Incêndios de bandeiras israelenses, suásticas pintadas em sinagogas e em túmulos e agressões físicas contra judeus. Ações anti-semitas como essas, que ocorrem em várias partes do mundo, são registradas com cada vez mais freqüência também em Israel, país que foi criado justamente para ser um porto seguro para judeus perseguidos em outras partes do globo.

No início de 2007, a polícia da cidade costeira de Bat-Yam, ao sul de Tel Aviv, prendeu seis jovens por queimar bandeiras com a estrela-de-davi e pergaminhos de oração. Todos eram israelenses.

Há cerca de três meses, um rabino foi espancado por um grupo de skinheads na cidade de Petah Tikva, na periferia de Tel Aviv.

De acordo com Zalman Gilichensky, diretor do centro Dmir, que dá assistência às vítimas de anti-semitismo em Israel, os ataques ocorrem desde os anos 1990, mas o número está aumentando.

No ano passado, a organização de Gilichensky recebeu 500 reclamações de atos sofridos por judeus, e as ligações com relatos de incidentes são quase diárias.

“Debaixo do tapete”

“O governo sabe que existe um problema, mas não reage. É como falar para uma parede, eles querem esconder o problema debaixo do tapete”, diz o diretor do centro Dmir.

Segundo Gilichensky, Israel é muito duro nas críticas ao anti-semitismo em outros países, mas permanece calado quando o mesmo comportamento é registrado internamente.

“Israel foi criado como um refúgio para judeus, mas quando se descobre que existe anti-semitismo aqui também, este refúgio está arruinado.”

Judeu ortodoxo que deixou a Moldávia rumo a Israel há 17 anos, Gilichensky atribui o problema às conseqüências da lei do retorno, que permite que pessoas com pais ou avós judeus automaticamente sejam considerados judeus e recebam a cidadania israelense.

Raízes culturais

De acordo com a professora Marina Niznik, da Universidade de Tel Aviv, existem atualmente cerca de 1,3 milhão de russos em Israel, o que representa cerca de 20% da população do país.

“O problema é que muitos jovens russos que não se identificam com judeus nem com israelenses estão chegando aqui”, diz Niznik, ressaltando que apenas 21% dos imigrantes da ex-União Soviética que chegaram a Israel após o ano 2000 são judeus.

“Estas crianças e estes jovens têm raízes muito fortes na cultura e nos hábitos russos, inclusive no Cristianismo, e eles se sentem estranhos aqui, além de achar que foram traídos porque a decisão de emigrar para Israel foi dos pais e não deles.”

Niznik culpa as autoridades pela situação. “Por serem diferentes, os jovens russos nem sempre são bem recebidos e durante muito tempo as autoridades não se preocuparam em educar a comunidade judaica para aceitá-los.”

A professora cita como exemplo a hostilidade enfrentada por jovens russos cristãos que começaram a ir para a escola usando colares com crucifixo.

“Foi uma verdadeira crise, porque isso é completamente proibido pela religião judaica. Os colegas e até os professores destes jovens tiveram uma reação muito negativa e inadequada neste episódio”, disse.

Por outro lado, a ministra da Educação israelense, Yuli Tamir, resolveu lidar com o problema e iniciou um programa para orientar os professores sobre como lidar com o multiculturalismo e educar a comunidade local.

Neonazismo

“O anti-semitismo em Israel está se transformando em algo ainda mais radical, em neonazismo”, diz Gilichensky.

Em 2003, alguns jornais fora de Israel noticiaram a existência de um site neonazista na internet chamado “União Branca Israelense”, administrado por um soldado israelense que se auto-intitulava “patriota russo”.

O site, abrigado por um provedor israelense, foi fechado, mas, de acordo com o jornal Haaretz, vários outros sites da mesma natureza foram iniciados após o incidente, a maioria com servidores estrangeiros.

Em um deles, o “Centro Nacional Russo” diz ser “uma associação que vive em Israel e tem como missão principal disseminar propaganda nacionalista entre os russos étnicos que vivem em Israel, os encorajando a voltar à Rússia, se opondo ao retorno de judeus de Israel para a Rússia e se opondo à conversão ao judaísmo”.

Atos anti-semitas fora de Israel também aumentaram em 2006, de acordo com o Instituto Stephen Roth para Estudo sobre Anti-Semitismo e Racismo da Universidade de Tel Aviv, que omitiu os episódios registrados no país.

Segundo o instituto, foram registrados no ano passado 590 casos de violência e vandalismo contra judeus, propriedades e instituições judaicas, sendo que o número de agressões físicas dobrou em relação ao ano anterior.

“Um grande número de casos se concentrou em um curto período no verão de 2006, durante a Segunda Guerra no Líbano, e existem poucas dúvidas de que a guerra e a atmosfera hostil em torno dela em todo o mundo incitaram muçulmanos radicais e extremistas de direita a intensificar suas atividades contra os judeus”, afirma o relatório.

Fonte: BBC Brasil