ele, seria importante também uma análise dos efeitos da revolução sexual , produto da geração de 1968. Essa teoria, defendida também pelo bispo alemão Walter Mixa, tenta explicar os desvios dos padres como uma consequência do excesso de sexualização da sociedade desde os anos 1960.

Já na Áustria, nas últimas semanas houve novamente uma onda de denúncias contra padres que fez ressurgir a discussão sobre o celibato.

Para o bispo Manfred Scheuer, de Innsbruck, a discussão sobre o celibato “é legítima”, mas o maior erro da Igreja no passado foi ter procurado defender os culpados da fama negativa, enquanto as vítimas foram esquecidas.

Mas, Reinhard Haller lembra que o celibato por si só não leva à pedofilia. O problema ele vê na “traumatização” do tema sexualidade para muitos padres, que se veem confrontados com um tabu sobre o qual não têm nem coragem de falar com outras pessoas – às vezes nem com os colegas.

Teólogo Hans Küng acusa Papa de “absolutismo”

O experiente analista austríaco diz que há dois tipos de reação à opressão da sexualidade: uns reagem de uma forma patológica; já outros conseguem sublimar a sexualidade, transformando-a em algo criativo, como uma manifestação intelectual ou artística.

– O celibato em si não leva à pedofilia, mas pode levar a uma forma de excesso de pressão e reação patológica – explica.

Ele ressalta, porém, haver casos de homens que “já têm uma programação errada da sexualidade”, quer dizer, com interesse apenas por crianças e buscando no refúgio da vida em celibato – sem chamar a atenção pela ausência de contatos com mulheres – um bom status social e uma vida com segurança material. Esses casos seriam os mais difíceis de tratamento.

O teólogo e psicólogo Wunibald Müller tem também entre seus pacientes padres em crise existencial causada pela castidade. Para ele, a repressão da Igreja não vai reduzir o problema. O mais importante seria um preparo melhor nos seminários, para evitar que o sacerdócio se torne uma profissão atraente a homens jovens que desconhecem a própria sexualidade.

O teólogo Bernd Goehring, da Iniciativa Igreja de Baixo, uma organização leiga católica fundada em 1978, afirma que uma das consequências dos escândalos é que a Igreja vai ter de refletir não apenas sobre o celibato, pois está também na hora “de aceitação do homossexualismo”.

– A Igreja cria um problema ao oprimir a sexualidade.

Já o perito criminal Christian Pfeiffer, especialista em abuso sexual, diz que o celibato não é a causa dos últimos escândalos. No caso da Igreja Católica, o problema maior teria sido a tentativa de manter sigilo.

– Os padres que foram acusados de abuso já tinham a tendência à pedofilia antes de se ordenarem – sustentou.

O teólogo Hans Küng, nos anos 60 colega de Joseph Ratzinger como professor de Teologia da Universidade de Tübingen vê a relação entre o celibato e os casos de abuso sexual, embora lembre que a pedofilia acontece em todos os setores da sociedade. Küng acusa Bento XVI de “absolutismo”, por não querer ouvir vozes que exigem reformas. Segundo ele, o celibato obrigatório é também a causa da escassez de sacerdotes, que na Alemanha atingiu uma dimensão dramática, levando um padre a ter de cuidar de duas ou mais paróquias.

– Os poucos padres que existem estão sobrecarregados!

Fonte: O Globo online