As autoridades judiciais chinesas condenaram o pastor protestante Wang Zaiging a dois anos de prisão e ao pagamento de uma multa de 100 mil yuans (cerca de 10 mil euros) “por imprimir Bíblias e outros materiais cristãos de forma ilegal”.

A sentença, de acordo com a agência AsiaNews, foi pronunciada no último dia 9, mesmo dia em que o arcebispo anglicano chinês de Canterbury, Rowan Williams, conversou com as autoridades chinesas sobre a necessidade de melhorar a formação teológica dos pastores do país.

Em Pequim, o arcebispo se reuniu com alguns membros do governo chinês e discutiu “vários casos de perseguição religiosa”, além da prisão do pastor Cai Zhuohua, condenado a três anos de prisão por “tráfico de Bíblias”.

O líder anglicano Williams, arcebispo de cerca de 77 milhões de fiéis espalhados por todo o mundo, é o primeiro pastor estrangeiro de sua igreja a visitar a China nos últimos dez anos. Durante sua viagem de duas semanas, concluída ontem, Williams visitou Xangai, Nanquim, Wuhan, Xian e Pequim.

Williams disse ter notado “um crescente espírito de abertura na China” e ressaltou a possibilidade de colaborar com as igrejas oficiais em questões como a saúde infantil, a educação de pastores e a construção de seminários e bibliotecas.

Para o arcebispo anglicano, “a mudança de atitude do governo oferece muitas possibilidades aos chineses”.

A Igreja Perseguida na China

A China é o terceiro maior país do mundo e possui a maior população do planeta. Além disso, as maiores altitudes do globo encontram-se em seu território. A maior parte da população chinesa vive na região leste, concentrada principalmente em 42 grandes cidades, todas com mais de um milhão de habitantes.

Embora oficialmente a China tenha um governo comunista, na prática ela é governada por homens e não por sistemas ou leis. Aqueles no poder anseiam por estabilidade acima de tudo e esmagam impiedosamente qualquer um que julguem ser uma ameaça. Talvez isto explique porque a igreja é alvo de implacável perseguição em áreas onde cresce rapidamente, enquanto sofre apenas um controle moderado em outras regiões. O Partido Comunista mudou de forma significativa desde os dias de Mao. Durante a gestão do último líder, Deng Xiaoping, as portas da China se abriram novamente para o resto do mundo e o comércio exterior com países ocidentais tem sido encorajado. Hoje, as ideologias comunistas permanecem firmes em suas raízes, porém economicamente o capitalismo é a ordem do dia.

Mais de 60% dos chineses professam não ter nenhuma religião. As religiões locais e o budismo perfazem quase 30% da população, enquanto os cristãos são estimados em cerca de 6%. A igreja chinesa é uma das que crescem mais rapidamente no mundo. Teoricamente, os cristãos chineses têm o direito à liberdade religiosa, mas o espaço para evangelização é limitado. Apenas pessoas com mais de dezoito anos podem ser evangelizadas e todas as igrejas devem ser registradas. Os cristãos não podem se reunir em centros de culto não registrados e tampouco evangelizar fora dos templos.

A Igreja

O cristianismo chegou à China por intermédio de missionários procedentes do Oriente Médio em 635 d.C. O número de cristãos hoje é estimado em cerca de 70 milhões de pessoas. A vida da igreja é marcada por um paradoxo: embora seja rica, vibrante, permeada de renovação e cresça em ritmo acelerado, ao mesmo tempo é perseguida e extremamente carente de recursos e treinamento. Estima-se que 50 milhões de cristãos chineses ainda esperam por sua primeira Bíblia e, sem a posse de sua própria cópia das Escrituras, muitos são presas fáceis de heresias e falsos ensinamentos. Não falta entusiasmo aos evangelistas, mas a maioria é mal treinada e pouco equipada. Além disso, há conflitos entre os líderes cristãos. Acredita-se que atualmente a pior tentação enfrentada pela igreja chinesa seja o materialismo, particularmente dentro do contexto da explosão econômica do país.

A Perseguição

O objetivo principal do governo é manter a estabilidade e o poder. Esta é a principal motivação que está por trás do controle populacional, da reforma econômica e da política religiosa chinesa, que consiste em domínio e opressão. O Movimento Patriótico das Três Autonomias (MPTA), também conhecido como Igreja dos Três Poderes, é a igreja oficial, controlada de perto pelo Partido Comunista. As igrejas locais não registradas recebem ataques esporádicos do governo. A perseguição depende principalmente do grau de perigo que o governo enxerga em cada grupo religioso. Alguns observadores acreditam que o maior temor do governo chinês é que os religiosos e ativistas democráticos se unam aos desempregados, cujo número cresce a cada dia. Os cristãos não são os únicos a serem perseguidos. Em alguns casos, muçulmanos e budistas têm recebido o mesmo tratamento rigoroso dado aos cristãos e é comum que muitas seitas ou grupos religiosos de menor expressão sejam extintos. A perseguição ao cristianismo abrange desde multas e confisco de Bíblias até a destruição de edifícios de igrejas. Evangelistas são detidos, interrogados, aprisionados e torturados, o que resulta em morte em alguns casos. Além da perseguição governamental, as tentativas de evangelizar muçulmanos no extremo noroeste do território chinês têm enfrentado resistência e alguns ataques. Os budistas localizados na antiga região do Tibet são bastante organizados em sua oposição ao cristianismo.

No fim de 1998, Ah King, líder feminina de uma igreja no noroeste da China, havia acabado de expor a sua mensagem para a congregação quando oficiais do Departamento de Segurança Pública a levaram e a jogaram em uma cela gelada. Seu interrogador, Wu Pei Fu, tomado por uma súbita e injustificada antipatia por ela, começou a espancá-la e a chutá-la ao invés de utilizar técnicas psicológicas mais tradicionais e sutis. Ele perguntava aos gritos: “Diga-me quem são os outros líderes! Quem fornece Bíblias a vocês?” A recusa de Ah King em responder era seguida de mais golpes sobre seu corpo.

Enquanto isso, os cristãos permaneciam em oração e Wu, o interrogador, também passou por momentos difíceis. Ele interrogou Ah King por 24 horas e esse curto período de tempo reservou-lhe muitas surpresas desagradáveis. Primeiro, ele recebeu a notícia de que sua mãe havia sofrido um grave acidente de carro e estava internada no hospital. Depois, soube que seu filho estava muito doente, acometido de uma enfermidade estomacal. Finalmente, quando chegou à sua casa, discutiu seriamente com a esposa, que ameaçou abandonar-lhe.

Pela manhã, Wu descarregou toda a sua frustração em Ah King, espancando-lhe continuamente. Então enviou a seguinte mensagem à congregação: “Se vocês não pagarem 20 mil iuanes pela libertação de Ah King, eu vou enviá-la a um campo de trabalho por três anos.” A quantia era muita alta (cerca de US$ 2.500) e a congregação não podia pagar, já que na região o salário anual médio era inferior à metade daquele valor. Assim mesmo eles oraram e um contato em outra cidade concordou em levantar o dinheiro. No final, Ah King foi libertada.

Ao descobrir que a mãe de seu algoz estava enferma, Ah King foi diretamente ao hospital vê-la. Ah King encontrou a mulher deitada na cama, com outro filho cuidando dela, e começou a testemunhar para os dois. Ela pregou o Evangelho e mandou chamar outros cristãos que estavam por perto. Todos se reuniram na cabeceira da cama e oraram. Poucas horas depois, mãe e filho haviam aceitado a Cristo. Os cristãos também oraram por Wu Pei Fu e por sua esposa e filho, o qual foi curado. Wu ficou surpreso com a ousadia e eficácia dos cristãos, e não colocou nenhuma objeção quando sua mãe passou a freqüentar a igreja de Ah King, a quem ele havia tratado de forma tão cruel.

O Futuro

A perseguição e as restrições religiosas têm sido ineficientes para conter a igreja chinesa, conseguindo apenas diminuir ligeiramente seu crescimento. Acredita-se que em 2050 a igreja chinesa somará mais de cem milhões de membros, podendo se tornar uma das maiores forças de evangelismo no mundo caso haja uma maior abertura. Quando as dificuldades para viajar diminuírem o suficiente ara que os chineses se aventurem livremente no exterior, a igreja chinesa poderá ser uma das maiores bases de envio de missionários de todos os tempos.

Fonte: Folha Online e Missões Portas Abertas