Perda de fiéis e falta de recursos levam padres e pastores europeus a comercializar prédios para fins residenciais. O maior número de vendas vem ocorrendo na Inglaterra, na Escócia, na Suíça e nos países escandinavos.

Quatrocentos metros quadrados habitáveis, vizinhança tranqüila, reformada há dois anos. O anúncio bem que poderia ser de um apartamento convencional. Mas trata-se de um anúncio de venda de uma igreja no interior da Suíça. Cada vez mais, o fenômeno da venda de igrejas vem ganhando força em vários países europeus diante da redução drástica de fiéis nos últimos dez anos nos templos.

Sem conseguir manter financeiramente as igrejas, padres e pastores têm optado por convencer os conselhos nacionais de igrejas a vender suas propriedades para quem possa fazê-lo. Na maioria dos casos, as vendas são para particulares que transformam as igrejas em residências.

O maior número de vendas vem ocorrendo na Inglaterra, na Escócia, na Suíça e nos países escandinavos. Mas mesmo nos principais redutos católicos da Europa, Itália e Espanha, o problema também está sendo enfrentado pelas igrejas.

Fuga da reza e do interior

Pesquisas feitas nos últimos anos em toda a Europa mostram que o número de fiéis é cada vez menor. Teólogos acreditam que o fenômeno não seja meramente uma fuga de fiéis da religião, já que Igrejas evangélicas estão crescendo. Mas, principalmente, uma tendência de individualizar a espiritualidade e rejeitar dogmas e tradições da Igreja. As perdas de igrejas e terrenos são ainda mais impressionantes em uma região onde quase um terço das terras era propriedade da Igreja Católica há 300 anos.

“Dois fatores contaram para que as Igrejas aceitassem vender seus templos. Um deles foi a queda de fiéis. O outro, ainda mais drástico, foi a redução significativa no número de pessoas vivendo no interior nos países europeus. Com isso, muitos não tiveram outra escolha senão vender os templos”, afirma Emily Hoskins, moradora há dois anos de uma igreja construída em 1744, a uma hora de Glasgow, na Escócia. A compra saiu por cerca de 350 mil. “É muito bom quando encontramos alguém que diz que viveu momentos muito felizes nessa igreja, como casamentos, batizados. É um local muito agradável para se viver”, diz.

Na França, um recente levantamento feito pelo jornal Le Monde mostra que apenas dois de cada dez franceses afirmam freqüentar a igreja pelo menos uma vez ao mês. Não é de se espantar, portanto, que várias delas fiquem praticamente vazias aos domingos, principalmente em vilarejos que ainda contam com duas ou três construídas há séculos.

Na Inglaterra, a situação também é crítica. Há cerca de 47 mil igrejas, algumas da Idade Média. Sondagens feitas nos últimos dois anos mostram que 42 milhões de pessoas no país consideram-se cristãs. Mas só um décimo diz ir à igreja uma vez por mês.

Loja e correios

Com uma queda cada vez maior no número de fiéis, um estudo publicado pelo jornal The Times aponta que mais de mil igrejas poderiam fechar ou ser vendidas nos próximos dez anos na Inglaterra. Um líder religioso importante, Sir Roy Strong, chegou a propor que pequenas igrejas dividam seus espaços com centros comunitários e mercados para agricultores. Em Kent, uma das igrejas da região já se transformou em um local de vendas de produtos naturais.

Para os anglicanos, o uso de templos para outros fins não representa um problema como para os católicos. Por isso, uma série de postos do correio vai começar a usar as igrejas vazias para seus trabalhos. Em Yorkshire Dale, a transformação de uma igreja em templo muçulmano gerou protestos, mas acabou sendo aprovada.

Na Espanha, uma recente polêmica ocorre em torno do pedido dos muçulmanos para que também possam utilizar a catedral de Córdoba, que também já foi uma mesquita durante o controle mouro da região.

Na Suíça, o problema vai bem além da falta de fiéis. Os líderes religiosos do país estão preocupados com a falta de padres e pastores para conduzir as paróquias. O resultado é que cada padre acaba ficando responsável por mais de uma, a maioria delas vazia.

Tanto os protestantes como os católicos continuam perdendo fiéis. Em 1970, 95% dos suíços afirmavam ser cristãos. Hoje, essa proporção não passa de 70%. Como as igrejas são financiadas pelos membros da congregação que pagam “impostos eclesiásticos”, a queda no número também significa queda de receita. A venda das igrejas, portanto, começa a ocorrer.

Regras de uso

No ano passado, bispos suíços decidiram estabelecer leis sobre como reutilizar os templos. Segundo as recomendações, o uso deve seguir princípios cristãos e devem tentar sempre vender as igrejas a outras congregações.

No cantão de Schwyz, uma igreja católica foi comprada recentemente pela Igreja Ortodoxa Síria. Mas os bispos se recusam a vender para os muçulmanos e preferem dar o local para trabalhos sociais ou culturais. Entre os protestantes, as regras são mais flexíveis.

Na Itália, um dos locais de maior força do catolicismo, conventos e igrejas também estão sendo colocados à venda. Um deles, nos morros de Úmbria, é do século 16. Os vendedores apontam que o local pode ser facilmente transformado em um pequeno hotel, já que conta com 11 quartos e 30 mil metros quadrado de terreno.

Em Roma, o Vaticano dá sinais de preocupação em relação às vendas dos templos. Mas acredita que a solução não será a de impedir o comércio nem a de salvar financeiramente os locais por meio de recursos públicos. Para a Santa Sé, a salvação será a reconquista dos fiéis, esforço que Bento XVI deixa claro ser um dos pilares de seu papado.

Fonte: Estadão