O que realmente determina uma escolha política? A consciência das propostas ou os sentimentos que nem sempre conseguimos reconhecer?
As eleições presidenciais de 2026 revelaram muito mais do que uma disputa pelo poder. Expuseram um Brasil atravessado por sentimentos contraditórios, por necessidades de reconhecimento, por inseguranças e expectativas. Sob a perspectiva da psicanálise, o voto não representa apenas uma decisão política. Ele também pode expressar nossos medos, nossas identificações e a maneira como buscamos proteção diante das incertezas da vida.
No segundo turno, realizado em 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 48,21%. A diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos revelou uma sociedade profundamente dividida em suas escolhas, embora não necessariamente em todos os seus desejos e necessidades.
Mas o que levou milhões de brasileiros a escolherem um candidato e não o outro? Para compreender essa questão, precisamos olhar além das urnas. O voto também nasce do inconsciente.
Sigmund Freud, em sua obra Psicologia das Massas e Análise do Eu, publicada em 1921, demonstrou que os vínculos entre indivíduos e lideranças são atravessados por processos de identificação.
Não nos identificamos apenas com aquilo que alguém representa racionalmente; também podemos nos identificar com aquilo que essa pessoa simboliza em nossa história emocional. Uma liderança política pode representar segurança, autoridade, proteção, transformação ou a possibilidade de recuperar algo que sentimos ter perdido.
Na psicanálise, chamamos de ideal do eu uma referência interna relacionada àquilo que desejamos ser e aos valores que admiramos. Em determinadas circunstâncias, uma figura pública pode ocupar simbolicamente esse lugar, tornando-se depositária de expectativas pessoais e coletivas. Assim, o eleitor não escolhe necessariamente apenas um projeto de governo; pode também reconhecer naquele projeto uma promessa de futuro compatível com suas necessidades emocionais.
Isso não significa que o voto seja irracional. Significa que a razão e os afetos participam da mesma decisão. O medo de perder e o desejo de mudar. Uma pesquisa Datafolha realizada em outubro de 2026 mostrou diferenças importantes nas motivações declaradas pelos eleitores.
Entre os apoiadores de Lula, 48% mencionaram a proteção social como razão para sua escolha. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 41% destacaram o desejo de mudança e alternância de poder. A rejeição ao adversário também apareceu entre os motivos dos dois grupos.
Esses dados permitem uma reflexão psicanalítica importante. O ser humano convive permanentemente com duas necessidades: preservar aquilo que lhe proporciona segurança e buscar transformações quando a realidade já não corresponde às suas expectativas. Para algumas pessoas, mudar pode significar a possibilidade de reparar frustrações. Para outras, preservar determinadas conquistas pode representar a garantia de não retornar a experiências de privação. Ambas as posições podem estar relacionadas ao que Freud compreendeu como uma condição fundamental da existência humana: o desamparo.
O desamparo não se limita à infância. Ele reaparece na vida adulta diante das perdas, das dificuldades financeiras, das ameaças à estabilidade e da percepção de que não controlamos inteiramente nosso destino. Nesse sentido, a política frequentemente se torna um espaço no qual procuramos respostas para nossas inseguranças.Entretanto, nenhuma liderança consegue eliminar completamente o desamparo humano.
Outro fenômeno importante é a identificação coletiva: quando alguém passa a reconhecer um grupo político como parte essencial de sua identidade, discordar de suas convicções pode ser experimentado como uma ameaça pessoal. É nesse momento que o debate deixa de ser apenas uma troca de argumentos e passa a envolver sentimentos de pertencimento, rejeição e reconhecimento. O outro já não é percebido simplesmente como alguém que pensa diferente. Pode tornar-se, simbolicamente, aquele que ameaça nossos valores, nossa história ou nosso lugar no mundo.
A psicanálise nos ajuda a compreender por que algumas divergências políticas provocam reações emocionais tão intensas, inclusive dentro das famílias. Não discutimos apenas ideias. Em certas ocasiões, defendemos também aspectos de nós mesmos que depositamos nessas ideias. O problema surge quando a identificação se torna tão rígida que perdemos a capacidade de reconhecer a humanidade de quem pensa de outra maneira.
Uma democracia precisa de diferenças; o que a enfraquece é a incapacidade de conviver com elas. O Brasil estava procurando segurança emocional? Às vésperas do segundo turno, outra pesquisa Datafolha revelou que 62% dos entrevistados se sentiam inseguros ao pensar no Brasil daquele momento. Ao mesmo tempo, 56% afirmavam sentir mais esperança do que medo.
A coexistência desses sentimentos é particularmente significativa. Podemos sentir medo e esperança simultaneamente; podemos desejar mudanças e, ao mesmo tempo, recear suas consequências. Essa ambivalência faz parte da experiência humana. Em uma leitura psicanalítica, o eleitor pode projetar sobre a política tanto suas expectativas de reparação quanto suas angústias diante do futuro. A figura do governante pode adquirir simbolicamente características associadas ao cuidado, à autoridade ou à proteção. Isso não significa que todos os eleitores procurem uma figura paterna, nem que suas escolhas possam ser explicadas por conflitos infantis. Significa reconhecer que nossas experiências anteriores influenciam a maneira como interpretamos as promessas do presente. O voto, portanto, também pode carregar uma pergunta silenciosa: quem poderá oferecer as condições necessárias para que eu e as pessoas que amo tenhamos uma vida melhor? A decisão também passou pela necessidade de participar.
Um dos aspectos mais importantes das eleições de 2026 foi a mobilização entre os dois turnos. Lula chegou à segunda votação depois de ficar atrás de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Entretanto, a participação eleitoral aumentou, com aproximadamente três milhões de eleitores a mais comparecendo às urnas. A redução dos votos brancos e nulos também ampliou o número de votos válidos. Embora esses números não revelem, por si mesmos, as motivações inconscientes dos eleitores, mostram que a participação foi decisiva para a mudança do resultado.
Sob uma perspectiva subjetiva, participar também pode representar o desejo de não permanecer indiferente diante da própria realidade. O exercício da cidadania é uma forma de reconhecer que temos responsabilidade pela construção da sociedade em que vivemos.
Afinal, o que decidiu as eleições?Seria reducionista afirmar que o Brasil votou exclusivamente pelo medo, pela esperança, pela economia ou pela identificação com seus líderes. As escolhas eleitorais resultam da combinação de fatores econômicos, históricos, sociais, culturais e subjetivos. A psicanálise não oferece uma explicação definitiva para o resultado das urnas, mas nos convida a reconhecer algo frequentemente esquecido: por trás de cada escolha política existe um sujeito com sua história, seus conflitos, suas necessidades e seus desejos.
O Brasil de 2026 não revelou simplesmente dois grupos que desejam coisas opostas. Revelou também pessoas que, por caminhos diferentes, procuram segurança, dignidade, reconhecimento e perspectivas de futuro. Talvez o maior desafio depois das eleições seja justamente compreender que a vitória de um projeto político não elimina as necessidades emocionais e sociais daqueles que escolheram outro caminho. A democracia amadurece quando conseguimos reconhecer que ninguém possui o monopólio da esperança, do sofrimento ou do desejo de pertencimento.
Por que desejamos liberdade, mas procuramos alguém que nos proteja? Existe uma contradição profundamente humana que merece nossa atenção: desejamos ser livres, mas frequentemente sentimos necessidade de encontrar alguém que nos ofereça segurança diante das responsabilidades e incertezas que acompanham a liberdade; esta nos permite escolher, mas também nos coloca diante da possibilidade de errar, perder e enfrentar consequências que não podemos prever.
Desde a infância, experimentamos a necessidade de proteção. Inicialmente dependemos de outras pessoas para sobreviver e, ao longo do desenvolvimento, aprendemos gradualmente a construir nossa autonomia. Entretanto, crescer não significa eliminar completamente a necessidade de amparo.
Freud, em O Futuro de uma Ilusão, publicado em 1927, examinou como o desamparo humano favorece a busca por representações capazes de oferecer proteção e sentido diante de uma realidade marcada por limites e incertezas. Embora sua reflexão estivesse especialmente relacionada à religião, alguns desses mecanismos podem contribuir para compreendermos determinados vínculos estabelecidos com as lideranças políticas.
Em certas circunstâncias, uma figura pública pode tornar-se depositária de expectativas que ultrapassam suas possibilidades reais. Esperamos que ela resolva problemas históricos, diminua nossas angústias, restabeleça a segurança e ofereça respostas para conflitos que também pertencem à estrutura da sociedade. Nesse processo, podemos atribuir ao outro uma capacidade de proteção maior do que aquela que efetivamente possui.
A identificação, quando excessiva, pode dificultar o reconhecimento dos limites da liderança escolhida. Questionar suas decisões pode provocar desconforto porque, simbolicamente, questioná-la significaria também confrontar nossas próprias expectativas. É nesse ponto que precisamos distinguir duas experiências: confiar em uma liderança e idealizá-la.
Confiar envolve reconhecer qualidades, avaliar propostas e aceitar a possibilidade de discordância; idealizar pode significar atribuir ao outro características tão extraordinárias que suas contradições deixam de ser percebidas. Quando isso acontece, o pensamento crítico corre o risco de ceder espaço à necessidade emocional de preservar uma imagem. Não se trata de afirmar que determinada preferência política seja resultado de imaturidade emocional. A identificação faz parte de todos os vínculos humanos e pode estar presente em diferentes posições ideológicas.
A questão fundamental é perceber quando a identificação contribui para nossas escolhas e quando começa a limitar nossa capacidade de refletir. A história emocional de cada pessoa pode influenciar a maneira como ela se relaciona com a autoridade. Para algumas, a autoridade representa cuidado e proteção; para outras, desperta lembranças de controle, abandono, injustiça ou submissão. Essas experiências não determinam automaticamente uma posição política, mas podem participar da construção de nossas expectativas.
Talvez, por isso, a política mobilize sentimentos tão intensos. Às vezes, o que esperamos de uma liderança não é apenas que governe bem, mas que nos devolva uma sensação de estabilidade que parece ter desaparecido. No entanto, nenhum governante pode assumir integralmente a responsabilidade pela vida emocional de uma sociedade. A política pode transformar condições materiais de existência, ampliar direitos, organizar serviços e produzir mudanças concretas. Mas não pode substituir o trabalho individual e coletivo de elaboração de nossas angústias. Precisamos de instituições que nos protejam, mas também precisamos desenvolver a capacidade de pensar sem depender de respostas prontas.
A maturidade democrática não exige que deixemos de acreditar em nossos representantes. Exige que sejamos capazes de reconhecer suas limitações, questionar suas decisões e compreender que nenhum projeto político pode ser confundido com a totalidade de nossos desejos.
O que as eleições revelam sobre nós? Talvez as eleições presidenciais de 2026 tenham apresentado uma questão que ultrapassa o resultado das urnas. O que acontece quando uma sociedade encontra dificuldades para elaborar coletivamente seus medos, suas frustrações e suas expectativas? Parte desses sentimentos pode encontrar expressão nas disputas políticas. O adversário pode ser transformado em responsável por todos os males, enquanto o candidato escolhido pode ser percebido como portador das soluções esperadas. Essa polarização emocional pode reduzir a complexidade da realidade a uma oposição entre aqueles que supostamente nos salvariam e aqueles que representariam todas as ameaças.
A psicanálise nos convida a reconhecer que a realidade humana raramente se organiza de maneira tão simples. Todos carregamos contradições. Podemos defender a liberdade e desejar proteção; podemos buscar mudanças e temer o desconhecido; podemos desejar justiça e, ao mesmo tempo, encontrar dificuldades para reconhecer o sofrimento daqueles com quem discordamos. É justamente o reconhecimento dessas contradições que pode abrir caminhos para uma convivência mais madura.
Freud ensinou-nos que nem sempre somos plenamente conscientes das forças que orientam nossas escolhas. Reconhecer essa limitação não diminui nossa liberdade. Pelo contrário, pode ampliar nossa capacidade de reflexão. Talvez o verdadeiro amadurecimento de uma sociedade comece quando seus cidadãos conseguem reconhecer que uma liderança política não precisa ser perfeita para merecer confiança, tampouco precisa ser transformada em inimiga para que suas decisões sejam criticadas.
A liberdade não consiste em encontrar alguém que pense por nós, mas em desenvolver a capacidade de pensar, escolher e assumir responsabilidades, mesmo diante das incertezas. Por isso, mais importante do que perguntar apenas quem venceu as eleições é compreender o que a sociedade revelou sobre si mesma durante esse processo.
O Brasil escolheu um presidente, mas continua procurando respostas para seus próprios conflitos. E talvez seja essa a reflexão mais importante que a psicanálise pode oferecer à política: uma nação não se reconstrói apenas conquistando votos; reconstrói-se também quando aprende a reconhecer suas feridas, elaborar suas diferenças e transformar o medo do outro na possibilidade de convivência, pois, antes de sermos eleitores de candidatos diferentes, somos seres humanos atravessados pelo mesmo desejo fundamental: viver com dignidade, segurança e esperança.
E, afinal, talvez a pergunta que devamos fazer a nós mesmos, depois das eleições, não seja apenas o que esperamos daqueles que nos governam, mas também: quanto de nossa própria liberdade estamos dispostos a assumir, sem entregar ao outro a responsabilidade de realizar todos os nossos desejos? Afinal, uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela que encontra alguém capaz de pensar por todos, mas aquela em que cada pessoa pode pensar por si, reconhecer o outro e participar da construção de um futuro comum.
Helena Chiappetta

