Com o sugestivo título acima, a rede Globo promoveu um evento histórico no Rio de Janeiro, semana passada. Reuniu nada menos que 200 sambistas de várias gerações, para um encontro memorável no Pão-de-açúcar.

A lista de convidados incluía nomes como Beth Carvalho, Neguinho da beija-flor, Dona Ivete Lara, Martinho da Vila e outros monstros sagrados do samba carioca, mas também representantes da nova geração de sambistas, personificados em Diogo Nogueira de apenas 26 anos de idade, filho de outro bom sambista, João Nogueira.

Deve ter sido realmente um acontecimento inesquecível; só mesmo a rede Globo com seu “cacife” para aglutinar tanta gente importante e até mesmo adversários de escolas num só local. E que local! Com o visual deslumbrante que só o Rio de janeiro tem, principalmente visto de cima, as reportagens certamente ficarão na história. Combinando descontração, música e tradição, ficava difícil não se emocionar diante do quadro. Houve até mesmo quem dissesse que se caísse uma bomba no local, o samba carioca estaria acabado, tal a concentração de sambistas de qualidade.

Mas, samba à parte, o que mais me chamou a atenção no evento, foi mesmo o título escolhido. Com um trocadilho visivelmente proposital, não ficava claro se a intenção era usar a palavra “Céu/firmamento”, ou “céu/paraíso”. Em ambos os casos, na minha opinião, o título ficaria pouco apropriado e até mesmo contraditório.

Imaginar uma co-relação entre Céu/paraíso com carnaval, realmente não poderia ser mais improvável e impossível; a própria acepção do termo “carnaval” em sí já seria incongruência suficiente para sua associação a paraíso celeste. Tem acesso ao Céu, através de Jesus, somente aqueles que rejeitam os impulsos da carne, que a Bíblia chama de “Concupiscência”, em detrimento do fortalecimento do espírito. No carnaval, a proposta é exatamente o oposto! Ou seja a vasão livre e desenfreada dos tais impulsos.

Talvez em outros tempos, pudesse até haver alguma ingenuidade nos festejos carnavalescos, mas essa época já está muito, muito longe dos dias atuais. Hoje em dia, a onda é se esbaldar, beber até cair, fumar maconha e se promiscuir com o maior número possível de pessoas. Soube até de casais de namorados que de comum acordo promovem “férias conjugais” no carnaval, para se envolver livremente com gente alheia. Essa estória de “brincar” carnaval, talvez só exista mesmo nos bailes infantis e olhe, lá.

E mesmo se usarmos céu/firmamento, ainda assim o título não faria jus ao evento, porque o que aconteceu lá em cima teve muito pouco a ver com carnaval; se carnaval fosse só samba, até eu me animaria em participar. Mas, infelizmente não é. E a mesma rede Globo, que brilhantemente promoveu o “carnaval no céu”, falha em mostrar na sua programação normal, o lado feio e sujo do carnaval. Não iremos ver nos noticiários e flashes da Marquês de Sapucaí, nenhum bêbado caído no chão de tão embriagado, nem as brigas, algumas com conseqüências fatais, os lares desfeitos, as doenças venéreas, os acidentes de carro, as ruas emporcalhadas e empestadas com excrementos. Não. Vão continuar apenas mostrando celebridades, mulatas semi-nuas (semi?), turistas e gente jovem e bonita pulando feito pipoca.

No Céu, vai haver muita alegria, disso tenho certeza! E também muita festa; mas sei que não será nada parecido com a chamada “festa da carne”.

Um abraço,

Leon Neto