É difícil não perceber o monumento gigante. Quem passa pela avenida ou quem caminha na praça não deixa de olhar para cima. Para os fiéis, é momento de fé e breve oração. Agora, é a vez do Santuário de Nossa Senhora Aparecida, no Montese.

É mais uma estátua erguida em espaço público. Antes dela, neste ano, foram inauguradas uma em homenagem a Nossa Senhora de Fátima, em frente ao santuário que leva seu nome, e outra de Santa Edwiges, próximo à igreja com o nome da santa, no bairro Moura Brasil.

Ano passado, houve ainda a instalação de mais outra – a de Nossa Senhora da Assunção, no Vila Velha. Desde então, as imagens têm-se multiplicado pela Capital. Símbolo de fé e devoção, dizem os religiosos. Falta de respeito com o espaço público, afirmam os técnicos. Para Romeu Duarte, arquiteto e urbanista, a instalação de uma imagem associada a uma determinada religião é uma forma de “privatização do espaço público pelos fiéis”. Diz ele: “Acho isso um absurdo. O espaço é público e pronto. Isso não contribui para a estética da cidade, do ponto de vista da depreciação, da descaracterização do espaço”.

O arquiteto lembra que quem não pertence à Igreja Católica pode se sentir constrangido com a presença da imagem. Além disso, o lugar começa a ser utilizado de outra forma, diz, com a freqüência maior de pessoas que vão rezar perto da estátua. O deslocamento de veículos se intensifica e a procura por estacionamentos aumenta, segundo ele. Romeu Duarte também critica a qualidade artística das estátuas. “São completamente destituídas de qualquer graça ou qualidade do ponto de vista artístico. Não houve cuidado com a estética”, afirma ele, que também é professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará (UFC).

De acordo com ele, está havendo uma “usurpação do espaço público”, como ele classifica. “Se cada praça de Fortaleza tiver a imagem de um santo, não vamos precisar mais de igreja. No mundo das imagens, estão cada vez mais querendo fazer uma imagem maior”, cita o arquiteto Romeu Duarte.

Santuário

Para o padre Francisco Ivan de Souza, pároco do Santuário de Nossa Senhora de Fátima, no Bairro de Fátima, a imagem em frente à igreja torna mais visível a presença de Nossa Senhora na comunidade. “É também um lugar em que as pessoas param, rezam, ficam um pouco. Vêm comunidades, grupos, caravanas e param ali para rezar”, diz. Segundo o padre Ivan, a imagem é uma representação da “liberdade religiosa que a própria Constituição prevê”. Além disso, cita, todo o espaço que hoje forma a praça era para ser o santuário também. “O terreno sempre pertenceu ao santuário, embora tenha se tornado público. Mas não há uma imposição, é referência ao santuário”, afirma o padre.

Ele nega que a obra tenha um caráter político, embora tenha sido idéia de um vereador. “O projeto foi colocado em discussão na Câmara. A gente poderia, pelo menos, ter agradecido a ele, mas, em nenhum momento, a gente se manifestou em público”, enfatizou padre Ivan. O pároco também afirmou que o “tamanho da imagem é o que menos importa” e citou a Caminhada com Maria, em que uma estátua pequena é acompanhada por uma multidão. “O que importa é a mensagem de contemplação a Nossa Senhora e de ação de transformar”, resume padre Ivan.

Estátua de padroeira no Montese

Em outubro, Santa Edwiges ganhou uma imagem enorme, mais alta do que aquela que está na igreja ao lado. Padre Manoel de Castro Ferreira, o pároco, afirma que não é contra a colocação da estátua no local, mas, como o projeto foi do poder público, ele não podia negar. “A idéia é da Prefeitura. Não é nossa, não. Por mim, eu nunca ia fazer. Mas a gente não vai dizer ‘não’. A praça é deles”, justifica padre Ferreirinha. Mas, de acordo com ele, a imagem chama a atenção de quem passa e pode fazer com que alguém que não conheça a santa se interesse por ela.

“Se algum corrupto olha para aquela imagem, ele pode se sentir tocado. Quanta gente vai ver o Cristo Redentor no Rio de Janeiro? Só acho que estão exagerando em criar tantas imagens. Multiplicar tantas assim… não sei”, diz ele, um tanto hesitante.

Daqui a alguma semanas, a próxima santa que ganhará estátua é Nossa Senhora Aparecida, em uma praça no Montese. A imagem, de 1,70 metro, ficará em cima de uma coluna de mais de 10 metros, em frente à igreja. Conforme o pároco do santuário, Gabriel Brilhante Holanda, a idéia é para marcar os 50 anos de existência da igreja. “O povo reza mais por causa das imagens. É uma lembrança, é como se fosse uma fotografia. É um incentivo a mais para a oração”, opina o padre.

Fonte: O Povo Online