NO CORAÇÃO DA FALTA: CELEBRANDO O OBJETO a NO DIA DOS NAMORADOS

No campo da psicanálise, o "objeto a" pode ser representado por várias coisas, dependendo do indivíduo e do contexto

Foto da autora com o marido na comemoração dos 20 anos de casamento durante o eclipse solar em João Pessoa.
Foto da autora com o marido na comemoração dos 20 anos de casamento durante o eclipse solar em João Pessoa.

O conceito de “objeto a”, também conhecido como “objeto pequeno a”, é um termo fundamental na teoria psicanalítica de Jacques Lacan. Esse conceito representa o objeto da pulsão, ou seja, aquilo que causa o desejo, mas nunca pode ser plenamente alcançado ou satisfeito. Importante ressaltar que esse objeto não é concreto ou específico, mas uma função estrutural no inconsciente.

Lacan desenvolveu o conceito de “objeto a” como uma forma de entender a natureza do desejo humano. O “a” em “objeto a” deriva do termo francês “autre” (outro), indicando que esse objeto é sempre algo além, um outro que está fora do alcance. Ele é a causa do desejo, mas ao mesmo tempo é impossível de ser completamente apreendido ou satisfeito.

No campo da psicanálise, o “objeto a” pode ser representado por várias coisas, dependendo do indivíduo e do contexto, como um olhar, uma voz, um seio ou qualquer outro elemento que desencadeie o desejo, mas que, ao mesmo tempo, permaneça elusivo e inacessível. Esse conceito é central para a compreensão de como os sujeitos se estruturam em torno do desejo e da falta, que são motores fundamentais da psique humana segundo Lacan.

“Amo em você o objeto a” é uma frase que pode ser entendida através da teoria lacaniana do desejo e do “objeto a”. Para compreender essa frase, é importante desdobrar os conceitos subjacentes:

  1. Desejo e Objeto a: No pensamento de Lacan, o desejo humano é estruturado em torno de uma falta, algo que está sempre ausente e que motiva o sujeito a buscar incessantemente. O “objeto a” é essa causa do desejo, uma espécie de objeto perdido ou inalcançável que nunca pode ser plenamente possuído ou satisfeito.

  2. Amor e Desejo: Quando alguém diz “Amo em você o objeto a”, está expressando que o amor que sente é profundamente ligado ao desejo despertado pelo “objeto a”. Em outras palavras, a pessoa está dizendo que ama o outro precisamente por aquilo que nele representa esse objeto de desejo, algo que sempre escapa, algo que é sempre desejado, mas nunca plenamente alcançado.

  3. A Natureza do Objeto a: Esse “objeto a” não é algo tangível ou concreto, mas uma função psíquica. Pode ser uma qualidade, um traço, uma característica que causa um fascínio e que perpetua o desejo. Pode ser um mistério, uma falta, algo indefinido que mantém o interesse e o amor vivo.

Portanto, a frase “Amo em você o objeto a” sugere que o amor está intrinsecamente ligado a esse elemento de desejo e falta que a outra pessoa encarna. Não é simplesmente amar a pessoa por quem ela é, mas amar também pelo que ela simboliza em termos de desejo e fantasia, algo que mantém o vínculo dinâmico e perpetuamente insatisfeito, como descrito por Lacan.

“Em você eu procuraria todos os dias o objeto a” também pode ser entendida no contexto da teoria lacaniana do desejo e do “objeto a”. Vamos desmembrar essa frase para entender seu significado:

  1. Desejo e Busca Contínua: O “objeto a”, conforme Lacan, é a causa do desejo, algo que nunca pode ser completamente alcançado ou satisfeito. Ele representa uma falta fundamental no sujeito que impulsiona a busca constante.

  1. Procura Diária: A expressão “procuraria todos os dias” indica uma busca incessante, contínua e nunca finalizada. Isso sugere que o desejo é uma força constante que nunca se apaga, sempre motivando o sujeito a procurar esse “objeto a”.

  2. Em Você: Ao direcionar essa busca para “em você“, a frase sugere que a outra pessoa é o lugar onde o sujeito espera encontrar ou, mais precisamente, ser levado a confrontar o “objeto a”. A pessoa amada ou desejada encarna esse lugar de busca incessante.

  3. Significado da Frase: Portanto, a frase “Em você eu procuraria todos os dias o objeto a” implica que o sujeito vê na outra pessoa um contínuo estímulo para o desejo, uma fonte de fascínio e mistério que nunca será completamente decifrada ou satisfeita. Esta busca constante é o que alimenta o desejo e mantém a dinâmica do amor e do interesse vivo.

A frase “Em você eu procuraria todos os dias o objeto a” expressa a ideia de que a outra pessoa é fundamental para a contínua busca do desejo, representando o “objeto a” que motiva e dá sentido a essa procura incessante e diária.

E assim, no Dia dos Namorados, enquanto celebramos o amor e o desejo, somos convidados a mergulhar na profundidade do conceito lacaniano do “objeto a”. O “objeto a” nos lembra que o desejo nunca se apaga e que, em cada olhar, cada toque, e cada palavra sussurrada, buscamos incessantemente aquilo que nunca pode ser plenamente alcançado. É essa busca contínua que mantém o amor vivo, dinâmico e eternamente fascinante.

“Amo em você o objeto a” é uma confissão de que o que amamos no outro vai além do que é visível e tangível; é uma admiração pelo mistério, pela falta, pelo desconhecido que o outro carrega. Essa falta é o que perpetua o desejo, fazendo com que cada encontro, cada momento juntos, seja uma nova oportunidade de explorar as profundezas do nosso próprio desejo e da nossa própria falta.

Da mesma forma, “Em você eu procuraria todos os dias o objeto a” revela uma dedicação diária à busca do inatingível, uma celebração constante do fascínio que o outro evoca. Esse compromisso com a procura diária do “objeto a” não só mantém o desejo aceso, mas também fortalece o vínculo amoroso, transformando o cotidiano em uma jornada interminável de descobertas e redescobertas.

Neste Dia dos Namorados, que possamos reconhecer e celebrar o “objeto a” em nossas relações. Que cada beijo, cada abraço, e cada declaração de amor seja um lembrete de que o verdadeiro encanto do amor reside naquilo que nunca pode ser plenamente possuído, mas que sempre motiva a nossa busca. Afinal, é essa busca incessante que torna o amor tão profundo, enigmático e eternamente apaixonante.

Helena Chiappetta

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