Líderes paquistaneses muçulmanos e cristãos trabalham para neutralizar a tensão na cidade de Punjab, depois que rumores de “blasfêmia” incitaram ações violentas contra a comunidade cristã no começo do mês.

Segundo cristãos do local, em 1º de abril, participantes do Eid-e-Millad-ul-Nabi (aniversário de Maomé) em Toba Tek Singh responderam com violência a falsas afirmações de que homens cristãos haviam atacado muçulmanos e danificado um cartão que trazia o nomes do profeta.

Muhammad Farhan Latif, representante da Assembléia Nacional em Toba Tek Singh, disse à agência de notícias Compass que sua equipe entrou em contato com ele no dia 6 de abril, preocupada com a violência recorrente.

“Às vezes algumas pessoas tentam piorar a situação. Assim, sou chamado para intervir e tentar acalmá-las”, disse Muhammad Latif.

Líderes cristãos da região se reuniram com oficiais do governo no dia 4 de abril, tentando refutar os rumores de blasfêmia.

Os cristãos paquistaneses disseram que há mais policiamento em torno das igrejas de Toba Tek Singh, à medida que os fiéis se preparavam para celebrar a Páscoa.

“Cerca de 5% dos cristãos deixaram suas casa com medo”, relatou o ministério cristão Sharing Life em 3 de abril. Segundo o ministério, a polícia está lá para proteger o resto dos cristãos, mas eles não confiam mais na polícia local.

Aproximadamente dois mil muçulmanos atacaram a Colônia Cristã, uma vizinhança cristã, na tarde daquele domingo, apedrejando casas e “torturando homens, mulheres e crianças cristãs”, disse o ministério Sharing Life. Outra fonte cristã confirmou os detalhes do ataque, mas limitou o número de agressores a 80, uma pequena parcela do total.

A cristã Irum Gill disse ao Sharing Life que muitos cristãos foram feridos. Segundo ela, os cristãos tiveram de fugir para se salvar. Alguns se trancaram dentro de casa, mas mesmo assim os extremistas muçulmanos continuaram a apedrejá-las. Um deficiente físico cristão, Ratan Masih, não conseguiu fugir e foi bastante agredido.

Testemunhas disseram que a polícia usou cacetetes para libertar Ratan, e então o levaram à delegacia, onde recebeu os primeiros-socorros. Ratan foi internado mais tarde no hospital público da cidade.

Cristãos acusados

Acusados de blasfemar contra Maomé e despertar violência anticristã, quatro cristãos fugiram enquanto um quinto, Salamat Masih, 41 anos, está sob custódia da polícia.

Um boletim de ocorrência feito na delegacia em 1º de abril acusa Salamat, seu filho Rashid, de 16 anos, e seus parentes Sahibah, Shehla e Bao de blasfêmia.

O boletim foi feito por um vizinho muçulmano, Abdul Ghafar. Segundo ele, Salamat e Bao atacaram o sobrinho de Abdul que ia participar das celebrações do nascimento de Maomé.

Abdul disse que os cristãos tiraram do bolso um cartão onde estava escrito “Maomé, profeta de Deus”. Eles jogaram o cartão no chão e o pisotearam. Abdul informou a polícia que amigos muçulmanos haviam ajudado seu sobrinho a escapar dos cristãos, mas disse que estes últimos haviam voltado à sua casa com outros reforços.

Ele contou que cinco cristãos, armados com uma pistola e bastões de madeira, entraram em sua casa, arrombando a porta, e começaram a insultar o profeta Maomé, enquanto maltratavam sua família.

Conforme Abdul, dois membros de sua família foram feridos durante o ataque a ponto de terem de ir ao hospital.

Abdul relatou então o incidente a um grupo de muçulmanos que faziam uma procissão na vizinhança, o que deu início à violência.

Causa do conflito

Mas, os cristãos disseram ao ministério Sharing Life que a real causa do conflito foi uma briga entre Daniel, filho de Salamat, de 11 anos de idade, e seus amigos muçulmanos.

As crianças muçulmanas agrediram Daniel, que se recusou a brincar com elas na manhã de 1º de abril. Isso causou uma discussão tensa entre a mãe de Daniel, Munawar Bibi Masih, e a família de uma criança muçulmana chamada Sunny.

A família muçulmana se ofendeu e deu uma queixa falsa à polícia, o que teria levado à violência da comunidade muçulmana.

“É um caso forjado contra cristãos inocentes”, o padre Bonnie Mendes, de Toba Tek Singh, disse à agência de notícias AsiaNews no dia 4 de abril.

Salamat Masih, sua esposa, seus oito filhos e duas irmãs vivem no parque Bakshi, uma área muçulmana de Toba Tek Singh, conhecida por abrigar grupos islâmicos extremistas.

A maioria dos cristãos da comunidade vive em Mubarakabad e na Colônia Cristã, uma em cada lado do parque Bakshi.

Um cristão disse que é possível que extremistas muçulmanos ataquem as igrejas cristãs a qualquer momento.

O representante da Assembléia Muhammad Latif admitiu que a área tem a reputação de ter extremismo religioso, mas ele afirmou que nunca havia visto violência como aquela.

“Há muitas pessoas profundamente associadas a atividades religiosas, mas nunca houve um incidente assim em Toba Tek Singh, porque as pessoas são bem educadas”, disse Muhammad Latif.

Em abril de 2004, o universitário Javed Anjum foi seqüestrado por extremistas muçulmanos fora de uma madrassa (escola islâmica) de Toba Tek Singh, e torturado por cinco dias até recitar o credo muçulmano.

No mês seguinte, Javed morreu em um hospital de Faisalabad, em decorrência das torturas que sofrera. Dois de seus seqüestradores foram condenados à prisão perpétua em 3 de março de 2006.

Fonte: Portas Abertas