Durante um encontro on-line na Índia, especialista em IA defendeu o uso responsável da tecnologia no ministério cristão e destacou que oração, estudo bíblico, discernimento espiritual e cuidado pastoral não podem ser delegados às máquinas.
Pastores podem utilizar a inteligência artificial (IA) como ferramenta de apoio na preparação de sermões e estudos bíblicos, mas precisam assumir a responsabilidade por tudo o que ensinam às congregações. O alerta foi feito por um especialista indiano em inteligência artificial durante um seminário on-line promovido pela Comissão Teológica da Fraternidade Evangélica da Índia.
O encontro, realizado em 16 de outubro, teve como tema “Inteligência Artificial, Dignidade Humana e o Futuro da Igreja”. Na apresentação intitulada “Inteligência Artificial: seu impacto e uso na pesquisa”, o especialista, que atua com IA no setor corporativo, explicou como a tecnologia pode contribuir para o trabalho das igrejas e apontou os riscos de utilizá-la sem critérios.
Segundo ele, ferramentas de inteligência artificial generativa podem ajudar na elaboração de esboços de mensagens, na criação de materiais para estudos bíblicos, na tradução de conteúdos e em tarefas administrativas. No entanto, a tecnologia não deve substituir a oração, a leitura das Escrituras, a reflexão teológica ou o relacionamento entre líderes e fiéis.
“A inteligência artificial não pode orar por nós”, afirmou o especialista, ressaltando que os pastores não devem atribuir à ferramenta a responsabilidade pelas mensagens que pregam.
Pastores precisam assumir a responsabilidade pelos sermões
Durante a apresentação, o especialista destacou que a IA pode auxiliar na organização de ideias e na preparação de materiais, mas não deve ocupar o lugar do pregador na interpretação bíblica.
Ele recomendou que os pastores informem à ferramenta qual passagem será estudada, quem é o público, qual é o objetivo da mensagem e em que contexto ela será apresentada. Também sugeriu pedir que a IA sinalize aplicações que ultrapassem o que está expresso no texto bíblico.
Para ele, o conteúdo das Escrituras deve orientar a mensagem, e não ser adaptado simplesmente para corresponder às respostas produzidas pela tecnologia.
O especialista também lembrou que modelos de linguagem geram respostas com base em padrões aprendidos durante o treinamento. Embora os resultados possam parecer semelhantes aos produzidos por uma pessoa, isso não significa que a ferramenta tenha compreensão humana ou discernimento espiritual.
Entre as atividades em que a IA pode ajudar estão a elaboração de roteiros de sermões, a sugestão de ilustrações, a identificação de referências bíblicas relacionadas, a produção de devocionais e materiais de educação cristã, além da organização de reuniões e do planejamento de eventos.
Quatro riscos que as igrejas precisam considerar
O especialista apresentou quatro riscos que, em sua avaliação, exigem atenção das comunidades cristãs.
1. Informações falsas apresentadas como verdadeiras
Ferramentas de IA podem inventar citações bíblicas, referências bibliográficas e fontes inexistentes. Esse fenômeno, conhecido como “alucinação” da inteligência artificial, exige que pastores e pesquisadores confiram cuidadosamente as informações antes de utilizá-las.
2. Plágio e interpretações tendenciosas
O uso da tecnologia pode levar à reprodução de conteúdos sem a devida atribuição de autoria ou à apresentação de interpretações unilaterais. Por isso, o especialista defendeu a identificação das fontes e a comparação entre diferentes perspectivas, especialmente quando o material será publicado.
3. Falsificação de identidade
A IA pode ser usada para imitar pessoas e criar imagens, áudios ou vídeos falsos que parecem autênticos. O especialista recomendou verificar a origem das informações antes de compartilhá-las.
4. Perda de confiança e de contato humano
Outro risco é que os membros das igrejas passem a perceber os sermões como produções automáticas e o cuidado pastoral como algo superficial. Para o especialista, a tecnologia não deve enfraquecer a presença dos líderes nem o relacionamento pessoal com a congregação.
Dados pastorais e informações pessoais devem ser protegidos
O especialista também alertou contra o compartilhamento de informações pessoais em ferramentas públicas de inteligência artificial.
Entre os dados que não devem ser inseridos nesses sistemas estão relatos confidenciais de aconselhamento pastoral, registros de membros da igreja, informações financeiras e de saúde, além de histórias que permitam identificar pessoas.
Ele também recomendou cautela com dados de crianças e adolescentes e com pesquisas ainda não publicadas.
A preocupação, segundo a apresentação, é que informações inseridas em sistemas públicos possam ser expostas ou reaparecer em respostas geradas posteriormente. Por isso, líderes e pesquisadores devem avaliar os riscos antes de fornecer qualquer conteúdo sensível.
“Precisamos começar pela passagem bíblica, não pelo comando”
Ao abordar a pesquisa teológica, o especialista defendeu que o estudo comece pela leitura das Escrituras em seu contexto, e não por uma pergunta feita à inteligência artificial.
A proposta apresentada segue algumas etapas: ler toda a passagem, observar palavras repetidas, contrastes e mandamentos, definir a questão interpretativa e, só então, utilizar a IA para explorar possíveis interpretações e localizar fontes que possam ser verificadas.
O resultado deve ser conferido com o próprio texto bíblico, ferramentas de estudo das línguas originais, comentários e pesquisas acadêmicas confiáveis.
O especialista citou plataformas de estudo bíblico como Logos, Accordance, STEP Bible e Bible Gateway, além de dicionários, concordâncias e comentários teológicos.
Ele também alertou que referências bibliográficas sugeridas pela IA precisam ser verificadas para confirmar se os autores e as obras realmente existem. Em estudos de palavras hebraicas e gregas, recomendou consultar léxicos especializados antes de confiar na análise produzida pela ferramenta.
“A leitura em oração e a interpretação responsável continuam sendo responsabilidades humanas”, destacou.
Traduções feitas por IA precisam de revisão
A inteligência artificial também pode facilitar a tradução de materiais cristãos para idiomas locais, ampliando o acesso a conteúdos bíblicos. No entanto, o especialista ressaltou que traduções produzidas pela tecnologia devem ser revisadas por alguém que domine o idioma.
Isso porque expressões culturais, nuances linguísticas e sentidos específicos podem não ser reproduzidos corretamente pela ferramenta.
Antes de publicar um conteúdo elaborado com auxílio da IA, ele propôs avaliar cinco aspectos: verdade, amor, sabedoria, responsabilidade no uso dos recursos e prestação de contas.
A revisão deve verificar a exatidão das informações, a fidelidade das citações bíblicas e o respeito aos direitos autorais, à privacidade e à dignidade das pessoas.
O especialista também enfatizou que deve existir uma pessoa responsável por aprovar o material final.
Inteligência artificial pode ajudar igrejas a alcançar os jovens
Apesar das advertências, o especialista não defendeu a rejeição da tecnologia. Ele afirmou que a IA pode ajudar as igrejas a se comunicar com as novas gerações, especialmente os jovens da chamada Geração Z.
Como exemplo, relatou que utilizou a ferramenta para buscar formas de apresentar Jesus a pessoas de 20 a 25 anos mais jovens do que ele. Segundo seu relato, as sugestões trouxeram ideias que ainda não havia considerado, e um ouvinte posteriormente comentou que se lembrava especialmente daquela parte da mensagem.
O especialista também mostrou um exemplo de solicitação para produzir uma apresentação de Jesus direcionada a jovens indianos. Na avaliação dele, muitos jovens procuram autenticidade e uma conexão genuína, e não apenas uma instituição religiosa ou uma figura de celebridade.
Ainda assim, ele ressaltou que os resultados da IA precisam ser avaliados antes de serem utilizados. Ao encerrar sua apresentação, recorreu ao princípio bíblico de examinar todas as coisas e reter o que é bom.
“Se você não verificou, não use”, advertiu.
Líderes cristãos defendem diretrizes para o uso da tecnologia
O seminário também abordou os desafios da inteligência artificial na formação teológica. Samuel Richmond, responsável pela Comissão Teológica da Fraternidade Evangélica da Índia e moderador do encontro, informou que o Instituto Caleb está preparando orientações para o uso da IA.
Segundo Richmond, estudantes podem recorrer à tecnologia para preparar sermões e escrever trabalhos acadêmicos, o que torna mais difícil avaliar a autoria e a autenticidade das produções.
Ele também observou que instituições de formação teológica ainda precisam desenvolver abordagens mais consistentes sobre uma perspectiva cristã da tecnologia.
O secretário-geral da Fraternidade Evangélica da Índia, Vijayesh Lal, encerrou o encontro destacando que o ministério cristão depende do relacionamento das pessoas com Deus e umas com as outras.
Na avaliação de Lal, a inteligência artificial pode auxiliar o trabalho ministerial, mas não consegue assumir o chamado, o amor, a responsabilidade ou a formação espiritual que fazem parte desse serviço.
A mensagem central do encontro foi que a tecnologia pode ser útil à igreja, desde que permaneça como ferramenta de apoio. A responsabilidade pela interpretação bíblica, pela pregação e pelo cuidado com as pessoas deve continuar nas mãos dos próprios líderes cristãos.
Folha Gospel com informações de Christian Daily International.







