As famílias já não estão mais se reunindo para festejar o Natal. Os locais públicos como hotéis e restaurantes, por exemplo, estão sendo muito procurados na data. E, um dos motivos, é justamente ter que reunir a “família”.

“Todo mundo que tem família sabe que não é fácil conviver. Não se pode ser hipócrita”. Para Antonio Luis Fernandes, que além de padre é psicólogo e filósofo, a grande questão não é simplesmente “não querer passar o Natal com a família”, é que muitos pensam que, “como minha família não é perfeita”, então não vale a pena reunir e investir nela.

Para ele, não é só a família que está perdendo o sentido, mas qualquer coisa que dê disciplina como a religião, escola, o próprio Estado como política. O problema, de acordo com ele é que a família entra no campo da moralidade. “Abrir mão da família como vínculo e como laço, se cria uma desorientação moral. Ou seja, deixa de haver valores. Como a família se parece com o Estado em muitas situações (tudo pode, tudo é corrompível), aí não se tem mais para onde ir”. Ele quis dizer que, quando a família perde os seus valores, começa autorizar que seus membros se pareçam com o que é externo, como o Estado, o bandido, entre outros. “É aí que está a grande crise da família porque, do ponto de vista social, está tudo em crise”. Mas, do ponto de vista da moralidade, para ele, a família é fundamental, até mais do que a própria religião.

Tradição perdida

“Quando se tem uma tradição e essa tradição é rompida bruscamente, é estreada uma situação que não se sabe como vai ser e, eu acho que estamos nessa fase. Rompeu-se a tradição e não sabemos o que deve acontecer a partir de agora. Aí, é claro, entra a sociedade capitalista que temos vivido”. Ele remeteu novamente ao fato de as famílias não se reunirem mais no dia de Natal para passar a data em um restaurante, por exemplo.
“Vou abrir o meu estabelecimento porque é uma oportunidade que tenho para ganhar um dinheirinho extra”. É desta forma que alguns comerciantes pensam, na opinião dele, porque sabe-se que existem clientes que não têm para onde ir. É a famosa “visão de mercado”.

Os exageros

Questionados sobre os exageros, o padre afirmou que, além do excesso com o álcool, mais grave ainda é com a comida. “Se pensarmos que toda aquela comida preparada para a ceia não será inteiramente consumida e vai se perder, em um País onde há 56 millhões de pessoas passando fome, trata-se de um pecado social grave”.

Além disso, ele citou os sentimentos mascarados. Um exemplo é quando alguém da família diz: “Come esse peru porque fui eu que fiz”. Mas a outra pessoa não gosta de peru, entretanto, precisa provar só para dizer “que está uma delícia”. Caso contrário, foi feita uma ‘desfeita’. Para o padre, essas atitudes matam qualquer espírito natalino. “Se vê que está todo mundo disputando afeto, carinhos e elogios”. Ele ainda disse que muitas pessoas chegam a dizer para ele que está mal porque ninguém viu que aquela pessoa estava com uma roupa nova. “Aí voltamos a falar sobre a insatisfação nessa época. As pessoas compram roupas novas para que os outros a reparem e não simplesmente por uma necessidade. Isso é muito ruim porque é esse o truque do capitalismo. Ele faz as pessoas gastarem muito, com a esperança de que haverá elogios e, se não houver, gasta-se mais”. Essa é uma ciranda capitalista: quanto mais se consome, mais se produz; quanto mais se produz, mais riqueza se tem e a grande ilusão é essa. “Pode reparar que essas pessoas não compraram um livro durante o ano ou um filme, por exemplo, para ver com a família. Isso se chama aparências”.

A história

Por que a vida familiar está tão descuidada? Na opinião dele, em algum momento, foi formada uma geração que não se apegou à família. Ele lembrou a história e citou a década de 50 e 60, quando as famílias tinham uma estrutura muito fechada e pesada. Em seguida, surgiu o rock’n rol e os métodos anticoncepcionais, além dos movimentos políticos de esquerda. Diante de toda essa revolução, o padre disse que a família passou a ser vilã na sociedade. “Até então, a Igreja se representava na família”.

De acordo com ele, a partir daí se entende por que o islamismo fundamentalista é perigoso. “Porque dentro da família se repete a figura de autoridade da Igreja ou da religião”.

O caminho

Nesse ponto, como um pensador da sociedade, Antônio Luis Fernandes, disse que é preciso desmitificar a noção que existe uma solução padrão para tudo. “Não tem”.

Muitos dizem que a religião resolve. Ele acredita que resolve em alguns casos, para muitas pessoas e em muitos lugares, mas não para tudo e para todos. “Quando dizem que a Educação é a saída. Na minha opinião é em alguns casos, porque se pensarmos que existem cidades, em que ainda a Educação é privilégio, levará mais ou menos uns 30 anos para a Educação ser a solução, por exemplo”. Segundo ele, é cômodo achar que há solução padrão.

Então, se não tem solução padrão, há solução no micro. Mas, o que é o micro? De acordo com ele, tem que se pensar é preciso criar uma postura humana em um grupo diferente, que pode fecundar e divulgar os valores que se perderam. “Na própria comunidade religiosa é possível conseguir trabalhar isso”. Para ele, em algum momento os grupos podem aparecer como solução, mas não que dê para envolver todo mundo.

A solução seria ter mais Deus no coração? O padre responde com uma outra questão: “O que as pessoas entendem por Deus?”. (RR)

Fonte: Gazeta de Limeira