Válter Rabelo, 44 anos, conta que nasceu predestinado e que, num dia chuvoso de 2004, seu destino lhe foi revelado. Ele diz que Deus o levou a um lugar na Ilha de Itamaracá e mostrou um poço de “água milagrosa”. Segundo Rabelo, essa água curaria doenças espirituais e materiais.

O pastor comprou o terreno e construiu um templo.

Em janeiro, inaugurou o tanque e o poço. Folheto dado nas cinco unidades e duas congregações da Igreja Evangelho de Cristo, fundada por ele há 10 anos, diz que Rabelo tem o dom da cura. “Através de suas orações e da entrega da água, muitos foram curados para a Honra e Glória de Deus”, diz o texto.

Luzia Veríssimo, 38 anos, diz que bastou um pouco da água para se curar de uma crise de rins. Vânia de Barros afirma ter ficado curada de problema na tireóide. O dirigente da Igreja de Itamaracá, Jairo Joaquim, caiu durante a construção do templo, tomou a água e diz que a dor passou. Os testemunhos são inúmeros, segundo o pastor Valter Rabelo.

Ele compara o poder de cura da água de Itamaracá ao poder de cura das pílulas de Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro. “Não tem segredo, é fé.” Frisa que tudo que faz é de forma aberta e sem subterfúgios e que a água milagrosa e o poço e tanque de Siloé estão abertos inclusive à Vigilância Sanitária.

Porém, análise bacteriológica de uma amostra da água indicou a presença de Escherichia coli, de acordo com o laudo n. 861.00/2007, do Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen), feito a pedido do Estado. Isso significa que ela está contaminada por coliformes fecais e não é adequada.

“Beber uma água dessa é um risco”, assegurou o gerente-geral da Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária, Jaime Brito. Segundo ele, esta é a contaminação bacteriológica mais significativa e perigosa porque pode causar infecção intestinal, diarréia, desidratação, infecção renal e falência dos rins, dependendo da pessoa que a tomar. “Em vez de curar, esta água pode até matar”, advertiu.

A água milagrosa pode ser adquirida a R$ 10 dois litros. Ela vem em garrafas PET esterilizadas e estão à venda em Itamaracá e na igreja central. Os banhos, também a R$ 10, ocorrem no terceiro domingo de cada mês. O pagamento é para a manutenção das igrejas e das missões.

O pastor tem uma consultoria na área jurídica, de onde tira o sustento da família – envolvida no trabalho evangélico. Oferendas, segundo ele, se destinam exclusivamente ao funcionamento dos templos. “Eu pago para trabalhar na igreja”, afirma.“Esta não é uma igreja de alienados” e “Não faço da igreja comércio” foram outras de suas afirmações ao Estado. De família de políticos, Rabelo já foi subprefeito de Jaboatão dos Guararapes, onde nasceu, e na última eleição foi candidato derrotado a deputado estadual. “Mas nunca fiz do púlpito palanque político”, diz.

Fonte: Estadão