Até os 14 anos , eu não tinha o menor interesse em musica brasileira. Naquela época eu tinha começado a freqüentar os bailinhos de adolescentes, que eram regados à luz estroboscópica e musica Discotheque, principal gênero pop do final dos anos setenta. Assim, acabei me encantando com as musicas contagiantes de Donna Sumer, Kc ande The sunshine Band, Jackson five, Kool and The gang e principalmente Bee Gees. A principal referência musical da minha adolescência, foi um filme chamado “Os Embalos de Sábado à Noite”, estrelado por um John Travolta ainda magro e usando um topete ridículo.

Aquele mundo parecia para mim, ser o que de melhor poderia existir em termos de musica e estilo de vida. Qualquer coisa que não fosse cantada em inglês seria certamente desprezada. Musica brasileira para mim era sinônimo de caretice.

Mas, quando tudo parecia caminhar para o “ lago da perdição ”, aconteceu um milagre na minha vida. Hoje vejo claramente como sendo a mão de Deus sutilmente interferindo na minha história.

Meus pais, ao voltarem de uma viagem à Recife, trouxeram na bagagem um disco muito esquisito de um grupo pernambucano ainda mais esquisito; tratava-se do “ Quinteto Violado” . Claro que , por princípio , eu jamais pensaria em deixar de ouvir, nem por um segundo, o meu disco novo dos Bee Gees para colocar aquela coisa de “ Pau-de-arara” na minha ” vitrola” ( é, gente; antigamente era assim que se chamava…). Mas não sei direito porque cargas d’água , numa manha chuvosa de sábado, resolvi dar uma escutada naquele tal disco esquisito, nem que fosse só pra comprovar minhas teorias acerca da superioridade da musica norte-americana sobre as demais. O que eu não contava era com a minha total surpresa ao ser invadido por aquele som totalmente novo e diferente de tudo o que já havia ouvido até então.

Toques de viola virtuosísticos, efeitos percussivos primorosos, acordes ricos e inesperados e aquele delicioso sotaque nordestino, me fizeram ficar estatalado no chão, totalmente dominado pela musica mais rica que eu tinha ouvido em minha vida. Não conseguia mais parar de ouvir aquele disco que eu podia até entender sem ajuda de dicionários, e que falava de uma realidade totalmente diferente da que eu vivia; um povo que eu só conhecia dos noticiários e de uma cultura que apesar de ser minha própria, ignorava totalmente.

O Quinteto Violado causou uma revolução não só na minha maneira de conceber musica, mas também e principalmente , na maneira de enxergar meu país e a mim mesmo. Passei a ver beleza no solo rachado do sertão, nos aboios e na voz rude dos repentistas. Passei a querer conhecer as comidas, as paisagens e as tradições que antes ridicularizava. E graças ao Quinteto , é que tive vontade de aprender a tocar violão e a me interessar por musica brasileira em todas as suas dimensões. Naquele momento, eu não tinha a menor idéia de que iria, dentro de poucos anos morar no nordeste e me tornar amigo dos componentes do extraordinário Quinteto violado.

Por isso, é com extrema tristeza que escrevo essa coluna. Toinho Alves, criador e força-motríz do Quinteto Violado faleceu semana passada.

Com apenas 64 anos, Toinho ajudou a elevar o Quinteto ao mais alto degrau de qualidade e a conquistar respeito internacional como poucos grupos conseguiram na historia da MPB.

Toinho era um musico genial, de criatividade explosiva e personalidade exuberante. Um amigo querido que me ensinou muito sobre musica e sobre a vida em geral. Fomos sócios por alguns anos na Matulão produções e a nossa convivência influenciou muitos dos meus projetos pessoais e produções. Toinho sempre foi bastante aberto à musica evangélica, e juntos produzimos uma das edições do Festgospel.

Sua partida, certamente deixa uma lacuna que não será preenchida. Mas seu legado não irá desaparecer jamais. Continuará vivo em seu talentoso filho Dudú Alves, meu amigo-irmão, no Quinteto, que há de encontrar forças para mais uma vez se renovar e alçar novos vôos, e principalmente nas milhares e milhares de pessoas que ele influenciou ao longo de sua brilhante carreira. Entre elas, aquele adolescente chato que só queria saber de musica americana…

Leon Neto