Basta chegarmos ás proximidades do Natal, que uma enxurrada de corais e grupos vocais em geral inunda as cidades e as igrejas, espalhando musica vocal para todos os lados.

Quase todos os dias da segunda quinzena de Dezembro, os shoppings têm escalas de corais cantando nas praças de alimentação e escadarias, os hospitais, filas de grupos vocais querendo levar um pouco de alegria aos doentes solitários, e em algumas cidades, praças, prédios inteiros e até barcos viram peças vivas cantantes, na época do Natal.

As associações de corais no país inteiro promovem serestas natalinas, festivais e caminhadas; mas, é mesmo nas igrejas evangélicas onde a tradição de usar corais e grupos vocais no natal, mais se faz presente e atuante.

Pelo menos entre as igrejas evangélicas históricas, é difícil encontrar uma que não esteja preparando uma cantata ou que já tenha apresentado um musical com temática natalina. Gente que passa o ano inteiro faltando ensaio, de repente vira assíduo, só pra não correr o risco de ser cortado da cantada, na última hora. Afinal de contas, a igreja vai estar cheia, incluindo aqueles que faltam aos cultos o ano inteiro, mas de repente viram “assíduos”, só no Natal e ano novo.

A música vocal em nossas igrejas é uma tradição tão forte que por muito tempo foi a única forma de música permitida; nos primeiros séculos de Cristianismo, todos os instrumentos musicais foram excluídos para evitar qualquer tipo de associação com os cultos pagãos greco-romanos. Inclusive, ainda existem denominações que não permitem a utilização de instrumentos em seus cultos. Nos Estados Unidos, a “Church of Christ”, não admite outro tipo de música que não seja estritamente vocal. Nem piano, nem órgão, nem nada só música “á capela”. Dizem que no novo testamento não há nenhuma referência ao uso de instrumentos musicais, estabelecendo assim um padrão a ser seguido. Parece que a Bíblia deles não tem o livro de salmos…

No Brasil, desconheço Igreja evangélica que proíba o uso de instrumentos musicais por completo; algumas continuam apenas no piano e órgão, mas a maioria já usa até mesmo instrumentos contemporâneos, como Bateria e guitarra, sem o menor problema. E a tradição de montar cantatas de natal continua firme e forte. Aliás, uma das poucas tradições que mantemos no Brasil. Talvez por que não exista organização mais democrática que coral de Igreja. Todo mundo pode participar, não precisa ser importante, ter boa voz ou mesmo ser afinado; há espaço para todo mundo no coral, e corais de todos os formatos: adulto, jovem, infantil, masculino, feminino, de terceira idade, enfim, para literalmente, todas as idades.

Os corais em igrejas cristãs, não se resumem a ser apenas grupos musicais, mas funcionam como um verdadeiro microcosmo, que representa a própria comunidade na qual se inserem. Podemos encontrar todos os conflitos e idiossincrasias da igreja, habitando no ambiente dos ensaios e apresentações. Complexos e traumas são expostos, frustrações vêm á tona e animosidades enrustidas, muitas vezes explodem. Por outro lado, muitas arestas são aparadas, relacionamentos restaurados e fissuras coladas, tudo no microcosmo dos corais de igreja.

Por isso, mais do que músico, o ministro de música precisa ser também, e fundamentalmente, pastor de rebanho. Descobri isso após minha primeira experiência liderando a música de uma grande igreja, ainda muito jovem. De nada adiantou ter estudado tanto os mestres da musica coral, como Bach e Handel e exercitado minhas habilidades musicais ao limite. O que fêz diferença foi entender que as pessoas vão aos ensaios da mesma forma que vão á igreja: doentes, na esperança de serem curadas.

Portanto, espero que a tradição das cantatas natalinas continue por muito tempo fazendo parte do nosso fim de ano. E espero também que os corais assumam cada vez mais seu papel de propagador das boas novas e ungüento das almas de quem ouve e de quem canta.

Feliz natal para todos, e um grande abraço,

Leon Neto