E não é que no final das contas foi mesmo Olavo que matou Taís? Pois é; até mesmo para uma pessoa como eu, que não assiste novela, foi quase impossível ficar alheio ao final de “Paraíso Tropical”, que parou o Brasil esse final de semana.

Coincidentemente, o mesmo ator, Wagner Moura, também foi noticia por conta do filme “Tropa de Elite”, que está prestes a ser lançado oficialmente em circuito nacional.

Como deve ser para um ator jovem e talentoso conciliar dois meios tão diferentes? Qual dos dois gêneros deve ser mais gratificante para um ator? Será que existe a opção de se dedicar exclusivamente ao cinema no Brasil?

Pensando nas questões acima, resolvi fazer aqui uma reflexão sobre as diferenças entre cinema e novela, no Brasil.

Começo dizendo que odeio novela, principalmente as da Globo; as produções de outros canais, são na maioria das vezes tão toscas, que acabam sendo mais divertidas e risíveis. A Globo, sob a pretensão de ser “uma das melhores do mundo”, faz produções nababescas, mas que na sua essência não diferem muito das novelas mexicanas, tipo “Maria do Bairro”.

Em segundo lugar, sou apaixonado por cinema. Por isso meus comentários certamente terão uma certa tendência a valorizar o segundo em detrimento do primeiro.

Minha maior queixa em relação ao gênero novela, se dá por conta de, na minha opinião, não ser uma modalidade artística, mas puro entretenimento em sua versão mais barata e popularesca. Como é um formato aberta, ou seja, nem o autor tem idéia de como a trama vai acabar, está sujeita de forma muito mais flagrante as influências da audiência e de patrocinadores do que o cinema.

O autor tem que se curvar ás exigências do mercado, mais do que à suas idéias e senso artístico. No cinema, especialmente o dos grandes estúdios americanos, claro que os filmes estão sujeitos às mesmas influências, mas como são obras fechadas, o trabalho do autor do roteiro e do diretor são muito mais visíveis e podem ser avaliados como um todo. Além disso, como estamos aqui, falando de cinema nacional, as tais influências que citei em relação ao cinema americano, pouco se aplicam em nosso contexto. Muito menos dinheiro, mas muito mais liberdade.

Nas novelas, pouco trabalho de pesquisa e laboratório são feitos pelos atores; em alguns casos, pode até existir algum treinamento e busca de informações sobre um determinado tema ou situação que a novela vai abordar, mas como no dia-a-dia dos atores, os capítulos são entregues com muito pouca antecedência, não dá pra manter uma linha de atuação coerente por muito tempo.

Já no cinema, geralmente há mais tempo para os atores elaborarem seus personagens. Veja só o caso de “Tropa de Elite”, filme que aborda a violência urbana no Brasil a partir do ponto de vista dos policiais; Wagner Moura se preparou para o papel com meses de antecedência, e até participou de um treinamento real na academia da policia militar. Quando as filmagens começaram, ele certamente já tinha melhores condições de passar veracidade a seu personagem.

Males comuns aos dois gêneros são o tal do merchandising e a mediocridade dos atores. O “merchant” infelizmente está impregnado em todos os meios de comunicação, sem exceções. Mas, no cinema, de modo geral ainda se é mais discreto do que na novela, onde até mesmo nos diálogos estão inserindo falas sobre produtos! É o cúmulo do ridículo!

Me lembro que o extinto “TV Pirata”, satirizou algumas cenas de novelas a mais de dez anos atrás, com situações bem exageradas de merchandising. Todos riram muito, mas acharam que isso nunca iria acontecer. Pois é; aconteceu. Atores bonitos mas medíocres também são facilmente encontrados nos dois gêneros, mas nas novelas, como se faz de tudo para alavancar a audiência, os “Gianecchinis” da vida proliferam e até mesmo se tornam protagonistas.

No cinema ainda há espaço para bons atores, que não são bonitos, conseguirem bons papéis, enquanto que nas novelas, são relegados a papéis secundários e sem importância na trama.

A degradação moral, onde a família e os princípios cristãos são atacados e até mesmo ridicularizados, também faz parte tanto de um quanto de outro; mas, o cinema não invade nossas casas em horário nobre como a novela faz.

Certamente que nem toda novela é ruim e nem todo filme é bom, mas em termos de modalidade artística, fico com o cinema. Em duas horas você pode assistir a um filme inteiro e tirar suas conclusões e fazer sua crítica. A novela aprisiona milhões e milhões de brasileiros que passam a sublimar suas frustrações e decepções nos cinqüenta minutos diários de uma trama rasa e popularesca, e que não se dão conta do tempo que estão perdendo na frente da telinha.

Em média, perde-se por perto de 1300 minutos por mês, só na novela das oito! Isso dá mais de 20 horas por mês. E se você assiste também a novela das seis, das sete, “malhação”, “vale a pena ver de novo”, será quase o equivalente a um trabalho em tempo integral. Sem remuneração, vale salientar.

Não que eu ache impossível surgir um dia, uma novela de boa qualidade artística e que a mantenha pelos seus intermináveis capítulos diários; mas, “é mais difícil do que passar um camelo pelo buraco de uma agulha.”

Bom seria que atores talentosos como Wagner Moura, pudessem se dedicar integralmente à produção de filmes nacionais. Mas, em um país como o nosso, fica difícil competir com a televisão aberta. E fica mais difícil ainda, para minha tristeza, cinema competir com novela.

Um abraço,

Leon Neto