Os cristãos coptas, a mais importante minoria religiosa do Egito, se dizem assombrados pelas ofensas a Maomé feitas no vídeo.

Os muçulmanos radicais não são os únicos enfurecidos com o filme Inocência dos Muçulmanos no Oriente Médio. Mais importante minoria religiosa do Egito, os cristãos coptas também se dizem assombrados pelas ofensas a Maomé feitas no vídeo, supostamente dirigido e produzido por membros da diáspora copta nos EUA. O temor é que o levante antiamericano realimente a violência sectária, como ocorreu no Cairo e no interior do país em 2011.

O receio é tal que na sexta-feira cristãos programaram uma manifestação na Praça Tahrir, no cento da capital, para condenar o filme, reunindo-se próximo a um grupo bem mais numeroso formado por salafistas radicais. Não houve incidente entre os dois lados. As cenas de violência se limitaram às protagonizadas por algumas centenas de jovens, que enfrentavam as tropas de choque nas imediações da embaixada americana, a 300 metros das manifestações pacíficas.

Ao longo do final de semana, o Estado visitou as comunidades cristãs do Cairo. Entre os fiéis coptas, a reprovação ao filme e ao discurso radical anti-islâmico de membros da diáspora egípcia nos EUA é unânime. Habituados a conviver com muçulmanos do Cairo, eles sabem que difamações ao profeta Maomé detonam a violência por parte dos ultraconservadores.

“O filme não é um bom negócio para ninguém. Quando se faz injúrias desse tipo, as pessoas aqui se sentem ultrajadas. Por isso temos tanto respeito pela fé alheia e nos unimos aos insatisfeitos”, diz Sam Roes, cristão egípcio de 45 anos que, como guia turístico, visitava na manhã de ontem a igreja de Saint-George, um dos patrimônios históricos do Cairo. Roes se disse aliviado porque o filme não suscitou até agora embates entre seguidores das duas religiões, mas diz haver risco. “Se você me perguntar se essa é uma razão para deixar o país, minha resposta é não. Mas as pessoas estão preocupadas.”

[b]Vídeo[/b]

O temor aumentou quando trechos do filme, que define Maomé como um pedófilo assassino e líder religioso ilegítimo, foram veiculados no YouTube e atribuídos a um cineasta inicialmente identificado como Sam Bacile. Segundo a polícia da Califórnia, Nakoula Basseley Nakoula, seu verdadeiro nome, é membro de um grupo ultraconservador copta. Essa revelação reforçou a tensão sectária latente no Egito.

Com cerca de 10% da população, os seguidores da Igreja Copta Ortodoxa de Alexandria são a principal minoria religiosa do país. Em 2011, com a queda do ex-ditador Hosni Moubarak, os casos de violência se multiplicaram. Entre março e maio do ano passado, 26 cristãos morreram em massacres atribuídos a muçulmanos radicais. Em um dos últimos incidentes, em outubro, mais de 200 pessoas ficaram feridas durante uma manifestação realizada no Distrito de Shubra, norte do Cairo, em protesto contra um ataque a uma igreja de Assuã, no interior.

“Moro em um vilarejo no deserto, onde a convivência está normal. Mas também lá as pessoas estão aflitas”, contou a irmã Verina, que soube da existência do filme com três dias de atraso, quando teve notícia dos incidentes violentos na capital. “O filme me pareceu tão sem sentido que preferi nem mesmo buscar detalhes.”

[b]Harmonia[/b]

Nos distritos cristãos do Cairo, o discurso geral é de que ambas as comunidades retomaram a harmonia após os incidentes de 2011. Mas, com meias palavras e em baixo volume, alguns coptas advertiram que a situação é mais instável do que as aparências sugerem. “Os cristãos do Egito enfrentam problemas diários. Não podemos falar nada, porque para nós não existe liberdade de expressão”, disse um comerciante de 65 anos que pediu anonimato por temer por sua vida. Para o copta, as dificuldades aumentaram desde a chegada da Irmandade Muçulmana ao poder, por meio do presidente Mohamed Morsi. “Mas nada disso justifica o filme. Quem o fez não é cristão, nem muçulmano. É apenas louco.”

Além de risco de violência, muitos cristãos do Cairo receiam que o filme possa prejudicar a imagem da comunidade por longo tempo. Entre muçulmanos, o Estado verificou que nem sempre coptas são bem vistos. Uma maioria, como o empresário Mustapha Sayd, de 30 anos, se mostrava satisfeito com a solidariedade que recebeu de seus amigos cristãos. Outros, nem tanto. Na sexta-feira, quando acompanhava a manifestação de salafistas e cristãos na Praça Tahrir, o engenheiro aeronáutico Salahedin Omar afirmou: “Os cristãos são muito gentis no Egito. É no exterior que eles mostram outra face”.

[b]Fonte: Estadão[/b]