Ao meio-dia da próxima sexta-feira, esteja onde estiver, pare tudo e faça um minuto de silêncio pela paz. A proposta da Igreja Católica, anunciada ontem pelo cardeal-arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, dom Geraldo Majella Agnelo, é mais uma tentativa da sociedade civil para frear a violência que impera em Salvador.

Ontem, na abertura do fim de semana, mais um homicídio foi registrado, desta vez no Alto da Santa Cruz: traficantes vingaram-se de um pequeno comerciante que não aceitava vender fiado. Na Federação, em frente ao Cemitério do Campo Santo, na abordagem de policiais militares a um microônibus, uma arma foi levada à cabeça de um suspeito. Pânico às 16h. E não há expectativa de diminuição de crimes hoje e amanhã.

Um Dia pela Paz é o nome do projeto promovido pela Arquidiocese, que prevê também a participação dos soteropolitanos às 18h de 1o de agosto. No horário, todos devem acender velas nas janelas de casas, apartamentos, escritórios. “É uma reação. Queremos envolver todas as paróquias e capelanias, precisamos disseminar a cultura da paz”, afirma dom Geraldo. “Convidamos todas as igrejas, não só a Católica, para participar desse movimento”, completa. Representantes de outras religiões entenderam o recado, sem mesmo ter ouvido as palavras do cardeal. Para voltar a viver sem medo, do Bairro da Paz ao Engenho Velho da Federação, passando pelo Garcia e Mussurunga, a cruzada religiosa inclui missas, cultos, sessões. Tudo pela paz na cidade.

Católicos acenderão velas sexta-feira

Dom Geraldo Majella Agnello completa dez anos na Arquidiocese de Salvador no próximo ano. Ele não reconhece mais aquela cidade do 11 de março de 1999, quando tomou posse canônica por ordem do papa João Paulo II, na primeira sede do bispado no Brasil. “As pessoas não podem mais sair à noite, a população está muito inquieta”, observa. E continua: “Estamos vivendo hoje o que houve no Rio de Janeiro e ainda há. E nós, num galope intenso nessa direção”.

O projeto Um Dia pela Paz começa cedo. De acordo com a programação, alunos das escolas católicas da capital baiana, a exemplo dos colégios Antônio Vieira, Sacramentinas e Salesiano, vão cantar a Oração de São Francisco – “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio que eu leve o amor…” –, muito executada em missas. Ao meio-dia, um minuto de silêncio e às 18h, velas acesas.

“Temos que criar uma corrente de solidariedade. Fico bobo de ver no início da semana quando os jornais anunciam as estatísticas da violência no fim de semana”, diz. “É violência policial, nas estradas, tem de todo tipo, estamos matando mais do que numa guerra”.

A informática é aliada da Igreja na cruzada em busca da paz. A idéia é divulgar a iniciativa nos moldes do flash mob, movimento que promove reuniões-relâmpago por meio de recados enviados em sites de relacionamento na internet ou mensagens via aparelhos de telefonia móvel. “Todos são convidados a participar e a população também deve animar os amigos e parentes a entrar nesta atividade através do envio de mensagem no MSN, Orkut, celular e e-mail”, divulga em nota o assessor de comunicação da Pastoral, padre Manoel Filho.

Ao anunciar a manifestação pela paz, dom Geraldo afirma que a Igreja não está fechada. Segundo o cardeal, todos estão convidados a participar do movimento “com órgãos cristãos e não-cristãos”. “Não convidamos outras instituições devido à iminência, estamos vivendo uma situação de urgência e não houve tempo”, justifica.

Dom Geraldo, porém, lembra que existem, sim, outras medidas que podem aliviar a onda de violência. Segundo o cardeal, a lei seca – que torna mais rigorosa a punição a quem dirige alcoolizado – é “oportuna e justa”, além de “não prejudicar ninguém, só salvar”.

Criminalidade na Federação afeta terreiro

Sucessora de uma das maiores dinastias do candomblé de Salvador, Iracema de Melo ostenta o título de mãe-de-santo mais jovem do Brasil. O 185o aniversário da Independência do Brasil na Bahia, no último 2 de julho, foi também o dia em que se comemorou mais um ano de vida – o 40o – da mãe Índia, como é mais conhecida. Ela é a líder religiosa do Terreiro Zogodo Bogum Malê Rundo, o tradicional Terreiro do Bogum, no Engenho Velho da Federação, bairro pobre e que foi palco de uma grande chacina com três mortos e 12 feridos no último domingo, em mais uma ação do tráfico de drogas na região. “A cidade está abandonada, estão morrendo pessoas inocentes”, lamenta.

Vir ao mundo na mais importante data cívica estadual é uma alegria e uma honra para a neta sangüínea de Runhó, uma das personalidades do culto afro-brasileiro mais exaltadas no país e que possui até um busto no Engenho Velho. Mas os dias são de alguma tristeza para a garota que nasceu e cresceu no bairro e hoje, também precocemente, já é avó. Caíque, 6 anos, está sempre por perto. “Antigamente, a gente chegava tarde em casa, não tinha problema, mas hoje às 20h, 21h, já não tem mais um pé de gente aí nas ruas”.

Mãe Índia – apelido que ganhou ainda criança – está de branco e sente-se em casa no barracão onde acontecem os rituais, no terreno ao lado da sua casa. Mas a violência também alterou a rotina dos cultos afros, que costumavam começar nas últimas horas do dia e invadir a madrugada. “Agora não dá mais, a gente tem que começar bem cedo para terminar bem cedo também”, explica.

Escolhida como mãe-de-santo aos 33 anos, sabe que tem uma longa vida pela frente, com os seus filhos-de-santo sempre a procurá-la, o telefone não pára. Pensa em se mudar do bairro, mas porque quer apenas mudanças. A decisão, garante, não tem relação com os últimos acontecimentos no Engenho Velho da Federação. “Violência, infelizmente, tem em todos os lugares”, resigna-se. “Nós, do candomblé, somos da paz, nós passamos a paz”.

Culto evangélico e unção no Bairro da Paz

No Bairro da Paz, mais especificamente na Rua do Sossego, às 15h de ontem, começava um culto no interior da casa da família do adolescente Givaldo Santos Souza, 15 anos. O jovem morreu assassinado no último sábado, na chacina que aterrorizou os moradores do bairro. A família, inconsolável, pediu que o pastor Evandro Cardoso celebrasse uma espécie de missa de 7o dia, tradicional do catolicismo. Para confortá-los, ele realizou o culto no quarto do adolescente, mas disse que não rezaria por sua alma, que já não pertence a esse mundo, mas pelo bem-estar dos familiares. A mãe do jovem, Evani dos Santos, 46 anos, não recebeu a imprensa porque não quer mais falar sobre o assunto.

Na casa simples e recheada de amigos e vizinhos, a paz se instalou enquanto todos oravam pelos que moram no bairro. Viaturas do Batalhão de Choque circulavam no local enquanto o culto transcorria. Para o pastor Evandro, vestido de preto em sinal de luto, o culto serve como “bálsamo que descansa os ânimos e controla as vontades”. A idéia do pastor agora é aproximar a família de Givaldo da igreja. “A fé ameniza a situação. Afinal, a violência não vai acabar, pode apenas amenizar-se. Os homens estão cada vez mais desumanos, distantes de Deus”, disse ele, após o culto, que durou cerca de duas horas. Caminhando, o religioso seguiu em direção ao Templo do Espírito Santo, igreja batista fundada por ele há três anos e meio. “Recebi por intuição uma missão de trabalhar nesse bairro”.

A fórmula do pastor para conter a violência, certamente, é a religião. Como a unção que será jogada em forma de 230kg de sal amanhã, às 9h, nas ruas do bairro. Evandro coordenará uma caminhada, partindo do templo, na Rua Duque de Caxias, em direção à Praça das Decisões. Acompanhado da comunidade, ele atirará quilos de sal sobre os caminhos e as pessoas. “Todos precisam disso e de palavras de conforto”. Um exemplo foi o dia da morte de Givaldo, quando, durante o enterro, ele abraçou as mais fragilizadas personagens da história trágica, a mãe e a irmã, e recitou um trecho da Bíblia – “Não querendo que jamais sejas ignorante com os que morreram, e para jamais entristecer-te”.

Evandro diz que a fé em Deus pode, sim, salvar as pessoas. E que este é um caminho para se acabar com a violência. “Givaldo, por exemplo, se aproximou da igreja com meu apoio. Eu praticamente criei ele aqui, começou com 12 anos. Me ajudava em tudo”, diz orgulhoso. Até que, há cerca de três meses, ele se afastou. “Na sexta, eu entreguei a ele uma carta onde dizia que ele era uma jóia que tinha deixado de brilhar e o convidava a voltar ao culto. Íamos ter uma reunião no domingo e queria que ele voltasse”. Mas Givaldo não voltou. Na véspera, foi o dia em que foi alvo de disparos. “Acho que a distância da igreja tirou a proteção dele”.

Na avaliação do pastor, no Bairro da Paz, o que falta é atenção das autoridades. A conseqüência mais ingrata é a ausência de perspectivas para quem acaba se envolvendo com o tráfico de drogas por não visualizar outros rumos. Para ele, falta investimento nas áreas de educação, cultura e esporte. “Isso aqui está abandonado. São 75 mil pessoas morando num bairro que não tem escola de qualidade nem um bom posto de saúde. Esses jovens crescem achando que a vida se resume ao mundo em que vivem”.

Fonte: Aqui Salvador