Para batistas de reduto conservador na Virgínia, Obama é ‘muçulmano’ e pretende implantar o ‘socialismo’, contra os ideais dos ‘pais fundadores’.

O destino da candidatura de Mitt Romney depende da disposição dos eleitores conservadores – em sua maioria protestantes – de sair de casa para votar em um mórmon que, enquanto governador do liberal Estado de Massachusetts, considerava o aborto aceitável em alguns casos, entre outros “desvios”, como preocupar-se com a emissão de gás carbono ou conduzir uma reforma no sistema de saúde que inspiraria o Obamacare.

De cada cinco americanos, um é contra o aborto em qualquer caso. Dois terços dos evangélicos costumam votar nos republicanos. Em 2008, 20 milhões deles não saíram para votar. John McCain perdeu para Obama por uma margem de 9,5 milhões de votos. “Os evangélicos têm restrições aos mórmons, que consideram uma seita, mas uma parte deles detesta tanto Obama que passa por cima do mormonismo de Romney”, descreve Geoffrey Skelley, cientista político da Universidade da Virgínia. E há o vice de Romney, Paul Ryan – que como Joe Biden, o vice de Obama, é católico.

O Estado foi testar as credenciais conservadoras de Romney e de Ryan em Lynchburg, reduto conservador protestante da Virgínia, sob forte influência da Igreja Batista, que difunde sua doutrina por meio da Universidade Liberty e do colégio Liberty Christian Academy. Encontrou um eleitorado disposto a relevar o fato de Romney ser mórmon como o “mal menor”. As declarações dos entrevistados de Lynchburg sublinham também a ligação entre a doutrina protestante e o valor do empreendedorismo em oposição à proteção do Estado. Os dois princípios aparecem vinculados no desejo dos “pais fundadores”, como são chamados os idealizadores da Declaração de Independência e da Constituição.

“Romney é mórmon, mas tem visões mais na direção das minhas: não é a favor do aborto, do Obamacare, e acho que as pessoas não deveriam ter de depender do governo”, enumera Elisabeth Young, de 19 anos, estudante de matemática e de espanhol na universidade, e que se prepara para ser missionária.

“Gostaria que Romney tivesse uma religião mais com base no cristianismo, mas é ele ou Obama, e não concordo com Obama.”

“Não sei muito sobre a religião mórmon. Acho que eles acreditam em uma deusa mãe e em um deus pai e então tiveram Jesus”, especulou Elisabeth. “Não somos a favor deles, mas não os odiamos. Se eles viessem aqui não tentaríamos doutriná-los, mas ensinaríamos no que acreditamos e rezaríamos para que eles também seguissem Cristo.”

“Algumas coisas que Obama fez não foram tão ruins, mas em geral não gosto da direção a que ele está levando o país”, avaliou Robert Pelosel, de 21 anos, estudante de religião e música. “Acho que é mais em direção ao socialismo e ao governo grande, e esses não são os princípios fundadores do país. Romney vai na outra direção e eu realmente me inclino para ele”, prosseguiu Pelosel, que se declara republicano e frequenta a Assembleia de Deus na Pensilvânia, onde seus pais moram, e a Igreja Batista durante o período das aulas.

Sentado na escadaria de um prédio com fachada greco-romana e uma faixa que dizia: “Bem-vindos à casa, alunos”, Pelosel acrescentou: “O aborto é uma grande questão. Sei que Obama é muito a favor do aborto. Romney não”.

“O que mais me distancia de Obama é que ele quer uma só religião, a muçulmana, e como seguidora de Cristo e como mãe isso é muito importante para mim”, afirmou Ranell Ferrin, de 19 anos, que tem uma filha de 6 anos e um filho de 6 meses.

Desde que Obama se lançou à presidência, em 2007, apresentadores de rádio e de TV conservadores espalham que ele professa secretamente o islamismo. Ironicamente, Obama teve de distanciar-se durante a campanha de 2008 da Igreja Unida de Cristo, que frequentava em Chicago, em razão de declarações contra os brancos feitas por seu pastor, o reverendo Jeremiah Wright. Atualmente confessa-se com um pastor batista.

“Mitt Romney apoia os valores que eu tenho”, declarou a contadora Cindy Gaebe, de 53 anos, que esperava os filhos saírem da Liberty Christian Academy. “Acredito que um casamento deve ser entre homem e mulher.”

“Vou votar em Romney porque ele apoia mais Israel e o primeiro-ministro (Binyamin) Netanyahu do que Obama”, explicou Karin Staley, de 50 anos, aluna de estudos bíblicos na universidade, onde se prepara para ser conselheira pastoral na Igreja Batista. “Acho que Obama tem sido rude com Netanyahu. Israel ainda é a terra de Deus e quando Jesus voltar vai estabelecer seu reino em Jerusalém”, justificou Karin, trazendo à tona um dos motivos do forte elo entre os Estados Unidos e Israel.

Dos oito eleitores entrevistados em Lynchburg, o único que pretende votar em Obama é também o único negro: Barry Randolph, de 18 anos, estudante do básico na universidade, em dúvida se fará enfermagem ou música. “Mitt Romney é um homem muito bom”, ponderou Randolph, que frequenta a Ramp Church International, uma igreja evangélica. “Mas Obama está indo bem como presidente.”

[b]Fonte: Estadão[/b]