O sociólogo Bernardo Barranco é especialista em estudo das religiões e escreveu artigo sobre ascensão de Bolsonaro Foto: Divulgação

A campanha de Jair Bolsonaro (PSL) tem gerado comparações com outros líderes que venceram as eleições em seus países apostando em um discurso duro inclinado à direita, como Donald Trump , nos Estados Unidos, e Rodrigo Duterte , nas Filipinas. Para o sociólogo mexicano Bernardo Barranco , no entanto, a corrida de Bolsonaro à Presidência guarda semelhanças com um político de esquerda: Andrés Manuel López Obrador , que foi eleito esse ano e assume a Presidência do México em dezembro.

Para Barranco, especialista no estudo de religiões, ambos apostam em uma espécie de “messianismo político-religioso”, têm atitudes nacionalistas, fazem discursos contra a violência, aproveitam a crise econômica para prometer asteuridade e souberam se aproximar de lideranças evangélicas para angariar mais votos. Ainda segundo o sociólogo, ambos vão enfrentar desafios parecidos: terão que construir consenso entre os diferentes grupos, abandonar os discursos radicais da campanha e saber fazer acenos de tolerância.

As semelhanças entre os dois países vêm à tona com o alcance das notícias no exterior sobre as eleições do Brasil. Barranco tem escrito sobre o tema em artigos em jornais mexicanos e, nesta semana, abriu com essa discussão seu programa “Sacro e Profano”, transmitido no Canal Once no México. Em conversa por telefone com o GLOBO, Barranco fala do peso do eleitorado evangélico no Brasil e no México. Confira abaixo a entrevista:

O senhor escreveu um artigo comparando a vitória de López Obrador no México com o avanço de Bolsonaro no Brasil. Em que foram parecidos?

Há uma atitude politicamente pragmática em ambos. Obrador é liberal de esquerda, defende um Estado não autoritário, de tolerância, e Bolsonaro é de direita, com alguns discursos de teor fascista, mas os dois perceberam o peso eleitoral dos evangélicos e lançaram movimentos políticos de aproximação. Há traços comuns, de atitudes populistas e apelo à grandiosidade da nacionalidade. Entre ambos, há uma espécie de “messianismo político religioso”. Claro que são contextos diferentes. Os evangélicos no Brasil levam mais de uma década transformando-se em uma força política real. No México, estão começando a ter maior presença. Obrador viu isso e sua estratégia foi abrir um leque muito amplo de gente de esquerda, esquerda secular, laicista, minorias, como grupos de homossexuais e mulheres, e até grupos conservadores integristas, como os evangélicos. O objetivo era fundamentalmente pragmático, assegurar votos, mesmo que fossem de pequenos grupos.

De que forma Bolsonaro aproveita o apoio da igreja evangélica para angariar votos?

Vejo em Bolsonaro uma postura que vai além do pragmatismo, e que também existe no México, que é uma aliança de políticos integristas. Umberto Eco já definiu o integrismo como posição religiosa e política que persegue fazer de certos princípios religiosos um modelo de vida política e fonte das leis do Estado. É um problema. No México, também se dá com os católicos integristas, que se aliam com evangélicos fundamentalistas para enfrentar políticas públicas sobre casamento homossexual, por exemplo. São alianças que vão além das diferenças religiosas e que se resumem mais em incidir em políticas de temas morais e éticos em que se sentem agravados. Aí Bolsonaro vai muito mais longe do que Obrador. Ele assume como próprios temas como família, aborto, a questão dos homossexuais, das minorias. Obrador era mais ambíguo, e hoje seu partido, Morena, tem uma proposta para despenalizar o aborto. Já Bolsonaro representa um integrismo fascista militar que está ligado ao integrismo religioso dos movimentos pentecostais e neopentecostais.

Em seus artigos, o senhor fala em “instrumentalização da fé” no Brasil…

Essa expressão vem de um comunicado de igrejas históricas evangélico-protestantes do Brasil. O documento é recente e foi assinado por várias igrejas e teólogos que apontam uma deslealdade religiosa por parte desses grupos neopentescostais porque utilizam a fé de maneira errônea. Eles manipulam a palavra de Deus para fundamentar posturas duras ou políticas na atual conjuntura. Quando se fala em instrumentalizar a fé, se refere a utilizar politicamente o discurso religioso para induzir o eleitorado a tomar posições de conveniência para as grandes hierarquias da igreja. É uma utilização da Bíblia, da palavra de Deus, do sentimento religioso em favor de uma postura política de imposição. E muitos desses grupos têm sido inconsistentes. A igreja do (bispo Edir) Macedo esteve com Collor, depois com (Fernando Henrique) Cardoso contra Lula, depois fez uma aliança política com o PT e Lula, que agora desconhece, e adota uma postura radical. Assim como os candidatos seculares têm uma postura pragmática frente aos religiosos, os religiosos e as igrejas têm uma postura pragmática frente ao poder. Eles se usam mutuamente. Acontece no Brasil e em toda a América Latina.

Esse avanço explicaria o novo comportamento dos eleitores e o atual cenário político no Brasil?

De fora, o que vejo no Brasil é que há um processo de incubação que leva anos, de uma presença política evangélica que tem sido sentida pelos diferentes atores no Brasil e que, em nome de uma tolerância religiosa, essas minorias adquirem um peso eleitoral muito importante. Se cinco milhões de pessoas da Igreja Universal do Reino de Deus votam em uma mesma direção, é um peso real, que pode definir uma eleição. Essa incubação de uma presença política encontra nessa eleição uma espécie de desnudamento. Se anteriormente os grupos evangélicos apostavam no candidato mais bem posicionado no poder para daí encontrar certos privilégios, com Bolsonaro é a primeira vez que encontram não só um detonante do poder, mas também um aliado estratégico em matéria moral, de princípios, e isso faz a diferença. Em outros tempos, eles não coincidiram com Lula nem com o PT em certos preceitos. Agora existe uma implicação mais orgânica da Igreja com a direita. Se desvelaram as verdadeiras posturas ideológicas, políticas, culturais, éticas, das igrejas. E esse desnudamento permite observar o tipo de sociedade fechada e autoritária que emerge com os votos em Bolsonaro.

Que efeitos tem o crescimento do poder das igrejas evangélicas para além da religião?

O ascenso dos evangélicos é fruto, em certa medida, do abandono da Igreja católica em relação aos setores mais pobres. Em muitas partes da América Latina, em decorrência de um processo de modernização, as cidades receberam muitas pessoas do mundo rural, que ali encontraram um lugar hostil a suas crenças. E essas pessoas encontraram nessas igrejas um apoio, um espaço de inclusão, porque a sociedade os excluiu. A Igreja católica acabou por impor bispos conservadores, uma visão mais de elite, europeia, e a Igreja católica foi se debilitando. Hoje, no Brasil, a projeção de crescimento de pentecostais e evangélicos é que serão uma primeira minoria daqui a 20 anos. São igrejas empresariais ou empresas religiosas? Macedo é um dos homens mais ricos do Brasil graças a essa visão pragmática e capitalista que muitas dessas igrejas têm tido.

Até que ponto existe uma divisão real entre Igreja e Estado no tocante ao poder político?

Temos parte de herança, das marcas culturais de colônia. No México, a Conquista se deu com milhões de mortes, acompanhadas por religiões e fundamentadas em princípios religiosos. A igreja, com sua força cultural e simbólica, sempre teve peso. Mas, sobretudo nos processos eleitorais, e na política real, a Igreja católica está impedida de participar. O Direito Canônico proíbe religiosos de disputar eleições e exercer cargos públicos. Mas isso não os limitou totalmente, porque a Igreja católica continua participando como grupo de pressão, de poder fático, que incide nos mais altos níveis de esfera de poder na América Latina, embora não formalmente. As igrejas evangélicas não têm essa atadura. Um pastor pode também ser ministro, deputado, candidato… E isso dá outra postura ao peso político, que é mais forte, se dá nas sombras do poder. A partir dessa conquista do espaço de poder, das estruturas do Estado, podem impor seus valores sobre família, religião, homossexuais etc. E criam paradoxos. Essas igrejas que são minorias se incorporam ao poder, e o primeiro combate que travam é contra outras minorias.

De que maneira o fato de que Obrador e Bolsonaro tenham se apresentado como candidatos “antissistema” os ajudou? É uma tendência mundial?

É um discurso ambíguo. No caso de Bolsonaro, seria difícil pensar que é um outsider, se durante maior parte da vida foi deputado. Ou como Obrador, que acumula três candidaturas à Presidência e longa vida política. Até Trump, que não estava dentro do aparato político, estava próximo, através de suas empresas e núcleos de poder e decisão. Para mim, o Brasil era uma espécie de paraíso de tolerância, onde as adversidades não se convertiam em redutos contundentes, mas em oportunidades de diálogo. É difícil entender o que aconteceu. Há que se pensar que Bolsonaro não só é um voto anticlima contra o PT como contra toda uma classe política que não cumpriu as expectativas. Mas é difícil entender como os brasileiros têm apostado por posturas tão fechadas e retrógradas.

Vê diferenças nos desafios que possam enfrentar quando Obrador assumir em dezembro, e em um eventual governo Bolsonaro?

Os desafios podem ser parecidos. Um deles é o de tentar construir um projeto de consenso entre diferentes grupos. Nesse caso, Bolsonaro tem apoios diferentes da burguesia, dos empresários e das pessoas de recursos escassos, através dos grupos pentecostais. Mas os intelectuais, os pensadores, a classe média, têm grandes dúvidas. O Brasil é tão grande, que a oposição pode ser também. E a construção de um consenso deve obrigá-los a fazer concessões. Não pode ser na base da imposição. Uma coisa é o discurso eleitoral de exaltação, e outra é quando se enfrenta uma rotina real. Há limites legais, não se pode entrar de maneira pura e dura. Obrador já fez alguns acenos. Bolsonaro parece ser mais duro, com posturas mais próximas a Trump. Se ganhar, terá também que responder de maneira rápida contra a violência e insegurança. É outro problema grave no México. É preciso ser efetivo em uma política de apaziguamento e de outorgar aos cidadãos certa estabilidade para se desenvolverem. Outro desafio é o econômico. Em um contexto em que ambos os países têm crescido de maneira medíocre, a população espera melhores resultados. Não é um momento fácil.

Fonte: O Globo (Elisa Martins)