Papai Noel com uma criança
Papai Noel com uma criança

O Natal, as tradições natalinas, Papai Noel, São Nicolau, Santa Claus, os símbolos natalinos, as Festas Natalinas, as renas do Papai Noel, a moradia no Polo Norte, são partes de um cenário que consegue metaforizar a felicidade e impor a satisfação de um desejo. Existe um “mundo” criado por cada um de nós, onde vivenciamos as nossas relações sociais, e é fato que esse mundo pode sofrer variações de uma pessoa para outra. A esse mundo daremos o nome de “universo simbólico”, e apesar de cada pessoa possuir um universo simbólico, existem elementos dentro desse nosso universo particular que são comuns a todos, cada elemento contido em cada universo possui uma função.

Pretendemos chamar a atenção para essa função simbólica de cada elemento contido em cada universo que é tão subjetivo. O simbólico atua como mediador entre as pessoas e o meio. Então, para Lacan esse mundo ou universo simbólico organiza a vida das pessoas em uma realidade significante. Segundo Lacan, para que exista o inconsciente é necessário existir a linguagem. O simbólico e a linguagem são condições essenciais para a existência do inconsciente. Segundo Saussure, diferentemente de Lacan, utilizamos a linguagem simbólica quando utilizamos símbolos para referenciar determinadas coisas. O uso de símbolos e suas representações são essenciais para estabelecer a comunicação, assim sendo, a linguagem simbólica é carregada por uma forte emoção, pois pode atribuir de acordo com a interpretação das pessoas, mais de um sentido para a mesma coisa. Essa pluralidade de sentidos atribuídos ao simbólico também pode ser vista na diversidade de teóricos que definem esse termo.

A função simbólica, segundo Piaget, é um termo usado para designar a nossa capacidade de usar representações mentais, que podem ser palavras, imagens ou números, e à essas representações mentais atribuir significados. Em 1960, Lacan ilumina a teoria freudiana com textos do linguista Ferdinand de Saussure. Ele apresenta o homem como um “ser simbólico”, que está submetido à linguagem e é por ela atravessado. Sendo assim, Lacan define o inconsciente como uma estrutura compreensível à luz das palavras. Dessa forma temos a seguinte afirmativa de Lacan: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Segundo Saussure, o signo é produto da articulação de dois elementos complementares: o significante que é a parte acústica da palavra e o significado que é o objeto designado. Não devemos compreender o signo linguístico como a união de uma palavra e uma coisa, mas sim compreendê-lo como a união de uma imagem acústica (massa sonora constituída por fonemas) e um conceito, ou seja uma imagem mental (significado). Lacan descarta a concepção de Saussure e elabora uma teoria do significante.

Segundo Lacan, na linguagem do sujeito do inconsciente, sujeito castrado, segundo a Lei do Nome do Pai (complexo de Édipo), existe uma autonomia do significante sobre o significado, ou seja, um privilégio do significante em detrimento do significado. Podemos compreender o significante como aquele que não significa nada ou pode significar qualquer coisa. Faz parte da estrutura do significante estabelecer uma conexão com outros significantes e assim formar uma cadeia a qual chamamos de cadeia inconsciente de significantes. O significado é decorrente da cadeia de significantes. É nesta cadeia que o sentido insiste em permanecer. É necessário que exista este sujeito para que o significante passe para o plano da significação do significado.

Papai Noel, como significante, insere a criança no mundo do sentido das palavras (imaginário lacaniano), onde se cria o mundo das coisas, que se organizam em torno do par presença e ausência (fort/da freudiano). O bom velhinho que todo ano aparece e desaparece repetindo esse gesto incansavelmente. Mas, essa brincadeira de Papai Noel, que consiste em fazê-lo aparecer e desaparecer, implica na destruição do objeto, que consiste no desaparecimento do sujeito, já que ele (Papai Noel) se toma como objeto, realizando a manifestação do símbolo. Diz Lacan: “o símbolo se manifesta inicialmente como assassínio da coisa, e essa morte constitui no sujeito a eternização de seu desejo” (LACAN, 1998, p.320). Lacan cria um neologismo “assassínio” para explicar que a morte do objeto é uma ficção, e não a morte verdadeira que seria um assassinato.

O grande Outro é o lugar do inconsciente, onde está o grande Outro, ali estará o inconsciente.

O grande Outro pode ser representado pela mãe (grande Outro primordial), pelo pai, e até por Papai Noel, como um grande Outro social. Por ocasião do Natal, o Papai Noel enquanto grande Outro social, pode não estar presente em todas as pessoas. Pois, ele pode ser substituído por um grande Outro místico, como por exemplo, Deus. O Papai Noel pode ainda não estar no lugar de nenhum grande Outro, e assim tornar-se um representante do Real (lacaniano). Então, para essas pessoas, Papai Noel seria um delírio. Sendo uma representação psicótica do mito Papai Noel. Ele pode ainda simplesmente ser um representante da cultura.

Helena Chiappetta