Igreja vazia nos EUA. (Foto: canva Pro)
Igreja vazia nos EUA. (Foto: canva Pro)

Especialista citado pelo Christian Post afirma que os dados apontam uma redução gradual, e não uma onda de encerramentos.

Uma previsão de que aproximadamente 100 mil igrejas nos Estados Unidos poderão fechar ou ter seus prédios destinados a outras finalidades nos próximos dez anos provocou um debate sobre o futuro do cristianismo no país. A estimativa foi apresentada em uma reportagem da CNN, publicada em outubro, que descreveu o cenário como um possível “tsunami” de encerramentos. Entretanto, um artigo publicado pelo Christian Post questiona a dimensão dessa projeção e afirma que os dados disponíveis não indicam uma onda de fechamentos na proporção anunciada.

Assinado por John Stonestreet e Timothy Padgett, o artigo do Christian Post argumenta que existe um processo de declínio e transformação das igrejas americanas, mas que ele ocorre de maneira gradual. Os autores recorrem a dados apresentados por Ed Stetzer, reitor do Talbot Seminary, que contestou a interpretação dos números utilizados na reportagem da CNN.

Segundo Stetzer, não há evidências de que os Estados Unidos estejam perdendo 10 mil igrejas por ano. Em 2024, aproximadamente 4 mil igrejas protestantes fecharam, enquanto outras 3,8 mil foram abertas. A diferença representa uma redução líquida de cerca de 200 congregações naquele ano.

Os autores também observam que a inclusão das igrejas católicas nos cálculos não sustenta a estimativa de 10 mil encerramentos anuais.

CNN retrata igrejas com queda de frequência e dificuldades financeiras

Na reportagem publicada em 1º de outubro, o jornalista John Blake, da CNN, apresentou o caso de uma igreja metodista unida em Belding, no estado de Michigan, que encerrou suas atividades em 2024, após 120 anos de existência.

A congregação, que já havia recebido aproximadamente mil pessoas, chegou ao momento do fechamento com apenas 12 integrantes idosos. A pastora Melissa Wagner comunicou aos fiéis que a igreja deixaria de funcionar naquele endereço, mas ressaltou que a comunidade religiosa continuaria existindo, mesmo com a mudança do local de culto.

A CNN informou que especialistas projetavam o fechamento ou a transformação de aproximadamente 100 mil edifícios religiosos nos Estados Unidos ao longo da década seguinte. A reportagem relacionou esse cenário à redução da frequência aos cultos, às dificuldades financeiras, às divisões políticas, a escândalos religiosos e às mudanças culturais.

O texto também destacou que menos de um terço dos americanos frequenta igrejas semanalmente, enquanto, há cerca de 75 anos, aproximadamente metade da população participava regularmente de atividades religiosas.

Fechamento de prédios não significa necessariamente desaparecimento de igrejas

Um dos principais questionamentos apresentados pelo Christian Post diz respeito à diferença entre o encerramento de uma congregação e a venda ou reutilização de um edifício religioso.

De acordo com os autores, a estimativa de 100 mil fechamentos mencionada pela CNN se refere a prédios que poderão ser vendidos ou destinados a outras finalidades, e não necessariamente a comunidades religiosas que deixarão de existir.

Uma igreja pode mudar de endereço sem encerrar suas atividades. Além disso, parte das alterações nos números de frequência pode ocorrer porque fiéis deixam uma congregação e passam a frequentar outra, sem necessariamente abandonar a vida religiosa.

O artigo também ressalta que os levantamentos podem não contemplar adequadamente o crescimento de igrejas que funcionam em vários locais e de pequenas congregações independentes, muitas delas instaladas em espaços comerciais.

Dessa forma, os autores consideram inadequado interpretar todos os prédios fechados ou vendidos como igrejas que desapareceram.

Estudo identifica aumento recente na frequência presencial

Apesar das dificuldades apontadas pela CNN, a própria reportagem apresenta sinais que indicam uma possível estabilização da queda na participação religiosa.

Um estudo recente do Hartford Institute for Religion Research identificou, pela primeira vez em 25 anos, um aumento no número de pessoas que participam presencialmente dos cultos nos Estados Unidos.

A pesquisa também apontou crescimento na contribuição financeira dos frequentadores e na participação voluntária nas atividades das congregações.

O levantamento, entretanto, não indica um retorno aos níveis de participação registrados em meados do século 20, quando quase metade dos americanos frequentava regularmente uma igreja, sinagoga ou mesquita.

A CNN também informou que aproximadamente 62% dos adultos americanos se identificavam como cristãos, enquanto cerca de 30% da população, o equivalente a aproximadamente 100 milhões de pessoas, ainda participava semanalmente de atividades religiosas.

Igrejas que conseguem crescer também aparecem na reportagem

A reportagem da CNN não apresentou apenas exemplos de congregações em declínio. O texto também destacou comunidades que conseguiram ampliar sua atuação por meio de adaptações e do uso da tecnologia.

Entre os exemplos está a Korean Central Presbyterian Church, na Virgínia do Norte, descrita como uma igreja de imigrantes que mantém crescimento.

Outro caso citado foi o da Alfred Street Baptist Church, localizada em Alexandria, na Virgínia. A congregação possui aproximadamente 10 mil membros e ampliou sua presença ao atrair pessoas de fora de sua comunidade tradicional.

Além dos participantes presenciais, cerca de 15 mil pessoas acompanham suas atividades pela internet. Para Martin Doblmeier, produtor da série documental Christianity at a Crossroads, esse modelo representa uma transformação na maneira de organizar a vida religiosa, com a presença digital assumindo papel central.

A série, produzida pela Journey Films e exibida em emissoras da PBS, aborda os desafios enfrentados pelas igrejas americanas, incluindo o encerramento de congregações e iniciativas que conseguiram se adaptar às mudanças.

Debate sobre o papel social das igrejas

Outro ponto abordado pela CNN é o impacto que o fechamento de igrejas pode provocar nas comunidades. A reportagem destaca que essas instituições não atuam apenas na realização de cultos, mas também oferecem serviços sociais, apoio a pessoas vulneráveis e espaços de convivência.

A pastora Jacqueline J. Lewis, da Middle Church, em Nova York, afirmou que, em muitos bairros, as igrejas funcionam como pontos de distribuição de alimentos e acolhimento de imigrantes.

A produção documental também apresenta estudos segundo os quais pessoas que frequentam regularmente igrejas tendem a fazer mais doações beneficentes, participar de atividades políticas e integrar organizações comunitárias.

O artigo do Christian Post, por sua vez, critica a abordagem que avalia a sobrevivência das igrejas principalmente pela capacidade de oferecer serviços sociais, atrair público ou acompanhar mudanças culturais.

Para Stonestreet e Padgett, a identidade da Igreja não pode ser reduzida a essas funções. Os autores defendem que sua essência está na reunião do povo de Deus, na proclamação da Palavra, na prática dos sacramentos e na formação dos fiéis.

Eles também questionam a ideia de que as igrejas precisam modificar suas doutrinas para acompanhar as tendências culturais e atrair as gerações mais jovens. Na avaliação dos articulistas, congregações que passam a tratar a fé principalmente como uma questão de conexão social e estratégia de divulgação podem perder de vista sua finalidade espiritual.

Autores afirmam que declínio não significa fim do cristianismo

Ao concluir o artigo, Stonestreet e Padgett reconhecem que as igrejas americanas enfrentam problemas e que as expectativas recentes de um avivamento religioso ainda não se concretizaram como esperado.

Apesar disso, os autores consideram exageradas as previsões sobre o desaparecimento da Igreja. Eles recorrem a uma frase atribuída ao escritor Mark Twain para afirmar que as notícias sobre a morte da Igreja são exageradas.

O texto também menciona o escritor cristão G. K. Chesterton, que observou que, em diferentes momentos da história, a fé cristã foi considerada próxima do fim, mas sobreviveu às crises.

Os articulistas encerram a reflexão lembrando a promessa de Jesus de edificar sua Igreja e afirmam que a preservação dela não significa necessariamente crescimento contínuo em números.

Folha Gospel com informações de The Christian Post e CNN

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