Adormecida desde o final da década de 90, uma polêmica religiosa ressurgiu esta semana para os católicos de Santo Ângelo, nas Missões. Tudo porque cogitou-se a retomada de pinturas artísticas do interior da Catedral Angelopolitana, um trabalho interrompido em 1993.

A obra de arte semi-acabada do artista santo-angelense Tadeu Martins exibia índios seminus no altar e contrariou parte dos fiéis. Na imagem, os guaranis estavam sendo apresentados ao crucifixo por padres jesuítas, numa alusão à história das Missões. Martins nem pôde continuar seu projeto, de pincelar também o teto da igreja.

Agora, com a catedral em restauração, renasceu a idéia de embelezá-la novamente. A única proposta apresentada até agora é do próprio Martins, que deseja terminar seu painel e desenhar no teto a imagem de crianças guaranis, do papa Bento XVI e do anjo da guarda, símbolo da catedral.

Ele alega ter atendido a um pedido da igreja, que, por sua vez, nega. Até uma reunião já foi realizada entre o artista e representantes da paróquia, embora os religiosos evitem o assunto.

Martins ressalta não ter sido explicado até hoje sobre a rejeição a sua obra na época. Mas pretende superar a crise do passado e seguir seu trabalho, se for aceito pelos católicos.

“Seria a única igreja do mundo a pintar a história de seu próprio povo”, defende o artista, que não tem a intenção de fazer uma obra sacra tradicional.

O coordenador da paróquia, Leo Schneiders, afirma que a pintura nem entrou em pauta ainda. Em viagem durante a semana, ele teve de antecipar sua volta a Santo Ângelo para tratar da questão. Na próxima semana quer se reunir com o bispo e o artista para esclarecer o assunto.

“A igreja não pediu nenhum projeto de pintura, nem há verba para isso. Claro que pretendemos pintar, mas quem vai decidir é uma equipe da igreja, formada por pessoas especializadas em arte sacra”, explica Schneiders.

A década de 90 não traz boas recordações para o artista nem para os religiosos. Martins recorda que o ambiente havia ficado tão pesado que não teve condições de seguir o trabalho. Uma cortina passou a cobrir o painel durante as missas.
Fora essas ocasiões, o pano era retirado para que a imagem da catequização dos índios pudesse ser admirada. Hoje bispo emérito, dom Estanislau Kreutz era quem comandava a diocese na época. Ele nem gosta de lembrar do caso.

“Estamos encaminhando a questão de forma que não surja polêmica. Não é bom evocar o que é do passado”, comenta Kreutz, confessando que foi difícil administrar as opiniões contrárias na ocasião.

Fonte: G1