Culto evangélico (Imagem: Canva Pro)
Culto evangélico (Imagem: Canva Pro)

Estudo analisa milhares de horas de áudios de cultos e missas para identificar interferências diretas no período eleitoral brasileiro

Um levantamento inédito realizado durante o primeiro turno das eleições deste ano monitorou mais de 13 mil horas de áudios provenientes de missas e cultos transmitidos pelo YouTube. A iniciativa, conduzida pelo grupo de pesquisa Passagens da UFRJ em parceria com a organização More in Common, buscou identificar a incidência de crimes eleitorais e menções políticas explícitas em ambientes religiosos.

O foco da análise recaiu sobre igrejas católicas, batistas e Assembleias de Deus, escolhidas pelo peso demográfico que possuem no país. Enquanto nas igrejas católicas a propaganda eleitoral foi identificada em 0,7% das celebrações e, entre os batistas, em 1,4%, o índice nas Assembleias de Deus atingiu 8,3%. Segundo a pesquisa, essa discrepância pode estar ligada à descentralização institucional da denominação e ao enraizamento de suas congregações em lógicas comunitárias locais.

A investigação revelou que, diferentemente do esperado pelo senso comum, o foco dos apoios políticos nos púlpitos não esteve concentrado na disputa presidencial. A maior parte das menções diretas foi direcionada a candidaturas para os cargos de deputado estadual e federal. A abordagem variou entre estratégias explícitas de panfletagem e orientações indiretas por parte de lideranças religiosas.

Em um caso registrado em Goiás, um pastor buscou contornar as vedações legais ao sugerir uma forma de adesão política. “Eu não posso pedir o voto, mas eu posso te orientar, tá bom? Então, se você de forma livre e espontânea, de livre, espontânea vontade, se você aceitar, eu vou colocar um adesivo no seu carro”.

O estudo também apontou que temas centrais da disputa nacional, como o embate em torno da imagem de Nossa Senhora Aparecida, tiveram presença residual nas cerca de 2.000 missas católicas acompanhadas. De acordo com os dados, o conteúdo mais relevante encontrado em todo o monitoramento foi o estímulo ao civismo e ao voto consciente, com uma frequência cinco vezes maior do que a observada em propagandas eleitorais.

Instituto questiona monitoramento de celebrações religiosas

O Instituto Brasileiro de Direito Religioso (IBDR) divulgou, em 14 de outubro, uma nota de repúdio ao monitoramento. A entidade afirmou estar preocupada com iniciativas que acompanham cultos e celebrações religiosas para identificar possíveis infrações eleitorais.

“O IBDR manifesta preocupação com iniciativas de monitoramento de cultos e celebrações religiosas durante o período eleitoral, reafirmando a importância da liberdade religiosa, da autonomia das organizações religiosas e da proteção constitucional ao livre exercício da fé”, afirmou.

Na manifestação, o instituto ressaltou a importância da liberdade religiosa, da autonomia das organizações religiosas e da proteção constitucional ao exercício da fé. Também argumentou que a simples menção a candidatos ou a temas políticos não caracteriza, por si só, crime eleitoral ou abuso de poder. Eventuais responsabilizações, segundo a entidade, precisam passar pelas autoridades competentes e respeitar o devido processo legal.

“A simples referência a candidatos ou a temas políticos, por si só, não equivale ao reconhecimento de crime ou abuso eleitoral; eventual responsabilização exige apuração pelas autoridades competentes, observância da legislação aplicável e respeito ao devido processo legal”, esclareceu.

O IBDR reconheceu que a pesquisa acadêmica deve ser respeitada, mas classificou o acompanhamento de cultos com a finalidade de identificar possíveis irregularidades como uma forma de fiscalização e constrangimento ilegal ao exercício religioso. A instituição também alertou que práticas invasivas destinadas a fiscalizar atos litúrgicos podem comprometer a liberdade de culto.

Debate envolve liberdade religiosa e regras eleitorais

O levantamento trouxe novamente ao debate a relação entre manifestações políticas e celebrações religiosas. De um lado, os pesquisadores procuraram mensurar a frequência de manifestações que consideraram propaganda eleitoral em cultos e missas. De outro, o IBDR questionou os critérios de classificação e os possíveis efeitos do monitoramento sobre a autonomia das igrejas.

Os resultados divulgados indicam que a propaganda eleitoral foi identificada em uma parcela minoritária das celebrações analisadas. No entanto, o estudo e as críticas à metodologia levantam discussões sobre os limites entre a pesquisa acadêmica, a fiscalização de possíveis irregularidades eleitorais e a proteção constitucional da liberdade religiosa

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