Os muçulmanos dos EUA, mesmo depois do 11 de Setembro, costumavam manter distância do radicalismo religioso. Mas, no ano passado, a situação começou a mudar. Americanos de origem islâmica começaram a envolver-se diretamente no jihadismo, participando de ações terroristas e tentando integrar organizações como a Al-Qaeda.

Karl Rove, principal assessor político do ex-presidente George W. Bush, disse que “muçulmanos e árabes deveriam ser sujeitos a inspeções especiais quando entram nos EUA”, ainda que fossem cidadãos americanos.

Um caso que se tornou conhecido e chocou a população dos EUA é o de Omar Hammni, um típico americano de subúrbio. Ele chegou a ser o melhor aluno da sua classe em uma pequena cidade de Ohio e a namorar as meninas mais bonitas. Craque de futebol, frequentava a igreja cristã com a mãe aos domingos. Depois de uma viagem para a Síria, terra de seu pai e um dos países menos religiosos do Oriente Médio, voltou mais conservador e decidiu adotar o islamismo como religião, seguindo o braço paterno de sua família. Hammani, virou líder da comunidade muçulmana na universidade e passou a se vestir com trajes considerados conservadores até mesmo em Damasco. Hoje, Omar comanda uma milícia radical ligada à Al-Qaeda na Somália.

Outro americano comum que se radicalizou é Nidal Malik Hasan, o atirador de Fort Hood. Ele foi criado num rico subúrbio da Virgínia, onde estudou medicina e sempre foi bem integrado, até decidir abrir fogo contra outros soldados em uma base militar do Texas.

Em dezembro, quatro americanos foram presos tentando se filiar ao Taleban no Paquistão. Todos eram considerados moderados, de classe média alta, e não apresentavam problemas enquanto estavam nos EUA.

Eles são resultados de uma nova estratégia da Al-Qaeda para aproveitar o filão de muçulmanos americanos. A rede terrorista usa sites de relacionamento como o Facebook e MySpace, além do YouTube, para divulgar sua mensagem radical por meio de líderes fluentes em inglês. No YouTube, é fácil encontrar vídeos do clérigo Anwar al-Awalaki fazendo propaganda da jihad, nas quais incentiva até mesmo ataques contra os EUA. Há informações de que talvez ele tenha sido morto num recente bombardeio contra bases da Al-Qaeda no Iêmen, mas o grupo nega.

Awalaki, nascido nos EUA e formado na Universidade do Colorado, é didático na hora de tentar convencer jovens muçulmanos americanos a integrarem a rede terrorista. Em alguns vídeos, ele conta a história do Profeta Maomé ou parte para o recrutamento direto.

Essa nova face do islamismo ainda é marginal e difere da maioria da comunidade muçulmana dos EUA. O comediante americano Dean Obeidallah, de origem palestina e italiana, diz em seus shows em Nova York que sempre achou que fosse um americano comum até o 11 de Setembro. “Muita gente pensava que meu pai fosse de Palestina, no Texas”, afirma, referindo-se a uma pequena cidade homônima. “Apenas depois do 11 de Setembro, começaram a me olhar de forma diferente por ser do Oriente Médio”, acrescenta. Islam Fargewi, filho de egípcios de Alexandria, brinca que “enfrentava mais problemas por ser de New Jersey do que por ser muçulmano”. Agora, isso mudou.

Depois dos atentados, há oito anos, os americanos passaram a prestar mais atenção nos muçulmanos. Com os ataques, muitos começaram a comprar o Alcorão para tentar entender a religião dos membros da Al-Qaeda. Houve muita confusão. Poucos entendiam que nem todo árabe é muçulmano e nem todo muçulmano é árabe – no mundo, quatro em cada cinco islâmicos são de outras etnias.

Integração

Bush, apesar de duramente criticado, buscou, na época, desvincular os americanos muçulmanos dos responsáveis pelo ataque. Dos 19 envolvidos atentado, nenhum nasceu ou foi criado dentro nos EUA.

Os muçulmanos e árabes dos EUA vivem bem, com uma renda per capita superior à média americana e atuando em áreas como medicina, finanças e jornalismol. Dois dos principais investidores dos EUA, Mohamed el Erian, presidente daa Pimco, maior fundo de investimentos do mundo, e o bilionário Nicolas Nassim Taleb, são árabes, sendo um muçulmano e outro cristão. Até mesmo as forças americanas no Iraque foram comandadas pelo general John Abizaid, filho de libaneses.

Fonte: Estadão