Na terça-feira, o partido governante na Turquia escolheu um candidato à presidência de formação islâmica. A medida, pela primeira vez, estenderá o alcance da emergente classe de fiéis muçulmanos que o partido representa para o interior do establishment secular da Turquia.

A escolha preocupou os turcos seculares que temem que as liberdades possam eventualmente estar em risco.

A expectativa é a de que o chanceler Abdullah Gul, de 56 anos, cuja mulher defende o uso do véu muçulmano, seja confirmado pelo Parlamento como presidente nas várias rodadas de votação que começam na sexta-feira. Isso impulsionará a nova classe política da Turquia, formada por modernizadores com formação religiosa.

A Turquia é um país muçulmano, mas seu Estado, fundado em 1923 por Mustafá Kemal Ataturk, é estritamente laico. Se Gul for confirmado, seu partido ocupará os cargos de presidente, primeiro-ministro e presidente do Congresso.

No Oriente Médio, onde a junção de religião com governo tem sido vista como destrutiva para a modernidade, essa mistura muito branda na Turquia se destaca como incomum e mesmo única.

O partido que Gul ajudou a fundar, conhecido pelas siglas AK, deriva de movimentos políticos islâmicos da década de 90. Mas o AK se tornou mais moderado depois que assumiu o poder em 2002. Desde então, tem aplicado políticas pragmáticas que ajudaram a criar um surto de crescimento econômico e abriram o Estado de forma que a rígida elite secular, acostumada a depender fortemente do controle estatal, nunca tinha imaginado – em parte para habilitar o ingresso do país na União Européia.

Embora o partido defenda manter a religião separada da política, obtém muito de seu apoio da população conservador religioso da Turquia. Esses turcos tradicionais estão agora emergindo como uma poderosa classe média que vem empurrando o crescimento da Turquia. A economia quase dobrou nos quatro anos em que o AK está no poder, em grande parte porque o partido tem se mantido fiel ao programa econômico receitado pelo FMI.

A candidatura de Gul vai ao centro do debate secular-religioso porque a presidência é um símbolo muito reverenciado e com poderes reais – o presidente é comandante-chefe das Forças Armadas e tem direto a veto.

Fonte: Estadão