Em meio ao clima de guerra entre setores dos evangélicos e grupos LGBT, os líderes nas pesquisas de intenção de voto para a Prefeitura de Fortaleza adotam discurso que tenta agradar tanto um lado quanto outro.

As três grandes coligações que disputam a Prefeitura de Fortaleza tratam com muito cuidado a defesa das bandeiras tanto de grupos evangélicos como da comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). Luizianne Lins (PT), Moroni Torgan (DEM) e Patrícia Saboya (PDT) mantêm a linha de “trabalhar para todos” e garantem o bom relacionamento tanto com os que defendem uma leitura rigorosa da Bíblia quanto com aqueles que lutam pela diversidade sexual.

O vice na chapa de Moroni Torgan, Alexandre Pereira (PP), afirma que sua candidatura respeita a “diversidade de pensamentos e de opções”. Ele afirmou, contudo, que não tem um projeto específico para o público LGBT, pois “seria um tipo de discriminação”. Ele disse considerar que esse grupo deve ser atendido a partir de ações gerais.

Pereira também disse que não há propostas pensadas especialmente para os evangélicos. Ele afirmou que a campanha do candidato do DEM pretende alcançar o maior número de pessoas possível: “Não existe estratégia focando grupo A, B, C ou D. O interesse maior das pessoas é a melhoria da cidade de Fortaleza”, enfatizou. Apesar disso, no dia 2 de agosto, Moroni e seu vice visitaram a Vila Velha, a convite de grupo LGBT do bairro, que declarou apoio ao candidato.

Já o coordenador de marketing de Patrícia Saboya, Einhart Jacome, afirmou que a opção sexual não vai estar contemplada na estratégia de campanha da pedetista. “(A comunidade LGBT) não dá pra ser qualificada como um grupo social. Na sociedade, ela existe em todos os segmentos”, disse. Segundo ele, “para o marketing isso (opção sexual) é independente”.

Segundo a assessoria da candidata, Patrícia se dá muito bem com o “grupo GLS”. Para a coordenação da campanha, no entanto, não existiria o “voto por gênero”. A assessoria também havia prometido enviar as propostas para a comunidade LGBT, mas até o fechamento da matéria, não houve retorno. A pedetista também já se movimentou em busca do voto dos evangélicos. No último dia 3, ela participou de comício na Barra do Ceará, ao lado de um dos dois pastores da Igreja Universal do Reino de Deus que são candidatos a vereador.

Para o assessor de comunicação de Luizianne, Demétrio Andrade, a gestão da prefeita “trabalha para todos, independentemente de cor, credo ou orientação sexual”. O diferencial da candidatura da petista, segundo ele, é que ela faz a discussão de políticas para a comunidade LGBT “com tranqüilidade”.

Ele também destaca a ação da atual gestão para a abertura do debate em torno da diversidade sexual. “Toda e qualquer candidatura, de agora em diante, com certeza vai ter que discutir políticas públicas para esses segmentos (LGBT)”. Andrade também garante que nunca houve problema com os religiosos e que a candidata recebe apoio de “diversas religiões, inclusive evangélicos”.

Polêmica

Em 2004, as políticas para a comunidade LGBT causaram a maior polêmica da eleição para a prefeitura daquele ano. Luizianne Lins e Moroni Torgan travaram um acirrado debate em relação à inclusão, por parte de Luizianne, em seu programa de governo de “conteúdo programático positivo sobre homossexualidade” nas escolas públicas.

Moroni chegou a ser alvo de contra-campanha do Grupo de Resistência Asa Branca (Grab). O grupo considerou preconceituosa a propaganda do então candidato do PFL à Prefeitura, que criticava a proposta da concorrente petista. (Gabriel Bomfim, especial para O POVO)

Plataforma eleitoral LGBTT

O Grupo de Resistência Asa Branca (Grab) divulgou ontem sua “Plataforma política de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTT) para as eleições municipais de 2008”. Conheça algumas das 26 propostas que serão apresentadas a todos os candidatos à Prefeitura de Fortaleza.

– Criação da Secretaria Municipal de Direitos Humanos, com a inclusão da Coordenadoria de Políticas Públicas de Diversidade Sexual já existente

– Campanha de divulgação da lei que estabelece punições a estabelecimentos comerciais que discriminarem por orientação sexual

– Estabelecimento de um programa de formação em direitos humanos da Guarda Municipal e da AMC (Agentes de Cidadania), de sensibilização para um atendimento cidadão e não-homofóbico

– Que a administração municipal exclua dos processos licitatórios empresas que tenham sido condenadas, em decorrência de discriminação por orientação sexual

– Alocação de recursos próprios, no Orçamento Municipal, destinados à promoção dos direitos humanos de LGBTTs

– Reconhecimento, pelas políticas municipais de habitação popular, das uniões estáveis de pessoas do mesmo sexo, como as demais uniões civis

– Criação de um programa de formação de professores e funcionários dos estabelecimentos escolares, visando um tratamento positivo e não-discriminatório a homossexuais

– Propor a inclusão de temas relativos à sexualidade e homossexualidade nos conteúdos, currículos escolares, livros e outros materiais didáticos, considerando o conteúdo não discriminatório como um dos critérios para a seleção de livros didáticos

Para entender o caso

10 de agosto
Foram espalhados pela cidade 800 cartazes e 100 outdoors com a frase “Luizianne é contra a Bíblia e o povo de Deus. Diga não a Luizianne”. O motivo da campanha, promovida pela Convenção dos Ministros das Assembléias de Deus Unidas do Ceará (Comaduec), seria o veto da prefeita, em 2007, a projeto que obrigava as escolas municipais a ter um exemplar da Bíblia. Na época, o caso gerou polêmica e o projeto acabou sendo aprovado, após modificações para contemplar também outros credos.

11 de agosto
A coligação de Luizianne Lins (PT) entra com ação na Justiça Eleitoral pedindo a retirada do material das ruas. O deputado federal Eudes Xavier (PT) apresenta lista de 30 processos judiciais a que o presidente da Comaduec, Shelley Macêdo, responde, entre eles difamação, calúnia, falsidade ideológica e uso de documento falso.

12 de agosto
O juiz coordenador da propaganda eleitoral em Fortaleza, Emanuel Leite Albuquerque, decide pela remoção dos cartazes e outdoors. Ele ainda estabelece multa de R$ 50 mil por dia, no caso de descumprimento. Ele considerou o material “propaganda eleitoral irregular com características negativas”. Macêdo afirma que vai continuar com a campanha.

13 de agosto
A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) e o Grupo de Resistência Asa Branca (Grab) lançam notas de repúdio à campanha da Comaduec, que consideram discriminatória em relação à comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). As entidades defendem a não interferência das igrejas nos assuntos de competência do Estado.

Fonte: Jornal O Povo